O ônibus é a praia do povo


Há alguns anos, eu me pergunto o porquê dessa onda de usar roupas apertadas, seguramente de numeração menor do que o corpo que vestem. A moda “pegou” especialmente entre as mulheres das classes menos favorecidas, ditas trabalhadoras. Conforme se sobe na escala social, a numeração vai aumentando. Mas isso seria assunto de sociólogo.

Quer confirmar? Basta olhar em volta, no metrô ou à espera dele, no ônibus ou à espera dele, para encontrar mulheres que não se inibem em mostrar os recortes de seu corpo e até das partes… como as chamaremos? Depois, é só olhar a roupa dos ricos, estampada nas revistas, na televisão: as supostas formadoras de opinião se vestem diferente.

Dizer que as roupas baratas não são feitas em números grandes não é verdade -ou, pelo menos, não justifica. Mesmo porque as mulheres magras, do povo, também se esmeram em usar roupas agarradas. Não é questão de tamanho nem de preço. Creio que é de classe social. O confeccionista faz o que tem mais saída.

Não estou discutindo se cavalo curto, entrando pelas reentrâncias, é bonito ou feio, se agrada ou não agrada, se é sexy ou não. Uma coisa é certa: cavalo curto, com camiseta curta e apertada, apela para o erótico e deve atender a algum apelo de diferenciação de gênero. Atribuo seu sucesso a Eros.
Não digo que as classes A, AA ou AAA não usem cós baixo, deixando entrever as roupas íntimas, mas a ocorrência é menor e, em geral, restrita a adolescentes que arriscam. Com o aumento da idade, a exibição é amenizada.

O que me intriga é o seguinte: dizem que as mulheres da classe trabalhadora almejam ter acesso ao universo das “madames”; mas, no que se refere ao cavalo curto e ao tamanho das roupas, observamos uma completa autonomia entre as duas classes de mulheres.
Quem me lê pode supor que estou criticando, mas não é nada disso. Escrevo para expressar a minha admiração em relação à saúde e ao orgulho com que certas mulheres menos complicadas e sofisticadas assumem seu lado erótico.

Justamente pensando nisso, ocorre-me uma idéia. Espremida entre o trabalho e todas as tarefas caseiras que lhe cabem, a mulher trabalhadora, a mulher operária, encontra no espaço da locomoção pública o lugar onde “vê e é vista”. Aí ela se compara e pode viver sua sensualidade e seu erotismo.
As colunas sociais e de fofocas estão repletas de endereços onde as mulheres que não tomam condução, pois têm automóvel à sua disposição, vão para “ver e serem vistas”. Os clubes esportivos e sociais, os teatros, os restaurantes, o campo e a praia constituem o espaço da paquera dos que têm acesso a esses lugares.

Na falta de tempo para freqüentar praia, clube e shopping, as mulheres da classe trabalhadora encontraram uma saída criativa. Não sendo vergonha nenhuma ser mulher e querer agradar, usam o espaço público da urbe para paquerar -ele se presta muito bem a isso. É verdade que são horas e horas de possível desconforto, mas “vendo e sendo vistas”. E, para tanto, a roupa que mostra sem desvelar é o ideal, já que o biquíni na cidade é impossível.

Parabéns ao instinto de vida!


ANNA VERONICA MAUTNER , psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora) amautner@uol.com.br Fonte: amautner@uol.com.br Fonte: Folha de São Paulo - Equilíbrio

Edgard Almeida

eddie
Advogado, com pós-graduação em Administração pela FGV-SP e MBA em Gestão Internacional pela Thunderbird School of Global Management, USA. Editor do Fashion Bubbles e cursa formação em Psicanálise.

3 Responses to “O ônibus é a praia do povo”

  1. dia desses conversava a respeito com amigas de curso e sou de comum acordo com o discurso do texto. O que foi relatado é um fato! É uma questão cultural e reflete bem a vida “apertada” dessas mulheres. É o ideal de sensualidade e o momento em que colocam seus shortinhos e decotes mega apertados, é o momento em que se sentem poderosas. Não vejo nada de preconceituoso em relatar a realidade…

  2. Mais preconceituoso impossivel.

  3. Mal escrito. Esperaria mais de uma psicanalista de uma Sociedade Brasileira. Nem ao menos consegue disfarçar estar ou não fazendo o que nega: criticando. Embora tente findar o falatório com ar de amabilidade, fica explícito o real intento:
    “…Mesmo porque as mulheres magras, do povo…” Ora, que as altas classes são o que senão parte do mesmo povo? Não para a autora.

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