TENDÊNCIA na Pós-modernidade
Reflexões & Comportamento | Angela Rodrigues | March 18, 2009 at 8:39 pmAnúncios
Por Ângela Rodrigues
Tenho pensado e escrito muito sobre a pós-modernidade porque penso que estamos passando por um momento de reumanização e ressignificação que contempla vários aspectos de nossa existência individual e social e isso muito me interessa.
Moda, decoração, gastronomia, comportamento são, a meu ver, algumas das áreas que nos ajudam a decodificar muito mais que apenas práticas sociais e estéticas. Design de interiores e decoração de ambientes privados, democratização de requintes antes elitizados e o encontro do indivíduo com uma moralidade em construção são micro-realidades a partir das quais podemos decodificar tendências, e, a partir delas, termos uma visão mais apurada de aspectos importantes da contemporaneidade.
Ninguém discute a importância que as grandes narrativas tiveram na elucidação de aspectos importantes da existência humana e extra-humana nas mais variadas áreas. Galileu, Darwin, Marx, Freud, para citarmos apenas as que colocaram o homem no seu devido lugar, cunharam conceitos, estruturaram teorias, ideologias basilares para a compreensão inclusive dos eternos paradoxos sócio-econômico-culturais da sociedade. Mas penso que não podemos eternizá-los como referências de análise em detrimento de novas formas de abordagens capazes de darem conta de novidades impensadas em momentos anteriores.
Alguns já se precipitaram em afirmar que tendência é um termo inapropriado para dar conta da contemporaneidade. Nada mais equivocado ou no mínimo, discutível.
O termo tendência pode ser interpretado sob duas perspectivas: uma reducionista e a meu ver equivocada que se refere ao curtíssimo prazo, a sazonalidades, e a aspectos comuns no que tange à moda entendida aqui como o novo que se manifesta no vestuário, na decoração e em grande parte de nossas produções estético-funcionais.
Entendido dessa forma reduz-se o conceito a quase nada e, um dos principais estratagemas para se captar as expectativas de uma época se perde por visões que tendem a confundir tendência com interesses mercadológicos e sugestões tendenciosas de “criadores” de necessidades planejadas.
Em seu sentido mais amplo, conceituo tendência como o espírito do tempo (assim como Dário Caldas), como algo que transcende a realidade instituída e se cristaliza em necessidades e desejos ressignificados pelas novas produções sociais.
Entendo tendência como o amálgama de micros desejos e necessidades consubstanciadas em um macro que se pulveriza nas mais diversas manifestações humanas.
Se na primeira definição tendência é tida como algo que se estabelece verticalmente, de cima para baixo, de poucos para muitos, na segunda temos uma horizontalidade includente que corresponde a desejos e necessidades materiais e metafísicas que emanam da própria atuação do homem sobre sua realidade. Essas necessidades se apresentam a princípio muito timidamente, mas aos poucos vai ganhando vida própria e assim obriga o mercado a se adaptar a elas. Nada mais claro se considerarmos o novo perfil do consumidor redesenhado pelo neo-individualismo que destrona a massificação recorrente no século XX.
Portanto, tendência e pós-modernidade não podem ser tidas como conceitos excludentes, são na verdade, complementares na medida em que apontam, cada um à sua maneira, para fragmentos de uma totalidade ressemantizada o que sugere que tendência não se refere ao imediatismo. Para evidenciá-lo mais concretamente, resgato um pensador francês – Paulo Virilio – que na década de 90 afirmou em entrevista que a aceleração da realidade tecnológica somada à artificialidade inerente as práticas sociais permeadas por máquinas traria consigo a necessidade de desacelerar.
Hoje, a “profecia” se realiza. Creio que a tendência pós-moderna é o desacelerar da existência, o que denota a necessidade de ressignificação do tempo.
No século XX experienciamos o aumentar constante da velocidade na produção, no consumo, no transporte, na comunicação e na cotidianidade de modo geral. Isso culminou no vencimento prematuro da data de validade de nossas produções, conquistas, desejos, relações afetivas; comprometeu nossa humanidade, nossa qualidade de vida se esvaiu. Portanto, a desaceleração surge como uma necessidade humana gestada no apogeu do tecnocentrismo. A prevalência de muita tecnologia traz consigo a necessidade de reapropriação do tempo necessário para se viver humanamente. Nada mais dialético.
Desde algumas décadas, a moda esteve atrelada à efemeridade. Criava-se, apresentava-se na passarela o que em breve estaria nas ruas. Hoje ninguém contesta que a referência criativa da moda é a passarela da rua onde desfilam indivíduos ávidos para comunicarem através da plástica da moda e do corpo (como diz Kátia Castilho) o cansaço da era tecnológica. Vemos na roupa da rua e por conseguinte na passarela (como o demonstram alguns desfiles da semana de moda de Paris inverno/2009-20010) o retorno de necessidades perceptíveis na semântica de roupas há muito conhecidas.
O retorno ao velho, ao vintage, ao retro, a meu ver corresponde a um processo de releitura do vestuário muito instigante que sugere saudade inclusive de algo não vivido. A ausência de verdade, de intimidade, de cumplicidade, de aconchego parece amenizada com uma peça confeccionada por mãos, linhas e agulhas que deixam registros nunca percebidos no pret-a-porter. Roupa com história, com memória parece reumanizar o modelo, ressignificar o corpo, reascender a aura, é realmente interessante. Ao fast fashion, à moda efêmera contrapôe-se a slow fashion, à moda atemporal que resgata o tempo e sugere o perene.
Quanto à decoração dos nossos ambientes privados, tem sido recorrente vestígios de demolição, de uma materialidade natural, misturas de estilos, de cores, de texturas desbancam a previsibilidade do vidro, do ferro, do alumínio, das combinações. As plantas não habitam apenas o jardim, mas todos os cômodos; dão vida a artefatos com longas trajetórias. Móveis customizados, objetos de décadas denotando resquícios interessantes de momentos vividos em outros tempos. Quanta saudade, nem sempre se sabe do que! É preciso ter idade para percebê-lo, mas não para senti-lo.
A ascensão da gastronomia como prazer também me parece reveladora. Hoje, queremos um espaço gourmet que incita a atividade social que reúne ao fogão e à mesa muitas mãos com tempo para a fruição de sabores simples antes ofuscados por menus quase indescritíveis em todos e por todos os sentidos. O fazer, o processo, a alquimia, o degustar não mais para sanar apenas necessidades biológicas, mas também algumas outras que poderiam ter as mais variadas definições. Fazer não apenas para comer me sugere a busca por necessidades que requerem alimentos metafísicos embora muito mais familiares que quaisquer outros conhecidos. Hoje, queremos alimentar nosso corpo biológico e nosso corpo cultural, não há como fugirmos.
Através da roupa, da decoração e da gastronomia parecemos clamar pelo retorno do que era velho mas, na verdade o que prevalece é a necessidade de cápsulas de humanidade, nem importa muito se industrializadas ou manipuladas, mas que sejam eficazes na cura da artificialidade que passou a imperar há algum tempo em nossas produções, nossas representações, nossas relações, nossa existência!
Se é assim, que sejam feitas releituras, resgates e que consigamos nos reencontrar ao máximo com o que era velho e que agora, com nossa percepção mais aguçada, se revela ressemantizado.
Nada mais moderno e atual que exaltarmos sentimentos, sensações, relacionamentos, relações, cumplicidades, fragilidades, inseguranças. Não ter que ser super herói é realmente apaixonante. Não ter que ser super em quaisquer sentidos essa é, a meu ver, a tendência dos próximos anos! E que não sejam poucos…
Abraço a todos.
Popularity: 1% [?]
Tags: darwin, devido, galileu, grande parte, humana, marx freud, Obras Acadêmicas, Obras de Referência, Reflexões, Reflexões & Comportamento, Tendências, Tendências de Consumo

Tweet This
Digg This
Save to delicious
Stumble it
.
.
.
.
.
.
Ai! Angela só fui ler agora sua matéria, adorei a colocação de tendência, o viver agora que já foi vivido, uma chance de olhar novamente aquilo que não vivenciamos no passado, muito bom, bom mesmo.
Pedro Cruz
Legal… achei fantástica a citação do escritor francês, que me lembrou uma entrevista do Eco na Folha, sobre essa era tecnológica… Parabéns! Amo pesquisas! =)
Edgard, muito obrigada!
O prazer da reflexão é ainda maior quando temos retorno do leitor. Eu, particulamente, me sinto gratificada.
abraço,
Angela.
Queila,
o que significa exatamente sua afirmação?
Apesar de não ter entendido me parece positiva, entao desde já agradeço,
um abraço,
Angela.
Ângela,
Cada vez mais me apaixono por seus textos!
abraço,
edgard
Nossa, gostei de encontrar uma alma gemea
O que dizer de tão bela reflexão com a qual tanto me identifiquei???
O que dizer do dom de traduzir em palavras e de forma tão embasada sensações que para mim traduzem este momento?
Na verdade só consigo agradecer por compartilhar conosco todo esse conteúdo capaz de gerar reflexões profundas.
Ângela, que bom tê-la como nossa colaboradora!
Abraço, Denise