Lilica, a cachorra do vizinho

Lilica, a cachorra do vizinho

Nunca gostei muito de bicho. Não porque verdadeiramente não goste deles, até gosto. Mas ter um animalzinho de estimação requer cuidados e dedicação – é isso que tento evitar. Gosto da minha vida corrida e comprometida comigo mesmo.

Já tive peixes e gatos, que são bichos que se viram quase que sozinhos. Você não precisa levar para passear, fazem pouca sujeira, são pets de “baixa manutenção”. Já passarinhos e cães, quando não produzem poluição sonora, não escapam da exigência de tempo para atenção e cuidados.

Entretanto, certa vez não consegui recusar o pedido de vizinhos para cuidar de sua cadelinha durante uma viagem internacional que duraria uma semana. Lá veio o animalzinho, com coleira, uma carretilha para passeio, uma bolsa com fraldas para suas necessidades, ração especial, brinquedos… A cachorrinha tinha mais, muito mais apetrechos e roupinhas do que eu me lembro de ter tido quando criança.

A bichinha pulou nos sofás, cheirou as plantas, correu por todos os lados, fez uma festa daquelas. Meu coração gelou. Vai fazer xixi nos vasos, nos tapetes? Só pensei. Pensei também que eu teria que me apressar e fazer uma limpa geral no ambiente, isso se ainda me importasse com a decoração. Ela corria, pulava, cheirava e explorava tudo aquilo que lhe era novo… Até que depois das recomendações meu vizinho se despediu.

– Pode deixar, Carlos. Cuidaremos direitinho, pode ir tranqüilo e divirta-se.

Lilica, a cachorra do vizinho
Foto: Pinterest

Lilica – este era o nome da cadelinha – estranhou o dono sair e ela ficar. Resmungou um pouco, minha esposa e eu fomos brincar com ela, jogando a bolinha, ossinhos e brinquedinhos para distraí-la. No primeiro dia ela fez greve de fome, recusava tudo que colocávamos no pratinho. Preocupada, Denise resolveu servir o alimento colocando direto na boca. Olha que mimo! Ela nunca fez isso por mim.

Na manhã seguinte a cadelinha me acordou lambendo a minha mão que escapava sob o lençol – eram seis da manhã. Que bicho danado. Acordei assustado, mas não levantei. Virei para o outro lado e deixei Lilica lá, fingindo que não tinha sido comigo. A cadelinha, sabendo que eu já tinha dado sinal de vida, latiu, latiu e latiu, até que eu me levantei por definitivo. Seis e quinze da manhã, que bicho infeliz. Isso só fez reforçar minha aversão para ter animais de estimação. Acordar não foi suficiente. A pequena cachorrinha tinha energia concentrada que era recarregada durante a noite. Não bastava estar de pé lhe fazendo companhia – ela queria brincar, correr, passear e fazer mais coisas na primeira hora do dia do que eu faço o dia inteiro.

Às oito da manhã, como todos os dias, eu e Denise tínhamos que ir trabalhar e Lilica ficou lá olhando a porta se fechar sem saber o que se passava. Foi estranho deixar um animalzinho sozinho no apartamento, é preocupante e até um pouco triste. Foi difícil aceitar que a cachorrinha ficaria bem sem companhia, sem o som de um rádio e da televisão, pensei até em levá-la comigo. Será que ela estando sozinha brincaria com os ossinhos? Com a bolinha? Como é ruim sair e deixar um bichinho ali, apenas com uma porção de ração e um tanto de água. Neste primeiro dia eu descobri como se humaniza um bicho.

Ao chegar em casa, já de noite, eu havia me esquecido completamente que tinha a ilustre “visita” em casa. Ao destravar a porta sou recebido com uma alegria… Uma alegria que não sei descrever. De verdade, nem me lembro de quando eu mesmo fui tão feliz. Lilica pulava, festejava e queria compartilhar tudo o que tinha feito durante o dia. Mostrou seu excepcional estado físico correndo pela casa toda. Saltando sobre as cadeiras, sobre os sofás. Orgulhosa, talvez, pelo seu grande feito, deita na sala no meio da confusão onde ela mesma espalhou pedaços do que foi minha coleção de revistas. O imprevisto me lembrou, mais uma vez, porque eu não queria um bicho. Comecei brigar com a cadelinha. Minha esposa achou que sou exagerado, que basta ensinar, basta apontar o mau feito ao bichinho e que o animalzinho não tem culpa. Até que ela avistou uma flor branca despedaçada – era a orquídea que ficava na varanda. Aquela orquídea eu tinha lhe dado de presente e ela cultivava com muito carinho.

– Lilica não deve ter gostado da cor e a mastigou. – Eu falei, tentando fazê-la sentir a mesma raiva, assim como eu sentia pelas minhas revistas. Ela, já ciente do meu jeito irritante de ser, não demonstrou nenhum descontrole. Até que…

– Ah! Olhe aqui Denise, ela também não gostou dos gerânios nem das violetas. Acho que ela tentou fazer amizade com suas plantas e não deu certo… – Ao recolher a terra revirada eu ia encontrando surpresas de galhos e folhas.

Lilica, a cachorra do vizinho
Foto: Pet Watchers

Naquela semana Lilica comeu as tiras de dois pares de sandálias havaianas. Justamente as que a gente mais gostava. Pontualmente, me acordava às seis da manhã. Mudou minha rotina fazendo com que eu caminhasse ou corresse pelas calçadas conforme a disposição – dela. Isso todas as manhãs e à noite. Companheira de todas as horas, também ficava ao meu lado assistindo a meus filmes. Denise e eu não íamos mais a bares, restaurantes e shoppings que não aceitassem cachorros. Viramos uma família. Daquelas de colocar adesivo na traseira do carro.

Depois daquela temporada, nos colocamos à disposição de Lilica, sempre torcendo para que os donos da cadelinha viajassem mais e mais vezes. Seriamos sempre nós, seus tios, como passamos a ser chamados, prontos para receber Lilica. As viagens aconteceram muitas vezes. Secretamente confesso que Lilica mudou o dia a dia da casa, sua simplicidade… Simplicidade? Cachorro tem isso? Animais são instintivos, mas, não os nossos – só quem tem um sabe o que isso quer dizer. Eles conversam, ouvem e tem a tranqüilidade como exemplo de que tudo vai dar certo no final.  A amabilidade, o afeto, a amizade de um cachorro muda por completo a dinâmica da vida em uma casa. É isso que os cachorros fazem.

O olhar de um cão é um quadro. Às vezes uma interrogação. Outras vezes um afago, um desejo. Seja como for este olhar, é uma imagem congelada no tempo sem nenhuma legenda ou tema e ali, naquela imagem fixa a te observar, está tudo dito. Como se sabe, uma imagem vale mais que mil palavras. É assim que um cão se comunica.

O encantamento da cadelinha é tanto que conhecidos do interior pediu a seus donos que a levassem para a fazenda, que lá eles tinham um cachorro da mesma raça e se eles se dessem bem em breve poderíamos ter mais alguns exemplares de Lilica circulando pelo mundo. Nós já tínhamos a promessa de escolher um.

Uma infestação de carrapatos, comum em época de seca, tomou conta do corpo de Lilica. Quando seus donos foram buscá-la ela já estava bastante doente. Perder um animalzinho que é um amigo. Um companheiro. É um chorar seco. Uma lágrima que se recusa a cair porque, afinal, é só um animal. Razão tola razão. Ao mesmo tempo é a tortura mais profunda de quem perde um grande amor.

Dor de amor se conserta com outro amor, eu sei. Sei também que nunca mais será o mesmo. Fique aí Lilica, onde quer que seja o céu dos cachorros, ainda irei te levar um par de sandálias e vamos brincar e correr até quando não pudermos mais. Tchau Lilica.

Lilica, a cachorra do vizinho
Foto: Ramblings

Foto de abertura: Social Paws

Por Vinicius Moura

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Publicação: 16 de outubro de 2011

AUTOR

Vinicius é empresário do setor de auto-peças.

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