Naquela situação, era preciso escolher entre Deus ou o Diabo… Reflexões sobre o que nos move

Naquela situação, era preciso escolher entre Deus ou o Diabo... Reflexões sobre o que nos move

Ao fim do sermão eu ainda estava com o sino na mão quando o padre me apontou o dedo e disse:

– E você Vinícius, o que você vai escolher? O inferno ou o Céu?

O padre me tinha em grande consideração e sempre me usava como exemplo de comportamento. Este questionamento, justamente agora, ia acabar com minha fama de menino bonzinho.

Esta pergunta, num primeiro momento, parece fácil e a resposta óbvia. Entretanto tive dúvida – ainda mais depois daquele sermão.

Vou voltar no tempo para ficar mais compreensível. Aos treze anos eu era coroinha na paróquia e isso não tinha sido uma opção. Minha avó tinha tanto orgulho do seu neto coroinha que eu não soube como recusar ao seu pedido. Isso tudo, minha falta de opinião e o respeito pela minha avó, se misturaram num grande caldeirão e agora faziam parte de minha dúvida para responder ao vigário.

Ele pregou aquele dia separando os homens bons dos ruins e decidia o destino de sua morada final. Com os braços estendidos e uma voz que fazia eco, ele profetizou:

– Na morte os bons irão para o céu na eterna presença de Deus. Para os ruins lhes restará o inferno, na companhia do diabo.

Serei justo, já que não conheço pessoalmente nenhum dos dois: pelo que se ouve falar e, apenas pelo disse me disse, a amizade de Deus deve ser muito mais agradável, amistosa e cordial.

Entretanto, a pergunta não era somente sobre a companhia e sim sobre o lugar: O que vai escolher? O céu ou o inferno? Quanto a isso o sermão rezado naquela noite foi claro, vou transcrever a informação:

O Céu – aqui o escolhido não tem problemas de nenhuma espécie. São felizes, todos têm saúde, não falta moradia, não há sofrimento nem violência. As pessoas vestem-se de branco. Ninguém sofre com fome e os entraves terrenos como trânsito e conflitos amorosos também não existem.

O Inferno – é uma agonia infinita, as pessoas padecem com seus problemas mundanos. Há a dor e a doença. Lugar de densas trevas, fogo que não se apaga, onde há choro e ranger de dentes, lugar de desespero total.

Aos treze anos é pouca idade para se ter dúvidas nesta escolha, ainda hoje quem fica na dúvida? Bom… eu fico! Claro que agora estas dúvidas estão um pouco mais elaboradas.

Naquela situação, era preciso escolher entre Deus ou o Diabo... Reflexões sobre o que nos move
Foto: Apenas um servo

Encontrei com Marcos, um sujeito bem empregado, com a vida financeira estabilizada, e lhe perguntei:

– O que falta para que sua vida fique ainda mais perfeita?

– Dinheiro! – Foi a resposta; curta e grossa.

Com dinheiro em abundância não teria mais intrigas com a mulher. Compraria todos os anos um carro novo que não lhe traria problemas. A faculdade dos filhos deixaria de ser uma questão preocupante. As viagens que sonhou fazer seriam, enfim, realidade…

– E é só isso que lhe falta?

– O dinheiro resolveria tudo. – disse ele novamente sendo curto e grosso.

Mas, ele tinha o tal dinheiro. Por que mais? Quanto mais?

Notei que são os problemas, as dificuldades, as angústias que movimentam a vida. O desenvolvimento acontece, não porque as pessoas estão felizes e satisfeitas. O movimento acontece justamente porque temos problemas, porque algumas pessoas são desequilibradas o bastante para quererem uma pirâmide para seu descanso eterno.

Por este motivo e morrendo de medo de queimar a língua, a caneta e o teclado no inferno, ainda assim, parece mais interessante o império do sujeito com pés de cabra. Não tem nada a ver com religião ou crença. É que estar num lugar onde impera o caos, não vai haver outra opção a não ser acordar todo dia empenhado em fazer coisas na esperança de alcançar algo melhor.

Em contrapartida, estar num lugar onde impera a perfeição, só restaria o ócio e o tédio. Não pense que iria acordar e jogar golfe ou tênis porque num jogo alguém perde e quem perde não fica feliz. Como já disse, felicidade é uma regra neste lugar, portanto nada de jogos. Nada de trabalho, já que não há necessidade de bens materiais. Também não há preocupação com estudos ou pesquisas uma vez que saúde também é básica.

É só por isso que ajeito o cabelo e troco de roupa todas as manhãs. Porque tenho que sair de casa e fazer algo para tornar o dia de amanhã melhor do que foi hoje, ou pelo menos garantir o conforto que estou acostumado.

Pense como quiser, afinal, o meu destino está selado. Como sei disso? Simples:

Naquela manhã o padre novamente me usando de exemplo, percebendo a minha demora em responder, perguntou mais uma vez com o dedo em riste e muito sério. Os outros coroinhas se viraram atentos para mim. As beatas que mesmo ao fim da missa se recusavam a ir embora se aproximaram, também queriam saber qual o grande desfecho. Eram tantos olhares curiosos e de reprovação que somados àquele dedo ameaçador, eu – um garoto de treze anos – comecei a tremer. E a minha avó? Que tamanha decepção eu daria? Para me livrar da aflição tratei de responder com toda a convicção para que ninguém tivesse dúvidas: escolho o céu!

Nascia naquele momento um cínico. A tensão do momento se desfez, mas na mesma hora não tive dúvida, meu destino foi escrito. Ainda que aquela resposta não tivesse contrariado um dos dez mandamentos, ainda assim mentir para um padre em solo sagrado era coisa sem perdão para o fiel. Sendo assim, agora a escolha era o que menos importava, já que iria mesmo para o inferno.

Por Vinícius Moura

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Foto: TripWow

Por Vinícius Moura

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Foto de abertura: Cultura Mix

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Publicação: 24 de setembro de 2011

AUTOR

Vinicius é empresário do setor de auto-peças.

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