Presente Virtual de Dani para Josana

Plante uma árvore na madrugada (ou: Mãe! Meu irmão tá comendo meu misoshiru!)

Confesso que tenho alguns medos. Um deles é dormir com o armário aberto. O outro é de pegar quem não conheço bem no amigo secreto. Esperei ansiosamente pela chegada do nome que viria por email. Macacos me mordam! Parecia um trailer de Tarantino ou um capítulo de Seinfeld. Os olhos colados no meu Macintosh, Apple, Mac, seja lá o que fosse. Naquela altura, só conseguia ouvir os Strokes cantando algo sobre Mark Ryden e Starbucks lovers. Nietzsche tinha razão: a lei de Murphy parecia reger minha vida e mesmo que eu reduzisse, reutilizasse e reciclasse, ainda assim, não estava confiante.

“Tente pensar em coisas boas…”, poderia ter dito Amélie Poulain, olhando desenhos em nuvens, com sua roupa de bolinhas comprada em brechó e algumas tulipas na mão. Então, fechei os olhos para me concentrar e cai no sono (Justo eu que durmo pouco pra viver mais!). Subitamente, uma Pin-up de chiquinha frouxa, tomando coca-cola e correndo atrás de alguns patos, apareceu no meu sonho. Algo, como um curta metragem de algum diretor independente. Ao fundo, podia jurar que escutava uma canção dos Chemical Brothers, mas, como um raccord, apareceu Willy Wonka declamando Sartre e eu acordei de sobre salto. Será o Benedito! Que sonho estranho! Isso só poderia significar duas coisas: Margot Tenenbaum tomaria mais um gole de vinho e meu amigo secreto seria desconhecido.

Inúmeras vontades que vêm do nada surgiram, pensei até em viajar (poderia ter ido visitar Audrey Hepburn em São Bernardo), mas decidi dar apenas uma volta na quadra. Nada como o som da chuva e dirigir um tanque para acalmar. Procurei não pensar no email que esperava com tanta ansiedade (odeio esperar!) e manter a calma, afinal sempre senti vergonha pelos outros e São Paulo estava distante de qualquer contato. Os sinais me confundiam: na primeira loja que entrei, lá estava Galliano, carregando bolsas e mais bolsas em purple, e parecia fazer mil coisas ao mesmo tempo. Sai depressa e entrei em uma livraria, onde Veríssimo autografava seu lançamento: “Good morning, nigh ngh (ou: como ter relacionamentos perfeitos na república tcheca)”. Corri para o restaurante ao lado e, comendo um sashimi, reconheci David Lynch, que discutia as obras de Nelson Rodrigues com Gaultier. Ao me verem, ambos acenaram e me ofereceram batatas; recusei, gentilmente, e segui meu caminho. Aquilo estava insano demais, e eu precisava sair dali o quanto antes.

No caminho de volta para casa, ainda procurava me acalmar. Sempre fui uma mulher bem resolvida, sem frescuras. Tudo bem que tive traumas de mestrado, que me tornaram tão sonhadora quando Karen Walker, mas tinha que ficar tranqüila, nem que precisasse dar uma ‘porrada num fusca azul’!

Lembrei da maior lição que havia aprendido em um curso para jovens investidores nos anos 60, onde li meus primeiros textos de Virginia Woolf: “ Os Beatles comiam Trident com papel na Suíça para conseguirem ler a revista Bravo nas raves”. Puxa! Só agora essa frase fazia sentido e caiu como uma luva para o momento. Nada como ser uma Agnes Varda do novo milênio. Haviam se passado duas horas desde que saíra de casa, e o quadro torto de Frida Kahlo continuava torto na parede. Passei um café na minha cafeteira Nespresso e voltei a sentar diante do Word, onde o clip que odeio fazia gracinhas sem fim, inclusive imitando Carrie Bradshaw, virando uma garrafa de champagne.

Assim que abri o Google, uma mensagem de que havia recebido novo email apareceu, bruscamente, na tela. Novamente o medo tomou conta de mim, como o mais tórrido filme de Glauber Rocha. Precisei tomar alguns goles de água, fechei os olhos e recitei rapidamente um verso de Drummond, mas, quando os abri novamente, minha visão havia ficado embaçada. Poderia jurar que tinha visto Salvador Dali, mas era apenas o Edgard do Fashion Bubbles e uma frase: “Você pegou a Josana”.

Supimpa! Aquilo soava melhor que um jazz cantado pelos AfterSix e logo pensei no que escreveria para ela. Parecia difícil, mas eu tenho coragem e luto sempre! Talvez a letra de alguma música do White Stripes, talvez algum resumo de um capítulo de Bewitched ou ainda uma cena de Buñuel. Sobrava apenas uma linha para terminar a folha, mas dava tempo de dizer: Carpe diem!

Carinhosamente, Dani Polidoro

Publicação: 9 de dezembro de 2008

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