Bubbles in the City – Doenças Corporativas

Bubbles in the City – Doenças Corporativas

Há algum tempo tenho pensado em escrever um livro, entre outros mil livros que tenho pensado escrever. “Doenças Corporativas” será, provavelmente, o título do dito cujo. Não sei quanto a você, ó caro leitor internauta. Mas eu, que trabalho na firrrrma, cada dia mais me convenço de que as firrrmas estão doentes, muito doentes.

Está tudo, no mínimo, bem esquisito. Horas em reuniões absolutamente improdutivas. E-mails que não dizem nada e copiam todos. O “jornalzinho”, o mural, a revista interna e a intranet corrompem os princípios mais básicos da comunicação (pra não dizer jornalismo): nada daquilo é notícia; nada daquilo interessa; nada daquilo agrega valor algum pra ninguém – mesmo porque ninguém lê. A firrrma finge que está comunicando. Os funcionários fingem que estão lendo e, o mais grave, entendendo.

A firrma quer saber como andam as coisas, então, faz pesquisa de clima. Pesquisa de clima beira o patético. É um jeito da firrrma tentar quantificar o “inquantificável”: compromisso, engajamento, como as pessoas se sentem. Mas a firrrma adora números, então, dá-lhe estatística.  O instrumento que você usa pra medir o fenômeno altera o fenômeno. Nada de genial há nisso, é pura física. Pra saber a temperatura da água fervente, a gente coloca um termômetro, que está frio e, ao ser introduzido, já altera a temperatura da água. Pedir que o funcionário responda à pesquisa porque ela é importante pra firrrma tomar decisões, já pode alterar a resposta da pessoa. Ela pode, ainda que inadvertidamente, dar respostas impuras. Porque tem medo de ser identificada. Porque odeia tal programa do RH e quer que ele seja banido. Porque acordou de TPM. Porque odeia o chefe. E por aí vai… A firrrma finge que o resultado retrata a situação, a opinião da galera.

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Imagem Getty Images

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Imagem Fonte Viva

E quando a gente acha que determinado projeto é uma grande m&¨%#rda? Bem, a galera sabe que além de ser uma grande m&¨%#rda, é também a grande e genial idéia do gerente, diretor ou presidente. Vai falar? Vai levantar a mão e dizer: isso é uma grande m&¨%#rda? Pra quê? Pra ser taxado como resistente à mudança, pessimista? Melhor ficar na sua. Vai dar errado mesmo (afinal, é mesmo uma grande m&¨%#rda). O rei está nu e ninguém avisa. Ele vai descobrir, eventualmente. Depois que a consultoria mostrar no PowerPoint e cobrar uma fortuna pra dar o diagnóstico: querido, suas “partes” estão à mostra, você está pelado e vai morrer de pneumonia. A essa altura a concorrência está rindo, os investidores saíram em debandada, a imprensa não cobriu o último lançamento, mas falou do péssimo resultado do último trimestre.

Entrevista de emprego é outro “case”. Outro dia me perguntaram se eu tenho namorado, qual é o nome dele e o que ele faz. Por que isso é relevante pro negócio do contratante? Qual a implicância que isso terá no resultado do meu trabalho? Estou tentando descobrir… O Toco disse que “estão preferindo gente casada”. Que um amigo dele, vice-presidente de sei lá onde, teve que se casar porque estava começando a ter fama de “gay”. Nessa empresa, na boa, não quero trabalhar. Nem seria contratada: sou solteira e não tenho planos de juntar meus trapos com ninguém. Solteiro e feliz, não pode. Mas casado e infeliz, pode. Aceitam divorciados também?

Outras pérolas da tal entrevista: “pra você, o que é ética no trabalho?”. Cuma? Dá pra “ser ética” só no trabalho? Tipo: “na vida pessoal, sou uma lama, querida. Mas no trabalho… Ah, sou ótima!”. “Como você se relaciona com pessoas? Consegue se relacionar com diferentes níveis?”. “Olha, sou péssima pra trabalhar em equipe, acho um saco. Aliás, só falo com gerente, diretor ou presidente. Ignoro a moça do café, o analista, a estagiária e o operador de máquina. Eles não me servem pra nada”.

Desconfio que as firrrrmas vão entrar em coma. Na verdade, talvez já estejam. E ninguém avisou o rei.
Por Mila Brito

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Publicação: 10 de dezembro de 2009

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