Ódio, você tem?

Ódio, você tem?
“Alguém, por favor, mate o pai e a madrasta de Isabella”. Muitas pessoas exclamam exaltadas, nesse momento de comoção nacional, ante o crime tão bárbaro, que abala as nossas estruturas mentais. É como se toda a raça humana se sentisse culpada, com medo de si mesma.

Qual a punição suficiente para quem não possui motivo aparente para cometer um crime? Tente pensar no que, exatamente, nos causa tamanha comoção, esta é minha proposta. Se a menina de cinco anos, minutos antes do crime, tivesse pegado o garfo da papinha do seu meio irmãozinho e espetado em seus olhos, cegando-o, estaríamos, como expectadores, dividindo nossas opiniões. Alguns pensariam: “Esta criança é o próprio demônio; onde já se viu fazer tamanha malvadeza com outra criança inocente?…” Outros: “Entendo a posição da madrasta, afinal, quem suportaria ver tão horrenda agressão contra seu filho, sem nada fazer?”.

Mas Isabella parece não ter feito nada que despertasse tão grandiosa ira. E, sem um motivo que nos salte aos olhos, o crime fica ainda mais inaceitável. Diferente da questão acima que se fosse verdadeira dividiria opiniões, sem motivo, a opinião fica unânime.

Mas será que, seja lá quem o cometeu, já não está pagando seu pecado neste exato momento, com a consciência torturando-o através de questionamentos infindáveis? Qual seria a punição que abrandaria nossa própria ira velada?

Quem não se lembra das atrocidades do Maníaco do Parque? Vamos imaginar a situação em que este sujeito recebesse liberdade provisória, por conta do indulto do dia das mães. Ele, também inconformado, consegue aproximação com os suspeitos do caso Isabella e assassina um deles. Será que criaria a mesma comoção? Seria tão cruel como os outros crimes do seu currículo? Aqui também as opiniões seriam divididas.

A reflexão que pretendo deixar é o motivo. Se há um motivo, o feito não é tão monstruoso. Monstruoso é ter feito sem um motivo. Desta forma temos o motivo para desejar o pior dos castigos para quem é o criminoso. Arrisco-me a dizer que se o maníaco acima conseguisse realizar o plano acima, o motivo nos liberaria da culpa de mantermos, em nós, o mesmo ódio, que antes velado, se revelou tragicamente nos assassinos.

Ainda sobre o castigo cabível, que castigo será maior do que a implosão iminente que deve desabar sobre esta família e seus inocentes filhos? Mas sem a prisão que seria exemplar, a punição não ficaria completa, certo? Afinal de que raiva estamos falando? Da nossa mesma ou daquela que motivou os assassinos?
O medo maior é que, em cada um de nós, há esta mesma porção de ódio velado. Logicamente conseguimos contê-la, mas conter não quer dizer que nos livra dela. O medo maior é que não conseguimos mensurar qual seria a punição suficiente que aplacaria nossa própria culpa. Qual seria a punição para aplacar nossa própria raiva? E é isso que dá a certeza de que nossa raiva não é nada pequena, caso você ainda não tivesse se convencido disso.

Publicação: 17 de abril de 2008

AUTOR

Vinicius é empresário do setor de auto-peças.

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