Crônica – Olho para meu pai e penso: É assim que quero ser?

Crônica   Olho para meu pai e penso: É assim que quero ser?

Crônica, ou melhor, fábula contemporânea do Vinícius Moura em homenagem ao dia dos pais.

Jordan é um pássaro diferente de todos que conhecemos, ele pensa e fala. E como qualquer outro jovem, também possui o ímpeto de contestar. Sua espécie não voa para muito longe, por este motivo vivem em pequenas comunidades onde todos se conhecem, se ajudam, todos têm os mesmos hábitos e, por ser uma vila diminuta,  o casamento entre os semelhantes é bastante incentivado. A vida nesta cercania é tranquila, nenhum pássaro deseja muito, da mesma forma que nenhum membro necessita de muito para viver.

Sempre foi assim, desde a primeira ave de sua espécie. É claro que alguns não se conformam  com a mansidão e tentam ser mais ambiciosos, mas como o esforço não é a marca de sua espécie, praticamente todos terminam se rendendo à vida fácil da sua pequena vila. Os desgarrados da regra acabam, no máximo, fundando outra comunidade um pouco mais distante. Gostariam de fazer diferente, mas na prática, o que fazem é iniciar uma nova vila com as mesmas características da primeira, onde nascerão novos inconformados que se afastarão para formar outra vila e a vida continua igual, como sempre tem sido. Por este motivo há pássaros desta espécie por toda parte.

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Jordan é um destes questionadores, um adolescente igual a qualquer outro adolescente, mas sua inquietação estava ligada a origem de sua família. Todos os pássaros daquela espécie, mesmo os das comunidades mais distantes, mantinham os mesmos costumes e uma marca principal: o mesmo canto. Mas não o seu pai, seu pai era diferente, tinha sotaque. Era óbvio que ele viera de muito, muito longe e isso era absolutamente incomum para aquelas aves, o que inquietava Jordan que se perguntava:

– Por quê?

O pai de Jordan era um senhor sisudo, de poucas palavras, um velho autoritário a que ninguém se atrevia sugerir uma opinião ou repreendê-lo no que quer que fosse. Mas na cabeça de seu filho, o sotaque atípico o intrigava, deveria haver uma razão que destoava da origem de todas as outras aves que ele conhecia e isso o perturbava. Qual sua verdadeira naturalidade? De onde veio? Por que deixou seu lugar de origem e se distanciou tanto? Mas, o pai de Jordan não era alguém que dava explicações, muito menos satisfações, pelo contrário, mandava o filho se calar.

A fantasia tomava conta da imaginação de Jordan que sem obter respostas diretas, passou a imaginar o que poderia ter ocorrido. Poderia seu pai ser um fora da lei, a quem, banido de sua vila original, não restou outra alternativa a não ser contrariar o instinto de sua raça e voar aloucadamente para longe? Será que teria uma outra família longe dali que ele abandonou deixando tudo para trás? Será que ser sisudo era uma forma de se esquivar a responder?

Jordan a cada dia se revoltava mais com suas fantasias e a falta de respostas. Seu pai seria um desonrado? E seus possíveis meio-irmãos estariam vivendo em dificuldades? Que tipo de apuros poderia estar sofrendo sua meia família? Jordan sabe que os filhos tem seus passos traçados a partir dos passos de seus pais e com isso ele não se conformava. Isso ele não poderia aceitar. Enquanto seus amigos almejavam desbravar as fronteiras da cercania, Jordan só gostaria de não ser um mau caráter como seu pai. Será que alguém, além dele suspeitava disso e não revelava por conta da braveza de seu pai? Ele corava de vergonha.

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Esta vila sossegada de dóceis aves estava ao lado de um grande porto numa bela cidade turística. O ir e vir de grandes navios cargueiros e de passageiros era paisagem comum para eles. E apesar de serem navios enormes, não passavam de parte de um cenário que completava a beleza natural da vila. Aproximar-se dos navios não era natural, a comunidade era farta em árvores frutíferas, plantação de grãos e com isso havia insetos de todos os tipos. Tudo colaborava para que os navios fossem apenas a composição da paisagem, sem despertar interesse por algo mais, como por exemplo, fonte de alimento.

Mas Jordan precisava de um tempo longe dali, precisava pensar e encontrar respostas, de preferência, em que coubessem seu pai sem que fosse o ser desprezível que se fazia crer… Pela primeira vez ele olhou para o grande navio e resolveu se aproximar. Fez alguns rasantes e aquele monstro de aço não parecia oferecer perigo, resolveu se arriscar mais, ir mais perto, voar até o topo. Ele era bastante alto, mas isso não era problema para um pássaro, haviam fios esticados, lâmpadas coloridas, piscinas, músicas e… Um bufê de saladas, grãos, castanhas, pães… Tudo ali oferecido a quem quer que fosse. Os tripulantes e passageiros, na verdade, haviam descido do barco para visitar a cidade.

Jordan se esbaldou, eram cheiros e sabores que ele nunca havia experimentado. Ele nunca imaginou que a vida poderia ser tão farta, aquele espaço era muito mais generoso que a vida que ele conhecia e comeu até passar mal. Pensou em voltar à vila e dizer a todos sobre a riqueza que estavam perdendo a tão pouca distância. Ele comeu, bebeu, experimentou de tudo até se esquecer de suas inquietações e acabar adormecendo sob um balcão.

Acordou assustado, passos ressoavam perto de seu esconderijo, vozes, risadas e a música alta era o que o fez acordar sobressaltado. E agora? Como fugir dali? Assim que a turba se afastasse ele voaria bem alto e voltaria o mais rápido possível para sua comunidade. E fez justamente isso, assim que o silêncio se estabeleceu, voou rápido como nunca havia feito antes, ultrapassou as bandeirinhas, as lâmpadas, as chaminés, mas quando se virou para a vila, ela estava muito, muito distante. Tentou com todas as forças alcançá-la mas não ia conseguir, fez a curva para voltar ao navio e só conseguiu alcançá-lo no limite de sua energia. Tentou mais uma vez e mais uma vez, até que as montanhas mais altas sumiram no horizonte. Exausto escondeu-se no navio e se entregou ao sono.

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Na manhã seguinte, com as forças renovadas ele avistou novamente as montanhas. Traçou seu plano de voo certo de que usaria todo seu fôlego, decidido com a máxima convicção do seu objetivo, partiu nesta empreitada sem volta, mirando os montes a uma distância que poderia ultrapassar a possibilidade de suas forças. Jordan nunca havia realizado tanto esforço, mas usando seus últimos suspiros chegou à praia. Exausto novamente adormeceu. Ao despertar estava cheio de orgulho de seu feito. Talvez ele tivesse até conseguido a maior marca de um voo em distância que uma ave de sua espécie havia alcançado, isso lhe enchia de coragem. Queria encontrar a família e contar sua aventura, mas a vila estava diferente e a única coisa que lhe era familiar era um certo sotaque. Um sotaque que ele conhecia muito bem, que antes o afligia, inquietava, mas agora o sotaque estava por todo lugar.

Custou a descobrir que seu sono no navio, havia sido o bastante para que ele desatracasse do porto e partisse para terras distantes. Aqui estava uma resposta para seu pai que ele nunca tinha pensado. Agora era ele, com sotaque diferente de todos, a instalar-se numa terra desconhecida, pagando pela ousadia que pássaros da sua espécie não cometem. Normalmente uma ave passa pouco tempo com seus pais, e é normal partirem para formar novas famílias, mas este distanciamento tão grande não era o planejado, e, o motivo era sua arrogância por se sentir mais nobre que seu pai, eram justamente aquelas dúvidas e inquietações que o haviam colocado nesta situação.

Jordan decidiu se isolar por uns dias e para não dar explicações sobre suas estúpidas fantasias, fez um pacto consigo e nunca diria nada sobre o episódio a ninguém. Assim foi feito. Casou-se e nasceu seu filho, um novo “Jordan”.

E numa terra muito distante…

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Por Vinícius Moura (Instagram: @primovini)

(Crônica ou fábula urbana, como gosta de definir a historiadora Ignez Pitta, inspirada por um passarinho que ficou preso no navio, em um cruzeiro pelas ilhas gregas.)

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Publicação: 2 de agosto de 2017

AUTOR

Vinicius é empresário do setor de auto-peças.

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