Por que vc quer saber se seu filho é gay?

Por que vc quer saber se seu filho é gay?

Para começar, se vc está desconfiando é porque de alguma forma JÁ SABE  que seu filho ou filha é gay. Então quer ter certeza disso – mas por quê e para fazer o quê com esta certeza?

Por que vc quer ter certeza que seu filho é gay?
Provavelmente para se culpar. Mãe dominadora e pai fraco tinha que dar nisso mesmo… Vc quer saber onde errou na criação, porque afinal a culpa tem que ser de alguém, preferencialmente sua. Ou do outro parceiro, que (escolha a alternativa aplicável): saiu de casa, arranjou um/a amante, bebia, não se dedicou à família, etc.

Em primeiro lugar, vamos aos fatos científicos sobre a homossexualidade. Ninguém sabe o que leva uma pessoa a tornar-se homossexual, isto é, a sentir atração física por outra pessoa do mesmo sexo genital. Da mesma maneira, ninguém sabe com certeza porque uma pessoa torna-se heterossexual. O que há são hipóteses, mas nenhuma certeza. Na primeira hipótese, o homossexualismo teria uma causa natural. Há alguns anos, um estudo mostrou que gêmeos separados no nascimento (tendo sido portanto expostos a influências culturais distintas) tornaram-se igualmente gays. Haveria um gene, ou mutação, ou mesmo degeneração genética que levasse à homossexualidade? Os estudos científicos ainda não comprovaram que alguém nasce homossexual, ou com tendência a tornar-se homossexual, por alguma predisposição genético-fisiológica.

Do outro lado está a hipótese cultural, isto é, de que a homossexualidade é resultante da influência do meio-ambiente (por exemplo, a famosa dupla mãe dominadora + pai fraco). Essa hipótese também não se sustenta. Se fosse verdade, todos os filhos dessa família seriam homossexuais, o que não é verdade. Ou também nunca haveria um homossexual numa família “normal” (o que quer que seja essa normalidade!). Ou os filhos de homossexuais assumidos seriam necessariamente gays, por falta de exemplos de “comportamento sexual normal”. Ou ainda, em algumas culturas haveria mais ou menos homossexuais (ou nenhum, como quer o atual presidente do Irã!). Nada disso é verdade – sempre houve gays, em todo tempo e lugar. Se na Bíblia há proibição ao homossexualismo é porque já havia homossexualismo naquele tempo, não?

A conclusão é que não se sabe se alguém já nasce (hipótese natural) ou se torna (hipótese cultural) homossexual, nem porquê. O mais provável é que a homossexualidade seja resultado de predisposição genética, mais influência do meio, mais uma grande variedade de fatores aleatórios, mais sabe lá Deus o quê…

Então, se não temos certeza quanto às causas, como imputar a responsabilidade a alguém? Menos ainda aos pais. Vc pode se culpar de muitas coisas, mas não de ter “provocado” a homossexualidade do seu filho.

O fato é que ninguém “escolhe” ser homossexual – assim como não “escolhe” ser heterossexual (ou qualquer outra coisa entre uma ponta e outra!). A escolha pressupõe liberdade entre alternativas igualmente aceitáveis, o que não é absolutamente o caso quando se trata de sexualidade. Ou vc escolheria ser gay se quisesse?

Para quê vc quer ter certeza de que seu filho é gay?
Se for achando que tem cura ou que vai conseguir algum outro resultado alternativo, lamento desapontá-lo… As únicas escolhas que se pode fazer em relação à homossexualidade são aceitá-la ou renegá-la; conseguir com que um homossexual deixe de sê-lo é impossível!

Se vc escolher negar a sexualidade do seu filho, saiba que isso não produzirá nenhuma mudança na sua sexualidade. Ele poderá esconder, envergonhar-se, culpar-se, até mesmo casar-se, mas é bastante pouco provável que deixará de continuar sendo homossexual.

Agora, se escolher aceitar, por mais duro que seja para vc, talvez seja o caminho para ajudar seu filho ou filha a ser uma pessoa mais plena, em paz com sua sexualidade e com maiores possibilidades de ser uma pessoa feliz.

A questão religiosa
Pode ser também que como pai ou mãe você esteja vivendo um dilema de natureza religiosa quanto à sexualidade do seu filho. “É contra a vontade de Deus”, diz o padre. “É coisa do demônio”, diz o pastor. “É contra a natureza”, dizem os mais “esclarecidos”.

Aqui a questão fica mais difícil porque envolve questões de fé, que transcendem à lógica de uma discussão racional. Mas diante de tudo que já discutimos até aqui, já deve ter ficado claro que ninguém é homossexual por escolha própria, ou por falta de vergonha, ou por falta de oração, ou por influência dos amigos ou de Satanás. “É por que é, sabe lá Deus porquê!”, podemos dizer. Se só Deus sabe o porquê, não temos nós o direito de interferir nos seus desígnios.

O que seu filho vai esperar é saber de que lado você está: se do lado dele, apoiando sua situação, ou do lado da religião, que pode estar errada, como já esteve muitas vezes no passado. Basta lembrar quanta gente foi morta impiedosamente durante os 500 anos que durou a Inquisição. Ou em todas as pessoas mortas em todas as guerras religiosas que alegam estupidamente o nome de Deus em vão. 

O difícil caminho da felicidade
Talvez nada do escrito acima se aplique ao seu caso. Vc pouco está preocupado com o que seu filho/a faz da vida sexual dele, apenas “se preocupa” com o seu futuro. Isto é, gostaria que ele tivesse uma família “normal”, uma profissão decente (o que evidentemente exclui ser cabelereiro, maquiador e que tais) e o respeito da sociedade. E acha, ainda que inconscientemente, que os homossexuais não podem ter uma vida digna e plena.

Essa vida digna é a mesma que vc desejaria para um filho heterossexual, certo? Mas será que o simples fato de ele ser heterossexual vai lhe garantir automaticamente essa vida digna? As evidências apontam que vai depender dele (e só dele) construir uma família, uma carreira e o respeito social.

Por que com seu filho gay seria diferente? O fato de alguém ser gay ou lésbica não lhe negará automaticamente o direito à felicidade e à dignidade. Ele também terá de construí-la, arduamente, a cada dia da sua vida. Como você o fez (e sabe que não é fácil), como todos têm que fazer. Na busca da sua felicidade, a homossexualidade não será nem impecilho, nem vantagem, apenas um dado a mais no cenário da sua vida.

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Por Edgard Almeida

Publicação: 19 de fevereiro de 2008

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