Os Bastidores do Carnaval – Saiba como é feito o desfile de uma Escola de Samba – Enredo, carros alegóricos e fantasia – Parte 1

Os Bastidores do Carnaval – Saiba como é feito o desfile de uma Escola de Samba   Enredo, carros alegóricos e fantasia   Parte 1

O carnaval é um espetáculo grandioso transmitido para mais de 100 países – é uma mostra da cultura brasileira para o mundo.

Para desvendar os segredos desta grande festa, recebemos um convite muito especial: fomos visitar o barracão de uma das mais tradicionais escolas de samba do carnaval paulistano – a Nenê de Vila Matilde.

Em entrevista exclusiva com o diretor geral de harmonia da escola, Carlos Seles e um dos carnavalesco Magoo, percorremos todo o processo de criação e mostrando as etapas de construção e organização do carnaval de uma grande escola do grupo especial.

A Nenê nos permitiu fotografar o processo de construção dos seus carros e fantasias, revelando segredos que geralmente são guardados a sete chaves para que sejam vistos somente no dia do desfile. Fica aqui registrado nossos agradecimentos!

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Os Bastidores do Carnaval – Saiba como é feito o desfile de uma Escola de Samba   Enredo, carros alegóricos e fantasia   Parte 1Os Bastidores do Carnaval – Saiba como é feito o desfile de uma Escola de Samba   Enredo, carros alegóricos e fantasia   Parte 1
Só respeitamos aquilo que de fato conhecemos. A grandiosidade do carnaval desenvolvido pelas escolas de samba é um espetáculo que ultrapassa em muito as fronteiras da alegria se tornando um estilo de vida para comunidades inteiras.

A definição do tema de Enredo

Dentre os quesitos apresentados por uma escola de samba durante o carnaval, o mais importante deles é o enredo, que é uma história resumida que a escola vai contar na avenida.

Carlos Seles conta que assim que acaba o Carnaval, a equipe tem um descanso de duas ou três semanas, quando já começa a pensar qual será o tema central para o enredo do próximo ano.

Magoo revela que apesar de ainda estarmos em fevereiro e nem ter finalizado o carnaval de 2013, já está fazendo o trabalho de pesquisa de três temas para o carnaval de 2014. Esses temas serão apresentados para diretoria da escola, para ver qual caminho será definido. Processo que deve ser finalizado em março, porque em abril ele já começa a entrar na parte de desenho das fantasias e alegorias, para em maio começar a execução.

Simultaneamente, começa o processo de definição do samba-enredo propriamente dito, que geralmente acontece entre abril e maio, podendo ter uma letra mais interpretativa ou descritiva, sendo que a descritiva apresenta o assunto com riqueza de detalhes. A melodia deve ser alegre e contagiante, com características marcantes.

É importante que a harmonia da melodia facilite o canto, pois dessa forma promove o aprendizado da letra e contagia o público, que canta fervorosamente, tornando o espetáculo mais bonito.

Seles explica ainda, que atualmente, os enredos também são escolhidos pensando em temas que sejam fáceis para conseguir patrocinadores, são os chamados enredos corporativos.

A definição do enredo também tem haver com a identidade da escola. A Nenê, por exemplo, por ser uma escola de negros e muito ligada a sua comunidade, tem maior facilidade com enredos culturais. Para eles é mais complexo trabalhar com enredos corporativos, que costumam ser mais difíceis de desenvolver, até para os próprios carnavalescos, pois envolve um pouco mais de ficção. Em contrapartida, os enredos culturais tem uma dificuldade maior para conseguir patrocinadores.

Neste ano, a Nenê fala de igualdade e traz a Revolta dos Búzios ocorrida em 1798 na Bahia, é um tema muito rico em pesquisa e que traduz os valores da comunidade.

Tema da que Nenê para o Carnaval 2013 que  fala de Igualdade e traz como enredo a Revolta dos Búzios na Bahia

A execução dos carros, alegorias e fantasias

Primeiro se define um enredo, geralmente em março, que é a história que a escola vai contar na avenida. “Começamos com a pesquisa, elaboramos um texto que será uma espécie de roteiro, em cima dele é feito o samba-enredo, fantasias e alegorias”, explica o carnavalesco.

Magoo imagina o carnaval por cores – no início do processo de criação ele espalha os desenhos das fantasias feitos a lápis, só o contorno, no chão da sala de sua casa e ali começa a visualizar as cores que vai usar. Ele imagina como a escola vai entrar no sambódromo e pensa no carnaval visto de cima, entrando na avenida.

O desfile tem que passar a sensação e a emoção do enredo. Para isso as cores são essenciais neste processo, onde cada setor (um carro alegórico com cinco ou seis alas) representa uma parte da história que a escola vai contar. No carnaval da Nenê, por exemplo, primeiro setor representa o século 18, então ele vai usar cores que passam a identidade deste século. Se é para passar alegria, as cores têm que ser vivas e vibrantes passando essa emoção e assim vai construindo o desfile.

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A escola trabalhou em uma história – o enredo – que inspira a criação das fantasias e alegorias. É feito um planejamento de desfile que contará essa história, o samba-entedo  na avenida. As cores são muito importantes neste processo.

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Planejamento do desfile que é composto por 5 carros alegóricos, cada um com 5 ou 6 alas, que irão contar a história do enredo

A construção dos carros alegóricos

No processo criativo, Magoo inicia por visualizar os carros alegóricos, cinco ao todo, cada um contará uma parte da história. Depois disso, começa a desenhar, à mão mesmo. Usa programas gráficos apenas na hora de fazer a planta baixa dos carros.

Na etapa seguinte será construída, por profissionais geralmente vindos de Parintins, uma maquete minuciosa de como ficará o carro. Isso permite ajustes e facilita a visualização e construção da alegoria.

Com essa maquete e através da planta baixa, os profissionais que trabalham com ferragem, iniciam a primeira etapa da construção do carro alegórico, quando montam um esqueleto todo de ferro. Nesta etapa também está o cálculo de peso, como será a montagem etc.

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Maquete esculpida em isopor, que reproduz com exatidão como ficarão os carro alegóricos depois de prontos. Técnica usada geralmente por profissionais vindos de Parintis.

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Com essa maquete e através da planta baixa, os profissionais que trabalham com ferragem, iniciam a primeira etapa da construção do carro alegórico 

Em seguida vem a segunda fase, quando os profissionais começam a cobrir os carros com a madeira e vão começando a dar o formato final.

Paralelamente, os profissionais da decoração já estão fazendo as esculturas, que geralmente são construídas em isopor ou fibra de vidro.

Terminando a etapa da madeira, começa a montagem da alegoria, como se fosse um grande lego, com várias partes encaixadas.

Todos precisam estar atentos aos mínimos detalhes e situações inusitadas, como por exemplo, a questão da limitação de altura, já que em são Paulo, os veículos não podem passar dos quatro metros por causa dos viadutos da cidade. Os carros alegóricos da Nené para o carnaval 2013 tem 12 e 15 metros de altura e precisarão ir para o Sambódromo em partes separadas, que depois serão montadas uma em cima da outra com um guindaste.

Os carros de muitas escolas, ainda são mecânicos, não são motorizados e, no dia do desfile, são empurrados por uma média de 35 pessoas, para cada veículo. Os movimentos também são mecânicos, grande parte incorporados através de profissionais e técnicas oriundos da Festa do Boi em Parintins.

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Carlos Seles diretor de geral de harmonia mostras carros alegóricos que vão desfilar no carnaval 2013 ganhando cores e vida na barracão da Nenê.

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A sensação de andar pelo barracão é a de um grande lego desmontado. Passamos pelo piso de carro, teto de outro e só na avenida é que tudo isso será montado e visto integralmente integralmente.

As fantasias

As fantasias são feitas a partir da pesquisa do tema e precisam representar a história contada pelo samba-enredo, assim como os carros.

Rafael Condé, foi responsável junto com Magoo e Eduardo, pela criação e execução de 1900 fantasias da Nenê para o carnaval 2013. Ele explica que possuem diversos processos criativos, como por exemplo, mesclar os desenhos de diferentes criadores: cada um desenhou sua parte, mas na escolha final da fantasia podem usar os ornamentos de cabeça de um desenhista, a saia de outro e o costeiro de outro, aumentando ainda mais a criatividade das fantasias.

A partir das pesquisas e referências visuais, a equipe tem um mês para criar os figurinos, geralmente o mês de abril, porque em maio começam com a execução.

Na etapa do desenho, eles já vão pensando em como o figurino será feito, tem que pensar na forma de tirar do papel, porque o papel aceita tudo, mas para tornar realidade, é necessário pensar em materiais, cores, preço, peso (apesar de algumas fantasias serem grandes, costumam ser muito leves), então é feito uma peça piloto, isto é, uma peça teste.

Para as peças pilotos eles costumam fazer uma parceria com as fábricas que cedem material, como plumas, paetês, galões, chatons, com o compromisso de fazer as compras finais da escola com eles. É importante estar atento aos prazos e detalhes, como por exemplo, tingir as plumas com a mesma cor dos tecidos.

Em meados de janeiro, 90% das fantasias do carnaval já estão prontas. O figurino da bateria está pronto há dois meses, as baianas há um mês e meio. Já as fantasias dos destaques, “estão guardadas a sete chaves”, conta Rafael.

O figurino da porta-bandeira é uma das fantasias mais valorizadas, responsável por uma nota única no desfile. Costuma ser uma roupa muito trabalhada e usa materiais luxuosos, e também uma das fantasias mais caras. Só na saia da porta-bandeira da Nenê este ano, foi o preço de um carro.

Na equipe criativa, a Nenê tem o Eduardo, responsável pelas alegorias, o Rafael pelos casais de mestre salas e porta bandeiras e também pela composição dos carros. Além dos meninos do ateliê, há também Renato Ribeiro e Diego Motta responsáveis pela execução.

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Com o tema definido é feito uma pesquisa de referências para servir de base na criação das fantasias.

As Esculturas

Os materiais mais usados nas esculturas são fibra, isopor, tecidos e papel (que é muito usado com a técnica do empastelamento, semelhante ao papel machê).

O empastelamento é uma cobertura feita com papel kraft e cola, usada em tudo que é isopor, diminuindo a fragilidade do material evitando que quebre e também possibilitando um melhor acabamento, já que na superfície pura do isopor é mais difícil de se colar materiais como tecidos, por exemplo.

Magoo explica que para confecção das esculturas a fibra é o material mais caro e costuma ser usada para reprodução. É mais barato fazer quatro esculturas no isopor do que uma utilizando a fibra. O isopor é uma alternativa mais barata, mas se determinada escultura for repetida oito vezes, é feito uma matriz a partir de um molde e depois replicada em fibra, devido à economia de tempo.

Na construção das esculturas também é comum mesclar materiais, por exemplo, um corpo que se repetirá é feito em fibra e para modificar a escultura, acrescenta-se braços e outros acabamentos que são feitos em isopor.

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Chama atenção a expressividade e a quantidade de detalhes das esculturas que são gigantescas, as pessoas parecem pequenos bonecos ao lado delas.

Os Bastidores do Carnaval – Saiba como é feito o desfile de uma Escola de Samba   Enredo, carros alegóricos e fantasia   Parte 1Esculturas sendo preparadas no barracão da Nenê para o desfile do Carnaval 2013. A logística é o grande segredo das na construção de um desfile

Os Bastidores do Carnaval – Saiba como é feito o desfile de uma Escola de Samba   Enredo, carros alegóricos e fantasia   Parte 1Denise Pitta no Barracão da Nenê com o carnavalesco Magoo, XX, Carlos Seles, diretor Geral de harmonia, Kaiene Muriel, coroada este ano como primeira princesa do carnaval de São Paulo, D. Laurinha, presidente da Embaixada do Samba, Rúbia Angélica, primeira porta-bandeira da Nenê

Veja galeria de fotos do barracão da Nenê de Vila Matilde

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Agradecimentos especiais ao Carlos Seles que nos convidou para conhecer o barracão da Nenê e à comunidade que nos recebeu com todo carinho possibilitando esta matéria.

Por Denise Pitta de Almeida

Publicação: 7 de fevereiro de 2013

AUTOR

Denise Pitta é digital Influencer e é editora do Fashion Bubbles. Estilista, formada em Moda e Artes Plásticas, atuou em diversas confecções e teve marca própria de lingeries, a Lility. Começou o blog em 2006 e está entre as primeiras blogueiras brasileiras da moda. Também desenvolve pesquisas sobre História e Identidade Brasileira na Moda e Psicologia Analítica. É apaixonada por filosofia, física quântica, psicanálise e política. Siga Denise no Instagram: @denisepitta e @fashionbubblesoficial

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