A Arte e o Dinheiro na Cultura Capitalista – História e reflexões por Queila Ferraz

A Arte e o Dinheiro na Cultura Capitalista   História e reflexões por Queila Ferraz

Mesmo quando não rende muito dinheiro, a arte crítica ou difícil pode ser usada,

tanto pelos artistas quanto pelas instituições, para acumular capital cultura.” Tim Nobles e Sue Webster, 2001.

(Ilustração de abertura: O Banqueiro e sua Mulher – Quentin MATSYD, 1514)

A arte, como todos os processos criativos que acontecem na história da humanidade, é reflexo do espírito do seu próprio tempo, continuando ser a sim na contemporaneidade. Atua confirmando ou negando a mentalidade de sua época. Reflete a sociedade e a cultura da qual deriva, delegando às suas obras o valor de belo ou feio ao concordar ou discordar do modelo de vida e dos valores sócio-culturais que se apresentam simultaneamente a seu tempo.

Hoje a sociedade vive sobre o domínio de valores mercantilistas e, onde todos os objetos criados são precificados, cujo consumo, mostra a capacidade financeira de quem os têm.

Vender obra de arte é uma característica significativa dos tempos atuais e tal condição marca os rumos da arte contemporânea. Para tanto o mercado está totalmente equipado através de galerias, feiras e leilões, tornando acessível as criações artísticas ao mundo do dinheiro.

Segundo Robert Hughes, citado por Gustavo Franco no livro Arte e Dinheiro, “a pujança financeira dos museus substituem as igrejas como principal orgulho cívico de nossa cultura”(2004, 36)

O Fim do Mecenato

Na Idade Moderna, o custo e o preço de uma obra de arte era estabelecido pelo sistema de Mecenato, quando um homem de grandes posses, nobre, mercador, burguês ou a igreja católica, custeavam e pagavam a execução de uma obra de arte.

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Julio II: Um papa mecenas. Saiba mais sobre ele aqui – A Arte e o Dinheiro na Cultura Capitalista

Foi na Holanda do século XVII que o Mecenato chegou ao fim. Lá, a posição social tanto da população rural quanto urbana passou a ser definida por relações fundadas no mercado, substituindo os relacionamentos feudais e de senhorio. Seus artistas passaram a produzir cada vez mais para um mercado anônimo de empresário e banqueiros. Naquela época um quadro não era diferente de outras produções de objetos artesanais. No estatuto das Guildas de São Lucas, em Leiden, em 1648, não havia distinção entre um pintor de telas ou de parede.

Corporações de Artesãos X Academia X Genialidade

Os artistas franceses, nesta época, fundaram uma Academia, visando se distinguir das corporações de artesãos através da exposição anual de suas obras: o Salon. A partir dai passaram a viver da venda de suas obras ao Estado e a colecionadores privados, buscando, à semelhança de seus clientes aristocratas, um status de artista autoral, livre e genial.

A substituição do mecenato pelas transações de mercado marcou a mudança no processo de remuneração do artista e também do valor monetário da obra de arte, criando uma ampliação do mercado para consumo de tais obras. O artista como gênio livre, passou a ser responsável pela escolha dos temas e das técnicas que deveriam ser usadas para chamar atenção dos compradores e colecionadores.

Temas religiosos e mitológicos, que marcou o estilo Renascentista, foram substituídos por retratos e pinturas de gênero, multiplicando assim as escolhas de assuntos a serem tratados e as abordagens artísticas.

O princípio dominante da atividade artística passou a ser o gênio do artista, sua própria individualidade e ousadia inventiva que partilhava com o cientista e o homem de negócio. O artista passou também a ser um mercador e a arte, a forma mais elevada da atividade humana. Vejamos esta condição em músicos da época.

Quando a Revolução Industrial se estabeleceu, no século XVIII, arruinando a produção artesanal, os valores de genialidade e individualidade do artista passaram a contrastar com o anonimato daqueles que criavam para as fábricas.

Já para o colecionador, a arte transformava o dinheiro ganho pelo investimento capitalista, na indiferença aristocrática pelo ganho financeiro.

Na obra Arte e Dinheiro de Laly Siegel e Paul Mattick dizem que: “os museus convertiam os tesouros do passado em símbolos das aspirações mais elevadas da ordem social vigente” (2004,34). Esta condição desenvolveu um sistema de comercialização da obra de arte em galerias-marchand que recusava o sistema de Solon francês e passou a espelhar uma nova sociedade fundada na ciência e no progresso.

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Os Movimentos de Vanguarda

O primeiro grande movimento artístico independente na sua comercialização foi o Impressionismo, criaram o Salão dos Recusados, que não mais participavam da exposição anual da Academia Francesa. O herói perfeito deste novo tempo foi Vincent van Gogh, que de tão independente, sua obra só conseguiu ser vendida depois de sua morte e até o final do século XX, suas pinturas atingiram o maior preço já pago por uma obra de arte.

Os artista do século XX competiram entre diferentes movimentos de vanguarda e viveram assombrados pela obrigação de serem originais para conseguirem uma fatia do mercado.

La Peau d’Ours, uma associação de colecionadores começou a comprar obras de vanguarda em 1903 que foram vendidas dez anos depois com lucro de 300 por cento, dando assim valor de especulação de capital também para a obra de arte.

As Guerras Mundiais deslocaram o centro de poder econômico da Europa para os Estados Unidos, inserindo a tradição norte americana na tradição modernista pondo fim aos movimentos europeus de vanguarda.

O fim do século XX conheceu um mercado de arte totalmente globalizado, com as bienais de Xangai, Veneza, São Paulo, Miame e com a construção do Witney Museun em Nova Iorque. Esta nova arte conta hoje com sua divulgação e comercialização com museus, galerias, feiras e leiloes, que se espalham por todo o planeta.

Foi nos Estados Unidos, com sua mentalidade francamente comercial, que a representação artística encontrou a representação do valor econômico, quando a Pop Art usa a figura do dinheiro como um caminho comum. Em 1970 Lichtenstein e Andy Warhol, ao imitar efeitos de produto de massa, tomam para si a lição de que a arte é um produto comercial do capitalismo contemporâneo, passando a questionar os museus e galerias como espaço da arte para negócio.

No rico mercado dos anos de 1980 os artistas se libertaram da mostra de obras comerciais. Seguindo o caminho de Duchamp, Jeff Koons recontextualizou objetos industrializados e se tornou famoso ao expor numa vitrine um aspirador de pó. Foi assim que surgiu a crítica norte americana do consumo de obra de arte dentro do novo capitalismo pós-moderno, revendo a atitude do artista contemporâneo quanto à relação da sua obra e o valor do dinheiro.

 A Arte e o Dinheiro na Cultura Capitalista   História e reflexões por Queila FerrazA Arte e o Dinheiro na Cultura Capitalista   História e reflexões por Queila Ferraz

Por Queila Ferraz

(Queila Ferraz é historiadora de moda e arte, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário. Trabalhou como coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac e da Belas Artes.)

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Publicação: 5 de setembro de 2017

AUTOR

Queila Ferraz é historiadora de moda e arte, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário. Trabalhou como coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac e da Belas Artes.

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