Adolescência e Rebeldia: Modas de Vanguarda – Parte 2/3

Adolescência e Rebeldia: Modas de Vanguarda   Parte 2/3

Imagem via blog Conviver

Segundo Passerini (1996), a invenção da adolescência se deu na passagem do século XIX para o XX, quando, produto do romantismo, a juventude foi retomada como idade turbulenta e de renascimento. Germe da nova riqueza, com força capaz de aniquilar, no futuro, a miséria do passado, o modelo de juventude prometia uma regeneração tanto individual quanto coletiva.

A dimensão da juventude como problema apareceu com a publicação da obra Adolescente, do psicólogo Stanley Hall, nos Estados Unidos, em 1904. Nela, o autor atribuía a essa faixa etária qualidades antitéticas como hiperatividade e inércia, sensibilidade social e autocentrismo e, ainda, intuição aguda sobre a necessidade de eliminar pressões e condicionamentos.

O surgimento desta visão veio mostrar uma crise patrimonial vivida por adultos que duvidavam poder ver sua obra desenvolvida pelos sucessores naturais. Os pais passaram a acreditar que seus herdeiros eram capazes de, como força obscura e estranha, ameaçar a corrida rumo ao progresso da sociedade americana.O processo que conduziu à codificação da adolescência, como fase em si, atingiu a maturação plena logo após a Segunda Guerra Mundial. Em 1914, Elliot Cohen publicou um artigo no New York Times, usando o termo teenager como parte da linguagem corrente.

A figura do adolescente que emergia era associada à vida urbana e encontrava seu habitat no high school, como num cosmos em si mesmo. Era freqüentada pela quase totalidade dos jovens de qualquer classe social, que passavam a maior parte do tempo na escola, na companhia de seus iguais e não com adultos. Passerini comenta que (1996:358):

O sistema de valores da sociedade adolescente acentuava a importância da aparência por meio das roupas, popularidade, atrativos exteriores; os mais populares de todos eram os jogadores de futebol americano e, em geral, atletas, os estudantes mais inteligentes, sobretudo as moças – evitavam ser os primeiros da classe, isto ameaçava diminuir a popularidade.

O ano de 1955 é apontado como marco para a compreensão deste conceito, com o lançamento do filme Juventude Transviada, com James Dean e Natalie Wood. Também foi significativa a publicação da obra de Kerouac em 1957, On The Road, que tinha como título original The Beat Generation (1941). Tal obra serviu para designar a nova geração como beat, não no sentido original de beatífico, mas como indicador de desordem e delinqüência.

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James Dean – Via blog Mestre Joca

O aspecto que determinava esta cultura como delinqüente, a associava à existência das gangues, derivadas do imaginário do “gângster”, como o líder perigoso. A subcultura adolescente, que era considerada agressiva, agregava o rock end roll ao corpo de manifestações. Passerini (1996) comenta que, em documentos oficiais do senado, lia-se: “o gângster de amanhã é o tipo à Elvis Presley de hoje”.

O estereótipo do teenager continha muitos elementos sexuais, do jeans muito apertado, das atitudes provocatórias, até a idéia de serem portadores de uma aparente copulação ininterrupta. A sexualidade do adolescente despertava conflitos eróticos nos adultos, cuja inveja era sugerida pelo medo de envelhecer e pela constatação de que estes jovens tinham conquistado mais liberdade do que seus pais jamais tinham sonhado. Porém a desvalorização do adulto derivava da constatação de que os pais não haviam obtido o que tinham esperado quando jovens e, assim, se sentiam frágeis e incapazes.

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Elvis Presley - via blog Tranca-On-line

A condição sexual estava carregada de valor simbólico e ligava sua centralidade ao processo de rebelião. A forma de liberdade sexual era, sobretudo para as moças, modo de exprimir revolta. Elas se  inspiravam na suposta virilidade das classes inferiores e, recusando a sexualidade do homem branco de classe média, personalizavam estilos alternativos de viver. Os modelos masculinos teenager eram: Marlon Brando e os andróginos, como Elvis Presley  e  James Dean.

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Marlon Brando – Via blog Themave – Bijou

Na metade do século, o processo estava completo e a adolescência adquiria um estatuto legal e social a ser disciplinado, regulamentado e protegido através de uma série de intervenções governamentais, como Youth Correction Division (1951), Subcomitê sobre a Delinqüência Juvenil do Senado (1953), Children’s Bureau do governo federal (1954), Committee on Youth Employment (1955).

Em 1960, a Casa Branca promoveu um grande seminário sobre a criança e o jovem. Estes atos governamentais mostravam um modo de perceber os jovens como indivíduos perigosos para a sociedade e para si próprios e, ao mesmo tempo, necessitados de proteção.

Nos primeiros anos da década de 60, termos como “delinqüência juvenil” foram substituídos por outros como “cultura dos jovens”, que exprimiam uma atitude diferente e se difundiram nas universidades e na literatura acadêmica pós-Vietnã.

A fase final da construção deste conceito foi representada pelos movimentos estudantis de 1968. No plano teórico, polemizou-se contra as concepções sociológicas da revolta, enquanto revolta juvenil. Na prática, privilegiou-se a figura do jovem andrógino em versão masculina, rebelde à ordem existente e portador do futuro, com fé na igualdade advinda do fato de pertencer a uma mesma faixa etária.

Esses grupos de jovens, estranhos em relação à sociedade existente, foram designados por terminologias como casta, tribo ou subcultura, expressões derivadas dos estudos etnográficos de povos, com características diferentes das do sujeito considerado central, nas sociedades ocidentais.

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Emos – tribo urbana contemporânea – via blog Desenblogue

Esse jovem, produto do espírito do seu próprio tempo, considerado estranho no seu próprio ninho é, no entender deste estudo, o elemento novo que impulsiona o futuro, é o eterno elemento de renovação das sociedades e é, por esse motivo, eleito como objeto das nossas reflexões teóricas, tanto na sua versão de jovem quanto na de adolescente, como indivíduo que produz culturas alternativas às culturas dominantes de seu tempo e que tem expressado sua ética e aspirações socializadoras dentro da linguagem da moda.

Como maneira de traduzir e reconhecer os fatos sociais através do vestuário, a adolescência, com seus movimentos de juventude, tem gerado culturas de oposição que se expressam pela aparência e geram estilos particulares, encontrando, em sistemas de solidariedade grupal, maneiras de atravessar esse tempo de passagem, que a própria cultura dominante lhe atribui como parte de sua condição social de jovem.

Segundo Bollon (1993), o aspecto mais surpreendente dos movimentos de juventude que se expressam pela aparência, está no modelo de sociedade implícita. Contra-cultural e vanguardista, o jovem adolescente expressa, por antecipação, uma revolta contra uma situação de restrição que ainda não chegou e se opõe a ela como resposta e quase como solução, oferecendo a imagem de uma outra sociedade, em que a restrição não mais existiria ou se acharia magicamente resolvida.

Nos materiais, no colorido, na forma e na arquitetura geral de seu traje, o adolescente mostra a organização possível e viável do social, inversa àquela em que ele evolui diariamente, na qual o traje contém um verdadeiro projeto de sociedade.

Para Bollon (1993), os movimentos de estilo da juventude são maneiras que expressam pelas aparências, uma revolta que se daria certamente se o que eles tivessem para dizer, pudesse ser feito de imediato, por outro meio mais convencional, e, devido a essa dificuldade a mensagem é forçosamente inconsciente e impossível de formular, porque é ainda prematura ou objeto de tabu.

É difícil falar de mensagem em se tratando dos movimentos de estilo. Seu registro não é o da razão e sim o da imagem. O início do estilo como virtualidade associa-se a uma dimensão de afirmação ética, que cada movimento carrega em particular.

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Roqueiros – Outra tribo urbana – via blog Canto do Oráculo

Assim é escrita a história desses movimentos que, ligados uns aos outros, se inscrevem numa evolução das mentalidades do momento, refletindo sua organização. Expressam uma atitude que só se generaliza e se percebe mais tarde. No caso dos zoot-suits americanos, esta afirmação ética, os associou a uma representação social e cultural da marginalidade como um novo registro de sentido.

E é nesse caminho que a moda encontra uma das suas parcerias com a sociedade, como confirma Bollon (1993: 94)

…o traje permite explorar um futuro que não está completamente determinado e de se situar preventivamente em relação a ele,…em suma, é a aparência que permite conquistar progressivamente, por meio de um mecanismo de tentativa e erro, uma nova essência…, o estilo é realmente uma maneira de construir…Todos os movimentos de estilo podem ser vistos como dispositivos fantasmáticos, graças aos quais as novas mentalidades podem se esboçar e ser testadas. Eles permitem aos que a eles recorrem, e mais globalmente à sociedade como um todo, que façam o aprendizado das novas atitudes, para ver quais são suas atitudes, suas conseqüências, se é preciso adotá-las, ou ao contrário, rejeitá-las e como modificá-las para torná-las mais verdadeiras, melhor adaptadas: o estilo permite brincar com o comportamento, e isso num universo pacificado, para aperfeiçoá-lo.

O fato se torna particularmente visível quando o estilo de transição coloca para a sociedade, ou para uma fração desta, o problema da escolha entre vários comportamentos alternativos. Nesse momento é freqüente o surgimento de vários estilos, de vários modos de vida, entre os quais os grupos se dividem ou evoluem, antes que um deles termine se impondo como o bom ou até como o único possível. Essas situações correspondem aos períodos de predileção dos movimentos de estilo. Sempre aparecem quando a sociedade não consegue escolher entre as possibilidades que lhe são oferecidas e se vê forçada a permitir a convivência imagética de um multiculturalismo existente dentro do seio social.

James Dean em Juventude Transviada

Natalie Wood (and James Dean) in Rebel Without a Cause

Por Queila Ferraz

Leia também Movimentos de Juventude e Adolescência na Moda – Parte 1/3.

Publicação: 19 de agosto de 2009

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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