Esnobismo e Moda: o gosto pela marca e a busca pelo amor

Esnobismo e Moda: o gosto pela marca e a busca pelo amor

Muito se fala sobre a importância do corpo vestido na socialização dos indivíduos e das motivações psicológicas que impulsionam o consumo de trajes moda.

As ciências humanas têm debruçado seus estudos sobre a importância das aparências como um elemento sinalizador para a aglutinação de pessoas, em torno de objetivos comuns. Esta visão está muito bem elaborada, em pensamentos como os de Hume, Simmel, Mafesolli, Baudrillard.

Sou uma historiadora de Moda e Vestuário e tenho usado o viés da história das aparências para mostrar e, demonstrar a função da moda como geradora de riquezas, e de demanda de mão de obra que a cultura das aparências proporciona nas sociedades modernas. Tal condição gera produtos e uma necessidade psicológica que induz ao consumo de bens.

Esnobismo e Moda: o gosto pela marca e a busca pelo amor

Filósofo contemporâneo Alain de Botton

Aqui, através do pensamento de Alain de Botton, jovem filósofo contemporâneo, quero apontar a importância da aparência do traje modalizado, como um sinalizador comum para a inserção das pessoas que ocupam posições importantes na sociedade.

Esnobismo e Moda: o gosto pela marca e a busca pelo amorEsnobismo e Moda: o gosto pela marca e a busca pelo amor

A moda como sinalizador comum para a inserção das pessoas que ocupam posições importantes na sociedade

Botton fala daqueles que ocupam posições sociais importantes como “alguém” e os seus opostos, como “ninguém”. O que este autor traz de novo para um tema que já está tão visitado, é a associação dos conceitos de “alguém” ao da conquista de status e amor, e o de “ninguém” ao estado de solidão e da posse de baixa auto-estima.

Solidão e socialização são temas caros para uma estudiosa de formação de grupos, como eu, mais especificamente de grupos de tribos urbanas, cuja condição de pertencimento se dá principalmente, pela aparência do corpo vestido, como único sinal de status possível para pertencer e transitar pelas diferentes tribos.

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A moda como único sinal de status possível para pertencer e transitar pelas diferentes tribos

Botton define amor como uma espécie de respeito, ou seja, a sensibilidade de uma pessoa à existência da outra. Ser objeto de amor é se sentir objeto de preocupação, nossa presença é notada, nosso nome é registrado, nossas opiniões são ouvidas, nossos fracassos são tratados com indulgência e nossas necessidades são atendidas e são com esses cuidados que florescemos como indivíduos.

Todos nós ansiamos por dignidade, sentir que não temos atenção faz com que nos sintamos negligenciados, feios e deselegantes, solitários no meio da multidão.

O desafio de se sentir abaixo da escala de status imposto por seus pares, interfere na nossa projeção de respeito próprio e auto-estima. O benefício do status elevado é o respeito que deriva do dinheiro, demonstrado através das aparências do corpo e da posse de objetos sinalizadores de posse, tanto material quanto cultural.

Alain de Botton tem um pensamento significativo para os estudos sobre status e natureza humana. Para ele, com a garantia de alimento e abrigo, o que impulsiona nosso desejo de sucesso na hierarquia social, pode não estar tanto nos bens que possamos adquirir ou no poder que possamos exercer, mas na quantidade de amor que recebemos como conseqüência do nosso status elevado.

Dinheiro, fama e influência podem ser avaliados mais como provas de amor – um jeito de chegar a ele – do que como fim em si mesmo. Ele diz que toda a vida adulta anseia por duas grandes histórias de amor, a busca pelo amor sexual e a busca do amor do mundo.

Na historia da moda os trajes de núpcias têm o poder de unir essas duas condições numa só aparência. Desde a antiguidade os noivos devem, nesta ocasião, vestir o melhor traje que seus pais podem pagar, porque assim demonstram o grau de riqueza que as famílias possuem, honrando as posses das famílias que recebem o novo casal.  Foi assim que surgiu o vestido de noiva na cultura ocidental, no final da Idade Média. Já falamos sobre esse tema no nosso texto sobre a História do Vestido de Noiva em www.fashionbubbles.com.

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Casamento de Lady Diana Spencer e Principe de Gales: os trajes de núpcias têm o poder de unir essas duas condições numa só aparência

No amor do mundo há sofrimento, sofrem as almas invejosas ou deficientes de status, seus reveses dolorosos são sugeridos pelos olhares frios e distantes que o mundo elege para desprezar como “ninguém”.

No que diz respeito ao traje, o que é eleito como deselegante, outorga, a seu usuário, a condição de mau vestido, e indigno de pertencer, conviver e representar o grupo que o rejeita, e assim ficando entendido que todo indivíduo mal trajado é um “ninguém” para este ou aquele grupo, totalmente “estranho no ninho”.

O amor do outro, ou a falta de atenção, afeta nossa incerteza em relação ao nosso próprio valor, assim, o que os outros pensam de nós vem a ter um papel determinante no modo como conseguimos nos ver. Nosso senso de identidade torna-se cativo da opinião daqueles com quem convivemos.

O desprezo acentua a avaliação negativa que fazemos de nós mesmos, enquanto um sorriso revela o contrário.

Dependemos da afeição dos outros para nos suportar, somos ansiosos em relação ao lugar que ocupamos no mundo, porque esse lugar determina quanto amor recebemos e assim, podemos ganhar ou perder a confiança que depositamos em nós mesmos. Sem o amor social somos incapazes de confiar em nosso caráter e de sermos fiéis a ele.

O amor adulto conserva como protótipo, o amor incondicional de um pai para um filho, quando recebemos cuidados numa condição desprotegida. Só quando amadurecemos que a afeição começa a depender das nossas realizações: ser educado, bem sucedido, adquirir classe e prestígio leva ao anseio de recuperar as carícias da infância.

Botton diz que podemos rir daqueles que se afligem por um desejo de possuir símbolos de status, porém, antes de zombar, seria mais justo perguntar sobre o contexto mais amplo, no qual, a cultura dos objetos e a importância social das aparências é produzida e consumida.

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Desejo de possuir símbolos de status (Filme: Bonequinha de Luxo)

Podemos culpar a sociedade em que a compra de objetos de status é psicologicamente necessária e recompensadora para ser respeitado. Subestimar os outros não é passatempo para os que são convencidos da sua própria posição, mas estes costumam ser considerados arrogantes e esnobes. Podemos suportar várias perdas sem que nossa necessidade de afeição fundamentada na infância seja extinta.

Existe terror por trás da arrogância. O medo atravessa gerações, esnobe gera esnobe. A geração mais velha nega à sua descendência a fundação emocional que permitiria imaginar que o status baixo não equivale à falta de valor, e nem o status elevado, à excelência. É difícil renunciar as táticas de esnobismo sozinho, a doença é coletiva, e leva ao desprezo, é a punição que os esnobes impõem aos privados dos símbolos de importância. Ou seja, como se pode ser aceito num mundo de bem sucedidos sem uma caneta Mont Blanc, um sapato Prada ou uma carteira Louis Vuitton?

As vantagens do processo civilizador ocidental são bem conhecidas, riqueza, fornecimento de alimento, bens de consumo, segurança física e expectativa de vida, levaram a um aumento nos níveis de preocupação com o valor, a realização pessoal e a renda, gerando um aumento do desejo de status e o medo da privação do real.

É preciso considerar a psicologia por trás do modo como decidimos o que é suficiente, o limite da riqueza e estima provém da comparação da nossa situação com a do grupo de referência que consideramos iguais, é o sentimento transmitido pelas realizações superiores daqueles que consideramos nossos iguais que gera desejo e ressentimento. Invejamos apenas aqueles que consideramos como nosso grupo de referência, o êxito dos amigos íntimos é intolerável.

Nossa auto-estima depende do que pretendemos ser e fazer, todo aumento em nossos níveis de expectativa acarreta um aumento de risco de humilhação. Podemos realizar mais ou podemos reduzir o número de coisas que queremos realizar, desistir de pretensões é um alívio.

O preço que pagamos por esperar ser muito mais do que nossos ancestrais é uma angústia perpétua, pois estamos muito longe de ser tudo o que poderíamos ser. Madame Bovary, personagem de Flaubert, mostrou a angustia do endividamento com o alfaiate pela vaidade e pelo desejo de participar da vida da nobreza a qual não pertencia.

A Moda é o campo minado da cultura das aparências, pelo desejo de status, endividamo-nos para participar de um mundo ao qual não pertencemos, mas queremos ali entrar de qualquer modo.

A eficácia e a permanência deste fenômeno nas culturas contemporâneas, se deve ao seu poder de permitir aos corpos vestidos, transitar pelo mundo social, mesmo que sua permanência seja passageira e temporária. O traje de Moda acaba por ser a máscara do sucesso e a possibilidade de mudar o degrau social, com um óculos Armani, mesmo que vintage, ou uma calça Diesel surrada.

Esnobismo e Moda: o gosto pela marca e a busca pelo amor

Madame Bovary

 Moda acaba por ser a máscara do sucesso e a possibilidade de mudar o degrau social

Veja entrevista com Alain de Botton na Revista Você S/A:  Você tem fome de quê? 

 Leia também  A Vida sob a Influência e Sobre Dândis e Antimoda Masculina.

 

Por Queila Ferraz

Publicação: 5 de junho de 2009

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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