O que é a História da Moda – Aparências Subversivas / Parte 2-2

Aqui, proponho uma breve reflexão sobre o mercado de moda de vanguarda, como propulsor do fenômeno da moda e gerador de um grande número de pequenos negócios que movimentam o setor do streetwear e seus estilos subversivos de moda.

O que é a História da Moda   Aparências Subversivas / Parte 2 2

Leia também: O que é a História da Moda – Parte 1/2.

I – APARÊNCIAS SUBVERSIVAS

Estudar a Moda está na moda. Vivemos um período da história da humanidade que exalta a sociedade de consumo, a cultura do desperdício e a contínua rotação de produto, o que da origem à corrida para evidenciar indivíduos singulares e as comunidades que os constituem, ou seja, ser diferente junto com seus iguais.

Para Dorfles, num período histórico no qual privilégios de casta, de condição e de classe pareciam se atenuar, surge a necessidade de distinção entre os vários segmentos que compõem a sociedade e os indivíduos que dela participam. Para ele é espantoso que (1989): enquanto assistimos a consolidação de conquistas derivadas das contestações juvenis, cujo objetivo é eliminar e infringir privilégios e tabus burgueses, verificamos que estas novas formas de revolta são levadas a se deixar dominar pela moda,… isto porque a cultura dos objetos se edifica sobre este fenômeno e este, por sua vez, é parte da cultura das aparências.

Tal fato tem sido visível em hábitos, costumes e particularmente no vestuário como forma de virtualidade revolucionária. Esta expressão é usada por Bruno du Rosselle (1980) para definir a maior qualidade da moda como fenômeno, ou seja, o gosto pelo novo como atitude revolucionária, sendo, portanto, possível de ser entendida como uma linguagem de vanguarda.

Barthes, falando de moda e linguagem (2004), lembra que a indumentária é fortemente significante, e que é capaz de constituir uma relação intelectual notificadora entre o usuário e seu grupo, e que essa função faz do vestuário um fato social.

Um objeto de moda pontua sempre o novo e deixa sempre claro o sinal do passado que está sendo eliminado. A moda é sempre nova, mas nunca é apresentada solitariamente. Um objeto só se torna “da moda” quando é aceito por um grupo que carrega nele, sinais de pertencimento, e que delega o valor de novo a este objeto.

Uma das questões fundamentais que se deve colocar em qualquer estudo de história do vestuário, diz respeito às relações de imitação e renovação que estão dentro do seu sistema e que remetem aos aspectos de coesão entre os indivíduos e manifestam as afinidades grupais.

Simmel (1944), sociólogo citado por todos os estudiosos de moda, afirma que parte substancial do comportamento humano é determinada pelo mecanismo de separação-diferenciação e adequação-imitação. Parte do comportamento humano é específico de cada época, e isto permite considerar como verdadeira, a necessidade e a vontade de diferenciação entre os indivíduos, como é o desejo de coesão de uma determinada moda ou atitude por parte de uma mesma comunidade.

Aqui, lembrando as colocações de Barthes (1979, 2005), não podemos esquecer que a moda tem, na indumentária, seu primeiro sinal de existência, porém, sua origem representa um outro movimento. (2005:243) A moda é uma indumentária artificialmente criada por especialistas, que é constituída pela propagação de um traje reproduzido em escala coletiva por diversas razões.

A passagem do traje à indumentária pode ser captada numa expressão do traje, como, por exemplo, a calça nova, desbotada, rasgada e com alfinetes significa uma compactuação com a visão de mundo do punk inglês. Já a calça velha, desbotada, rasgada e com alfinetes é reconhecida como a indumentária punk usada pelo jovem inglês nos anos 80. O velho jeans usado pelo jovem, já era uma subversão do código de elegância, que pontuava uma atitude em relação ao mundo do trabalho, pois o significado, socialmente reconhecido na calça jeans, era o de ser o traje do trabalhador minerador norte-americano no séc. XIX.

Um vagabundo usando um traje que significa funcionalidade no trabalho é uma subversão do código, já, em se tratando de um jovem de classe média fazendo uso da aparência punk, apenas para compactuar com aqueles sentimentos, através de um jeans novo e envelhecido artificialmente, nunca pode significar pobreza. Assim, o que aponta para a essência do significado de moda é o sentimento que ela pontua na “flor da pele” vestida.

Simmel (1999) coloca ainda que tal fato pode se dar tanto dentro de uma mesma categoria social, como através da adequação das classes inferiores às modas das superiores. Isto se dá quando a adequação e a imitação se tornam essenciais para a identificação entre indivíduos e comunidades que necessitam manifestar suas singularidades. Tal condição é a que leva à subversão dos costumes e gera revolução nos modos de viver: toda subversão do costume vigente ou fenômeno revolucionário corresponde a uma transformação na moda-vestuário. O constante revezar dos mecanismos da moda e a duração da fase imitativa variam segundo as condições sócio-econômicas e culturais.

Para ele, o que distingue a moda da maior parte das convenções e práticas sociais é o fato de ela estar sempre voltada para o presente, sendo sempre imediatista e dramática. Embora seja freqüente o fato da moda se renovar com base em esquemas do passado, através de estilos retrôs ou revivalistas, é preciso salientar que este fato só serve como fonte de inspiração para renovação, que se realiza por meio de novas tecnologias, confirmando o caráter de instabilidade da moda. Cada novo estilo acaba por tornar-se moda.

Um estilo autêntico apresenta peculiaridades de gosto, de configuração que resultam como unidade absolutamente diversa daquelas que o precede. Esta condição tem permitido estender o conceito de moda para além do universo do vestuário; porém essa extensão exige a assimilação do conceito de moda ao de gosto. E para Dorfles, (1990)
estilo é aquela forma que corresponde às necessidades de exprimir uma nova perspectiva ou um novo conteúdo da realidade social e cultural, ao passo que a moda é qualquer forma inventada deliberadamente ou imposta por razões que não exijam uma interpretação estilística da realidade.

Toda sucessão de períodos estilísticos corresponde à substancial transformação das situações ético-estéticas e político-econômicas na comunidade da qual deriva; já a variabilidade da moda, corresponde a períodos de cansaço inventivo, comum a todas as áreas da criação humana, somado às mudanças do gosto. E no caso da moda-vestuário, são acrescentadas a sazonalidade do produto e a dinâmica do mecanismo de produção para o mercado de consumo de produtos industrializados, ou seja, trajes para outono, inverno, primavera, verão, ainda trajes masculinos, femininos e infantis e, finalmente, para as funções e ocasiões de uso em situações de trabalho, lazer e festa.

Hoje está na moda falar de Moda para além do vestuário. Fala-se de modas-filosóficas, modas-comportamentais. Estas modas afloraram na cultura contemporânea, depois das revoltas estudantis dos anos 60, do séc. XX. E definem o fenômeno das tribos urbanas, que os estudos anglo-saxões denominam streetwear, ou seja, a moda que nasce na rua e nela pontua seus sinais de pertencimento, para os indivíduos que apresentam esses sinais, passem a conviver em grupos, quase tribos, dentro de uma estrutura cultural que envolve vestuário, dialeto, música e ambiências festivas. Esses locais, marcados pelo gosto musical, são os pontos de convivência e de busca de parceria amistosa e afetiva. É curioso pensar em moda para além do vestuário, mas o fato é que, a moda, nada mais é que a representação de um modo de viver.

Por Queila Ferraz

(Queila Ferraz Monteiro é estudiosa de História da Moda, é consultora de design e gestão industrial para confecção e Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção dos cursos de Moda em várias faculdades , também é professora em cursos de pós-graduação em universidades como o Senac. queilamoda@yahoo.com.br )

Publicação: 27 de junho de 2008

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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