Fotografia de Moda – História dos Olhares – Parte 3

Fotografia de Moda   História dos Olhares   Parte 3

O conhecimento visual do mundo através de imagens se tornou moda através do advento da fotografia, que trouxe com ela as marcas de um mundo de imagens que imaginam o mundo, representando e transcodificando processos vivenciais em cenários e cenas, dando ênfase a idéias de um universo substituto. Flusser lembra que (2002:10) como toda imagem é também mágica, seu observador tende a projetar essa magia sobre seu mundo.

Estudar o que pertence à foto, ao sujeito, ao fotógrafo e ao espectador são os caminhos que se apresentam para os estudos teóricos hoje.

Para Barthes a fotografia pertence ao campo teórico da “historia dos olhares” e sua regra parte de dois elementos básicos.

O primeiro é a extensão de um campo familiar ao saber, à cultura do espectador. Este campo que remete sempre a uma informação clássica e gera um interesse geral cuja emoção passa pelo revezamento judicioso de uma cultura moral e política, produzindo um afeto de participação cultural nos gestos, cenários e figuras.

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O segundo elemento gera um sentimento que parte da cena, transpassando, ferindo e atingindo o espectador e conclui que no fundo, a fotografia é subversiva, não por aterrorizar, perturbar ou estigmatizar, mas por que faz pensar e induz a sentir. Neste ponto Barthes vem de encontro com Octavio Paz na sua obra Signos em Rotação (2005), quando fala do poder de subversão da imagem.

Barthes nos fala da foto como um teatro primitivo, como um quadro vivo (1984:58): A fotografia para surpreender fotografa o notável, mas logo decreta notável aquilo que ela fotografa e assim a fotografia só pode significar assumindo uma máscara. Para ele, a máscara é a região da fotografia que trabalha na zona da produção de sentido, suficientemente crítica para inquietar e muito discreta para constituir uma crítica social eficaz. É por isso que a semiologia da fotografia está restrita ao objeto que fala, induzindo vagamente a pensar.

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Segundo Barthes (1984) a qualidade destas imagens está na sua capacidade de contar fatos, dizer coisas e tecer comentários, produzindo afeição, pontuando estados de inserção e rejeição dos indivíduos aos modos de ser e de viver. As fotografias devem lembrar pedaços da vida, onde as paisagens e cenários habitáveis e as fotos de roupas devem ser vestíveis, desejáveis ou não.
A fala fotográfica penetra o espectador através dos detalhes da imagem que consegue comentar a cumplicidade deste com aquele instante apreendido por um certo ato fotográfico. Esta é a condição que diferencia a arte fotográfica das demais formas de produção de imagem.

Ao se construir uma imagem que será fotografada deve-se pensar no seu poder de catarse e fazer da fotografia um roteiro de conquista do desejo mostrado num corpo integrado ao social através do evento imaginado. A fotografia de moda deve propor sempre o melhor caminho para a conquista do social, por que ela é socializadora e pedagógica, mesmo que indutora de consumo.
Reconhecer a primeira categoria é encontrar as intenções do fotógrafo, aprová-las, desaprová-las, mas sempre compreendê-las reconciliando-a com a sociedade, dotando-a das funções de informar, representar, surpreender e fazer significar, respondendo a um espectador que gosta de saber e, que sente a seu respeito um gosto amoroso pela compreensão.

A fotografia de moda deve pontuar estados de pertencimento social, uma vez que o corpo se veste primeiramente para ser aceito pelo grupo. O fotografo deve conhecer os sinais que caracterizam cada grupos e os que os diferenciam dos demais.

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O fotografo precisa conhecer a função da indumentária que será usada na produção da imagem para que possa simular cenários compatíveis com o desejo de ser e estar da leitora, para que ela possa sentir que é viável habitar aquele universo. Portanto, não se projeta uma imagem de moda direcionada às moças indies na praia, nem uma imagem de patricinha numa balada alternativa de rock progressivo ou heavy metal. As ambiências socializadouras das patricinhas são os shopping-centers e os bares onde se tocam e se dançam pagodes. Odeiam Hamones, gostam de canções e eventos isentos de compromissos políticos que protestem contra a ordem dominante. Suas canções devem remeter à possibilidade de realizações afetivas, onde todas encontrarão um provedor capaz de fazê-las perpetuar sua espécie.

Pensemos no que caracteriza a moda da garota surfista, ela se veste como se estivesse sempre na praia, pronta para caminhar na areia, para carregar os acessórios para a prancha do namorado; na sacola, leva sanduíches naturais para todo o dia, na mochila leva a parafina da prancha, o filtro solar e a toalha. Já a patricinha é a moça chic, herdeira da tradição, usa salto alto o dia todo, calça jeans sempre apertada para mostrar as curva e uma bolsa pequena de grande marca. Às vezes desce do salto e o troca por um tênis Nike, mas jamais desce do carro, andar a pé, para elas, é coisa de peão. A índie (independentes) é a moça roqueira, metaleira que porta um leve ar andrógino, usa roupa preta, saia de colegial sobre calças justas, blusinha college e tênis All Star de cano longo, os cabelos são tingidos de vermelhos ou pretos e cheios de ponta, gostam que as vejam com gênios do mal. Estão sempre palidamente maquiadas, porém gostam de apresentar sobre esta ordem meticulosa de vestir, um ar de desmazelo e desdém pelo mundo feminino.

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A fotografia de moda não é diferente das demais, é uma imagem construída para dialogar com as vivências e sonhos de que a recebe através de uma mídia impressa, e queremos aqui reforçar o quanto tais imagens atuam diretamente na memória afetiva destas leitoras.

Já Boris Kossoy (2003), contrário à apreciação estetizante de Barthes (1984), coloca que é na decifração da finalidade a que se destina a imagem que se encontrará um rico veio para a compreensão da estética fotográfica. Para ele, o que torna o mundo familiar diante de uma imagem fotográfica é a produção profissional e comercial, com os vários tipos de comissionamento entre o fotografo e seus contratantes. Ele estuda a evolução histórica do uso fotográfico e alerta para o fato de que muitas vezes se confunde a história do objeto com a da técnica fotográfica, outras vezes com a história dos fotógrafos, quando na realidade ela, abarca também a história de suas aplicações, ou seja, de seus usos.

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Aqui estamos investigando sobre seu uso pela mídia impressa e seu direcionamento de olhar para o universo da moda vestuário. Neste uso há uma pedagogia funcional que orienta para o consumo de produtos que geram uma construção de corpo intencionado de conquistas afetivas e socializadoras.
Os estudos teóricos insistem na necessidade de que a história desse meio não se limite à historia como suporte da informação. Não se pode desconhecer as condições de produção da imagem, o processo de construção da representação no contexto em que foi gerada e a história do próprio tema que deu origem à representação e a sua maneira de abordar formalmente a realidade.

No caso das fotografias de moda é o tema que induz à escolha dos diferentes tipos de construção de imagem. A abordagem pode optar por uma construção de maneira impressionista ou realista, que tanto pode ser representada em um contexto de referência histórica, futurista ou contemporânea, e ainda, com cenografia de estúdio fechado ou em espaços abertos ao ar livre. As escolhas decorrem da necessidade de tornar mais claro, os elementos do discurso que esta ou aquela mídia pretende estabelecer com seu receptor.

Os temas são definidos de acordo com as datas comerciais, as mudanças de estação e os eventos das mídias, como lançamento de algum filme, Cd ou algum show. São conhecidas e esperadas as revistas do dia dos namorados, do natal, final de ano e carnaval, também tem especial destaque a revista que documenta e comenta o Fashion Week, assim como é comum sair um exemplar cuja capa e matéria central comentam um show, um lançamento de Cd ou algum filme que trata do tema teen ou que apresente algum pop star que seja ídolo deste público.

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Por Queila Ferraz

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(Queila Ferraz Monteiro é estudiosa de História da Moda, é consultora de design e gestão industrial para confecção e Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção em cursos de moda e faculdades e também é professora de pós-graduação em Universidades como o Senac.)

queilamoda@yahoo.com.br

Publicação: 12 de setembro de 2007

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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