Fotografia de moda e seus editoriais – A imagem e o objeto do desejo

Fotografia de moda e seus editoriais   A imagem e o objeto do desejo

Foto: Cláudio Cammarota

“Cada sociedade tem seu regime de verdade,
sua“política geral” da verdade:
Isto é,
os tipos de discursos que ela aceita e faz funcionar como verdadeiros;
os mecanismos e instâncias que possibilitam distinguir entre afirmações verdadeiras
e falsas,
o meio pelo qual cada valor é sancionado…”
Michel Foucault em Rabinow 1984:73

a) Fotografia e Mídia – Imagem e o Objeto do Desejo

Os estudos contemporâneos sobre imagens fotográficas deparam inicialmente com a enorme dificuldade em definir o que é a fotografia, de estabelecer a que classe de objetos pertence e, de distinguir dentro da comunidade das imagens, uma tipologia que a classifique através de seus dispositivos técnicos, forma de representação e diversidade de uso.

Desde o seu surgimento, a fotografia tem sido entendida primeiramente, como testemunho da verdade que, através de fragmentos visuais da realidade informa sobre as múltiplas atividades do homem e da sua ação sobre a natureza, e por tanto, é passível de ser base de análise de qualquer uma das ciências humanas.

Fotografia de moda e seus editoriais   A imagem e o objeto do desejo

Imagem: Igor Alecsander

Por outro lado, sempre se prestou aos mais diferentes usos dirigidos, visto que as imagens fotográficas foram e são um poderoso instrumento de veiculação de idéias e, da conseqüente formação e manipulação da opinião pública, que se dá devido ao grande valor de credibilidade que nos impõe através de um fragmento selecionado da aparência das coisas, das pessoas e dos fatos, tal como foram congelados num dado momento de sua ocorrência.

A fotografia faz parte da civilização da imagem. Esta civilização começou a se delinear no momento em que a litografia, ao reproduzir em série as obras produzidas pelos artistas do princípio do Oitocentos inaugurou o fenômeno do consumo da imagem enquanto produto estético de interesse artístico e documental.

Aqui, recorremos a Vilém Flusser (2002) quando diz que as imagens são mediações entre o homem e o mundo e têm o propósito de representar o mundo, introduzindo e orientando a inserção do homem no universo e na lida com a natureza, e complementamos com o que nos fala Kossoy (2002) quando afirma que, quaisquer que sejam os conteúdos das imagens apresentadas nas fotografias, devemos considerá-las sempre como fontes históricas de abrangência multidisciplinar.

Porém, sua análise, que é diferente de sua apreciação, deve partir do princípio que a fotografia tem realidades próprias, a do documento, que apta e fixa um fragmento da realidade, e uma segunda, a construída, codificada em seus planos de montagem e em sua estética, que funciona como o elo material do tempo e do espaço representado, mas que não é pelo fato de ser representada, que deixa de ser um documento de seu tempo, e assim, reincindindo na função histórica documental desse objeto, que além de registrar fragmentos, serve como registro de maneiras de ver o mundo e uma fonte rica para o estudo da memória.

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Imagem: Vogue América sobre o estilista Paul Poiret

É sabido que toda fotografia é portadora de significados não explicitos e de omissões calculadas pelo seu autor. Toda e qualquer obra fotográfica só existe enquanto objeto de seu tempo e tem função estética e social plena a partir de sua decifração: a contextualização de sua informação na trama histórica com o desdobramento no tempo e no espaço em que o registro se deu.

Por tanto, cabe ao estudioso das imagens desmontar as construções materializadas em testemunhos fotográficos, decifrar sua realidade interior, sua trama, sua ficção e as realidades que documenta. Conhecer a finalidade para as quais foram produzidas é tarefa fundamental a ser empreendida.

Barthes (1984) nos fala da fotografia como sendo o objeto que sempre se encontra no gesto da designação, o gesto que aponta com o dedo e indica o que se deve ver: o seu referente, o punctum fotográfico. Para ele a fotografia pertence à classe dos objetos que se distinguem pela dualidade, daquilo que se pode conceber e, do que se pode perceber. Por tanto, a fotografia, como um objeto que se concebe, é sempre construída dentro de um sentido estético, para ser percebida de maneira a criar empatia com o olhar do espectador.

É neste espaço teórico que colocamos nossa intenção de estudo, decifrar a finalidade socializadora das fotografias de moda, que instruem sobre a fonte de referência para este ou aquele uso de uma maneira de vestir, remetendo à memória de vivencias e a desejos de vinculação afetiva com este ou aquele grupo e finalmente decifrar como orientam sobre marcas, ocasiões de uso, locais de compra e preço de produtos de moda.

Aqui, nos valemos das colocações teóricas de Roland Barthes (1979,1980,1984), Boris Kossoy (2001,2003), Vilém Flusser (2002) e Susan Sontag (2004) para estudarmos a fotografia de moda, que tipificada pelas funções de imagens de fotojornalismo de moda, fotografia publicitária pedagógica, fotografia publicitária de marca e fotografias de editorial de moda.

O fotojornalismo de moda pontua novos modos de vestir que definem estar dentro ou fora do modelo proposto pelo sistema de moda para cada estação e de acordo, com o que cada grupo social deseja manifestar como elegante para seus iguais.

Uma vez que jornalismo é o documentário e o comentário do fato social, na moda se trabalha com imagens que documentam o surgimento de novos padrões de elegância nas passarelas, nas mídias e nas ruas, portanto, este tipo de imagem é sempre um documentário acompanhado de um comentário conciso, costuma ser mais composição gráfica do que matéria de texto.

Fotografia de moda e seus editoriais   A imagem e o objeto do desejo

Imagem : Blog Moda Sem frescura

É por este motivo que a análise das fotografias de moda acaba por cair sempre em categorias que horas são técnicas, históricas ou ainda sociológicas por que sua ordem acaba por impor valor moral de certo e errado para o uso do corpo vestido no espaço social, onde outros corpos igualmente vestidos pontuam estados de pertencimento ou dissidência grupal.

Seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível, não é ela que se vê e sim o referente que se adere a ela, ou seja, o uso dessa nova elegância que surge nas passarelas dos desfiles de moda confirmada pelos ícones midiáticos das comunidades às quais se direcionam tais informações, informa ainda sobre o uso cotidiano daquela moda pelas pessoas comuns, mostrando seu rearranjo com peças e acessórios de estações passadas e finalmente, aponta o que deve ser descartado definitivamente daquele código de elegância.

O fotojornalismo de moda, ao definir o que está dentro e fora da moda, acaba por ser o primeiro termômetro da inserção social do indivíduo na cultura do seu grupo, onde estar de acordo com aquele padrão de elegância significa pertencer e estar fora dele é estar excluído.

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Imagem do Blog The Moon Propaganda.

Barthes (1979, 1984) fala que a fotografia reflete duas linguagens, uma expressiva, representada pelas características formais e outra crítica, condutora de sentidos, sendo que dentro da crítica existem vários discursos, os da sociologia, da semiologia e da psicanálise e lembra que (1984:14) o traço fundamental, o universal sem o qual não existiria a fotografia é a sua capacidade de ser uma imagem que provoca interesse e mobiliza o sentimento do espectador, se comunicando por intencionalidade afetiva. É preciso confirmar que a fotografia de moda em nada foge desta regra.

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Por Queila Ferraz
Queila Ferraz Monteiro é estudiosa de História da Moda, é consultora de design e gestão industrial para confecção e Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção dos cursos de moda da Faculdade Belas Artes, Senac Moda e Universidade Anhembi Morumbi.

queilamoda@yahoo.com.br

Publicação: 6 de agosto de 2007

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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