Moda: Instrumento de afirmação de uma identidade cidadã feminina – Parte 1/3

Moda: Instrumento de afirmação de uma identidade cidadã feminina   Parte 1/3

Imagem do site  Globo.com

As mulheres são beneficiárias dos avanços e conquistas da cidadania…fatos freqüentemente ignorados na narrativa histórica, como…a evolução das roupas, mostraram ser cruciais na melhoria da qualidade de vida das mulheres e importantes em suas lutas por valorização social, igualdade de oportunidades e reconhecimento de demandas específicas.” (BASSANEZI, p. 264)

Por Simone Cruz

Moda e Cidadania, palavras que estão em voga. “Donas” de conceitos paradoxais e complexos estão presentes em todas as sociedades, permeiam as mentes e os corpos dos indivíduos, expressam desejos ocultos, comunicam-se com o universo e geram atitudes que podem transformar o coletivo.

Afinal, o que é cidadania? Cidadania é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei. Ora, cidadania está intimamente conjugada ao “direito de ter direitos”. (PINSKY, Introdução)

T. H. Marshall, autor de um clássico na área das Ciências Sociais – Cidadania, classe social e status, distingue três dimensões básicas da cidadania:

Direitos Civis – pensando mediante a idéia de liberdade individual e igualdade.
“…São direitos civis todos aqueles que asseguram a vida, a liberdade, a igualdade e as manifestações de pensamentos e movimentos das pessoas que integram uma sociedade regida por leis” (MARSHALL, p.10)

2º Direitos Políticos – são constituídos, a partir da participação dos indivíduos na política de sua sociedade e na elaboração de leis que asseguram e expandem seus direitos.
“…são aqueles que dizem respeito à participação dos cidadãos no governo de sua sociedade… na feitura das leis que garantem e expandem seus direitos…” (MARSHALL, p.10)

3º Direitos Sociais – suscitados no século XX, para garantir condições de vida e trabalho aos cidadãos de uma sociedade e assegurar uma participação ainda que pequena, na riqueza e bem-estar coletivos – Educação, saúde e trabalho são fundamentais para a concretização dos direitos sociais.

“…, podem ser considerados um desdobramento dos próprios direitos civis, na medida em que garantem a vida, a liberdade e a dignidade moral dos cidadãos que pactuam politicamente” (MARSHALL, p.15)

Desse modo, não há como dissociar a cidadania da questão dos direitos. Dalmo Dallari explica que cidadania é a compilação de direitos que dá a possibilidade ao individuo de participação ativa no âmbito social e político. A ausência de cidadania torna o homem marginalizado ou excluído da vida social. (DALLARI, p. 14)

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Martha Rocha – Brasília – 1959 / (Fonte: Revista Veja)

Em nosso país há os que são mais cidadãos, os que são menos cidadãos e os que nem mesmo ainda são. Para ser cidadão, o indivíduo deve ser multidimensional, isto é, cada dimensão deve articular-se com as demais na busca de um sentido para a vida ou ao menos de uma melhoria social. A busca da cidadania está intrínseca a construção histórica de uma pessoa ou um de grupo, insatisfeitos com uma determinada situação em um determinado tempo. Desse modo, ela é suscitada a partir de uma necessidade do eu, como um desejo individual que se estende ao coletivo mediante trocas de experiências gerando uma conscientização particular e universal.

Em sua obra História da Cidadania, Jaime Pinsky apresenta tal questão como um conceito histórico, que varia no tempo e no espaço, não podendo ser concebido de forma determinista. Consequentemente, em sua visão, a cidadania esteve, está e estará se engendrando de acordo com o processo histórico mediante os anseios sociais.

“Cidadania não é uma definição estanque, mas um conceito histórico o que significa que seu sentido varia no tempo e no espaço.”(PINSKY, Introdução)”.

“…a moda está ligada às modificações que atingem a sociedade em vários aspectos.” A moda no século XX  (LIPOVETSKY p. 10)

“…, a moda é formação essencialmente sócio-histórica, circunscrita a um tipo de sociedade” (IDEM, p.02)

“Manifestação da vida sob todas as suas formas, maneira de ser e de se comportar, a moda constitui de fato um observatório privilegiado do ambiente político,econômico e cultural de uma época”. Suas raízes estão no contexto social de um grupo. (VEILLON, p. 07)

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A moda é um fenômeno que capta e segue em direção aos desejos ocultos de uma sociedade, caracterizando-se como um espelho da história. Dener, o grande costureiro brasileiro no início da década de 60, ano da Inauguração de Brasília (Fonte: Revista Veja)

A moda é um fenômeno que capta e segue em direção aos desejos ocultos de uma sociedade, caracterizando-se como um espelho da história em seu ambiente social, político, econômico e cultural. Desse modo, torna-se imprescindível conjugar a questão da cidadania com tal fenômeno, pois são dois conceitos que variam no tempo e no espaço, e que dependem da sociedade para serem construídos e consolidados.

No início do século XX, as lutas pela cidadania feminina foram envoltas por vários obstáculos, preconceito e desrespeito. As mulheres brasileiras não tinham direito ao voto, as operárias cumpriam jornadas de trabalho dobradas de até dezesseis horas e enfrentavam o contínuo assédio sexual dos patrões, as moças das classes média e alta, enfrentavam as barreiras do preconceito que se revestiam mediante o desejo dos pais que aspiravam um “bom” casamento para assegurar o futuro. Percebe-se que as dificuldades encaradas pelas mulheres para obterem sua participação plena na sociedade foram infinitamente grandes, independentes da classe social a que pertencessem.

Como se não bastasse, todas as mulheres que exerciam atividades fora do lar, de carregavam o estigma de desonestas e eram fadadas a conviverem com o obscuro discurso dominante da época – a mãe e a esposa respeitáveis deveriam restringir-se à esfera doméstica, além disso eram acusadas de estarem retirando o trabalho dos chefes de família. Ora, estavam sendo excluídas e conseqüentemente marginalizadas diante da sociedade – privadas dos seus direitos civis políticos e sociais. Portanto, não podendo exercer sua cidadania. (BASSANEZI, p. 284)

Contudo, não foi sem razão que o século XX  foi chamado de “século das mulheres”  período em que muitas de suas reivindicações foram atendidas. (BASSANEZI, p. 293). Evidentemente, a moda dessa época irrompeu intimamente às questões psicológicas mais subterrâneas dos anseios femininos, afirmando as conquistas das mulheres nas décadas do século XX. “Faça da roupa uma linguagem que reflete as mudanças que se passa na vida” Fernando Lisboa – Jornalista (o homem casual: a roupa do novo século) .

Moda: Instrumento de afirmação de uma identidade cidadã feminina   Parte 1/3

Com estilo e elegância, Gabrielle “Coco” Chanel revolucionou a década de 20, libertando a mulher dos trajes desconfortáveis e rígidos do final do século 19. Chanel foi precursora da mulher moderna.

Por Simone Cruz

Simone Cruz é historiadora e docente na área de moda (História da Arte / História da Moda e Produção de Moda) .
Desenvolve análises sobre a moda em diferentes âmbitos como: sociológico, histórico e literário.
E-mail: simonecruz10@hotmail.com

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Publicação: 3 de maio de 2010

AUTOR

Simone é graduada em História e cursou MBA em Produção de Moda. É docente na área de história da moda e consultora em produção de moda, imagem e estilo.

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