Movimentos de Juventude e Adolescência na Moda – Parte 1/3

Movimentos de Juventude e Adolescência na Moda   Parte 1/3

Leia também Adolescência e Rebeldia: Modas de Vanguarda – Parte 2/3.

Os estudos de antropologia, psicologia, sociologia, característicos das três últimas décadas do século XX, têm a juventude como tema corrente. Começa a se esboçar, também, a história do jovem, levantando seu lugar na história da civilização e os papéis que tem desempenhado ao longo da mesma. Tal interesse deriva da condição histórica que vivemos. Vimos nascer, na revolucionária década de 60, uma nova geração derivada do baby boom de pós-guerra. Uma sociedade em expansão, com um novo liberalismo familiar, permitiu aos filhos administrar seu próprio orçamento, trazendo para o mercado de consumo, jovens com gosto particular e poder aquisitivo próprio.

Moços e moças de 15 a 20 anos vivendo o fim da vida escolar e o início da vida profissional, dispunham de uma maior liberdade. Os novos meios de comunicação passaram a difundir pelos quatro cantos do mundo este movimento, criando uma geração ávida por consumir com rapidez e disposta a mudar de vida.

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Editorial da Emma Watson pra Teen Vogue via Fashionismo

Os anos 60 foram marcados pelas revoluções estudantis, partindo dos movimentos Beat, nos Estados Unidos e do pensamento existencialista, na França. No Brasil, os movimentos estudantis também tiveram seu papel e foram acompanhados pelas manifestações artísticas dos festivais de música transmitidos pela mídia. Os festivais de MPB e os programas da Jovem Guarda muito fizeram pela tomada de consciência cidadã do nosso jovem. Eles foram também os maiores divulgadores das modas de então. Sobre este tempo Ricard nos fala (1989:82):

Por meio desta mídia, os jovens passaram a se reconhecer num tipo de moda que expressava seus próprios desejos. E nesta mesma época surge uma nova estirpe de criadores, mais ou menos da mesma idade dos clientes, que exprime com talento a tomada de consciência de uma moda jovem de rua para rua, para pessoas de 15 a 20 anos, com outro código de elegância, onde a nobreza do material era invertida, substituída por todo tipo de imitação e discutindo novas funcionalidades, como no caso das jaquetas feitas de tecido de paraqueda como novo abrigo invernal, como tradicional substituto da lã, com materiais que desafiavam o critério do chique. Foi o primeiro passo para uma moda unissex, com um estilo esportivo e confortável que se chamou sportswear, com lojas com as quais os jovens se identificavam, e onde podiam encontrar várias opções num clima de total liberdade lúdica, vestidos de peles e couros artificiais e tingidos de cores inusitadas.

Para Barthes, naqueles anos de 1960, surgiu, na sociedade, algo tão novo e revolucionário que só a moda poderia dar conta de expressar, uma vez que, (2005:86) à juventude não importa mais ser vulgar ou distinta – ela deseja simplesmente ser.

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Anos 60: revolução da minissaia e da  moda jovem – A Modelo Twiggy foi referência dessa década.

Para Levi e Schmitt, autores de História dos Jovens (1996), dentre os princípios que servem de base para classificar as pessoas, a idade tem uma característica específica e evidente: é transitória, a juventude, de um modo particular, representa para cada indivíduo uma condição provisória, um tempo de espera, uma condição de passagem, em que os indivíduos não pertencem a grupos etários, apenas os atravessam.

Para estes autores (1996:14),

A juventude é uma construção social e cultural que se situa no interior das margens móveis entre a dependência infantil e a autonomia da idade adulta, de caráter transitório, caótico e desordenado, portanto, irredutível a uma definição estável e concreta e que por sua natureza carrega significados simbólicos de promessas e de ameaças.

Portanto, para que se possa fazer qualquer estudo que envolva o conceito de juventude, os fatos e as imagens que ela representa, é importante recorrer a modelos conceituais que podem entrelaçar as determinações biológicas de idade e sexo, com as construções simbólicas que tornam estes movimentos socialmente eficazes e historicamente significativos, interrogando, assim, sobre as formas de solidariedade e conflitos ou sobre a eficácia das representações simbólicas da juventude.

Como ápice da fase de socialização que precede a idade adulta, a juventude representa muitos aspectos típicos de momentos limítrofes. É uma sucessão de ritos de saída e de entrada, que dão a imagem de um processo de consolidação por etapas, garantindo uma progressiva definição dos papéis da idade adulta. Na juventude encontra-se ainda um conjunto de imagens fortes, de modo de pensar, de representação de si própria e também da sociedade como um todo.

Para Levy e Schmidt (1996:17, 22)

Estas imagens constituem um grande campo de batalha do simbólico onde a sociedade plasma uma imagem dos jovens, atribui-lhes papéis e caracteres, trata de impor-lhes regras e valores e constata com angústia os elementos de desagregação associados a esse período de mudança, os elementos de conflito e as resistências inseridos nos processos de integração social. (…) essas projeções simbólicas desempenham papel importante nas diversas políticas da juventude, na tentativa de exclusão ou, pelo contrário, na função de controle social que algumas sociedades concedem aos jovens justamente em função de sua posição limítrofe, que os transforma em juízes e controladores, intermediários entre os atores sociais.

É importante também interrogar a sociedade em que vivem para descobrir aquela exigência de autonomia ou aquele sentido de rebelião, que ajudam a construir a personalidade, que tanto pode estar em contraposição ao mundo dos adultos, quanto na reelaboração dos valores que vêm do contexto familiar e cultural em que o jovem vive, sendo que existe um contraste de épocas. A desigualdade entre as classes sociais, assim como a diferença de sexo, é relevante: a diferença cultural entre rapazes e moças, já acentuada na socialização infantil, é institucionalizada na juventude pelas formas educativas.

Os espaços de liberdade, as próprias atividades lúdicas preparam para destinos divergentes. Modelos ideológicos e formas de comportamento servem para fundar e fixar a diferença e a desigualdade dos papéis, na sociedade e na família.

Os estudos sobre a juventude esbarram também na ambigüidade do uso semântico do termo jovem e na sua representação afetiva, jurídica e civil. É sabido que na Idade Média, por menino, se podia reconhecer um jovem guerreiro e que, contemporaneamente, quando se fala de adolescente, faz-se referência à conotação afetiva atribuída pelos psicólogos, educadores e médicos ao tratar de um indivíduo jovem em crise, e não ao sistema jurídico que coloca limite à maioridade como cidadão votante, pronto para o serviço militar e o matrimônio.

Difícil de se limitar os conceitos, cada época tem seu próprio modelo. Hoje a publicidade exalta e explora como valores da juventude, beleza, energia e liberdade. Simultaneamente, na vida social concreta, os defensores das convenções ou da ordem temem o jovem, que em outras épocas fora exaltado como forte cavaleiro; como modelo de elegância e bravura para o ancião que via nele a fonte da eterna juventude.

Este foi o tema da literatura cortês. Na mesma época o clero se colocava em guarda contra uma idade que reputava como carente de discernimento, pregava que o mundo envelhecia e caminhava para o seu fim, dizendo que era preciso fugir do entusiasmo cego da juventude.

O estado moderno modificou, de maneira radical, o papel dos jovens: as bases territoriais se dilataram, fazendo deles um grupo social com solidariedades que extrapolaram a área da aldeia ou do bairro, e alterando, ao mesmo tempo, a imagem simbólica que o jovem tinha de si e a que a sociedade tinha deles.

Segundo Levy e Schmidth (1996), a ligação natural entre a juventude e a nação, afirmada pelo romantismo, a adesão dos jovens burgueses europeus, no séc. XIX, às idéias da revolução, as associações juvenis da Igreja Católica, das igrejas protestantes, mais tarde o enquadramento dos jovens nas organizações fascistas e nazistas e, em tempo mais próximos, as revoltas estudantis dentro das universidades americanas, até às barricadas de maio parisiense de 68, todos esses fenômenos testemunham a afirmação de uma nova percepção nacional, e depois internacional, da juventude, de seus problemas como crises de geração e de seus modelos extraídos de um universo de pop e rock stars e das novas formas de solidariedade, como as contemporâneas, em comunidades nomeadas de Tribos Urbanas.

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Imagem do blog Maurício-Chemical

Para se entender o jovem dentro do fenômeno contemporâneo das tribos urbanas, iniciamos pelo conceito grego de cidade como a expressão de uma vida social bem regulada, uma instituição ligada a uma situação particular de cultura, a um modo singular de viver em comunidade, cuja coluna vertebral era a Paidéia: a educação que permitia o acesso dos jovens a um saber partilhado, sem o qual a cidade não podia existir.

Para os gregos, a cidade dependia das instituições e das práticas, o que supunha existir um equilíbrio que gerava uma arte de viver, com uma estilização dos comportamentos. A Paideia* não buscava somente adaptar o cidadão à cidade. Devia contribuir para revelar qualidades humanas presentes em estado virtual, em todo futuro cidadão, qualidades que precisariam ser descobertas e desenvolvidas por meio de treinamento específico, com aptidões lógicas e morais, e que não se limitariam unicamente à aprendizagem de certo número de técnicas militares, pois, mais que militar virtuoso, o homem culto deveria ser um cidadão responsável.

* Segundo Werner Jaeger, era o “processo de educação em sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana” na Grécia antiga. ( Saiba mais na Wikipédia).

A Paidéia buscava estabelecer solidariedade entre os jovens, fortalecer as relações entre classes etárias, podendo eventualmente favorecer facções que destruíam outras, dentro da própria cidade. Considerava-se que, acima de tudo, a arte de viver na cidade formava o cidadão completo para saber comandar e obedecer segundo a justiça.

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Imagem do blog Clic RBS

Homero falava dos courois, guerreiros de sangue nobre, como filhos que se contrapunham aos gerontes, pais ou antigos. Para ele, os laços criados entre os jovens substituíam os laços de sangue, e já se atestava uma sociabilidade particular marcada pelo lúdico, na inserção do mundo feminino e nas aventuras com a lança e a caça.

Da compreensão de juventude proposta na antigüidade grega, que entendia por jovem o indivíduo em fase de preparação para assumir as funções de cidadão, passamos para o século XX, de cuja cultura a juventude é um dos esteios. Associada ao padrão de beleza e de produtividade como mão-de-obra, tem depreciado o conceito de velhice como valor positivo de indivíduo ancião, conselheiro e transmissor das tradições sociais e culturais relativas ao aprendizado do trabalho e às práticas do convívio comunitário.

Hoje, por jovem entende-se um indivíduo vigoroso, belo e saudável, sendo que a idade limite que todas as sociedades elegeram é por nós reconhecida, não mais pelo aspecto jurídico de futuro guerreiro, esposo e provedor, mas sim pelo seu componente psicológico de indivíduo em formação.

Adolescência é a idade típica contemporânea que, destituída de responsabilidades jurídicas, carrega as expectativas que a família projetam nela através da escola.

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Imagem do site Imagem Por Favor

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Por Queila Ferraz

Publicação: 12 de agosto de 2009

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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