Brasileiros pagam caro para se vestir mal

Brasileiros pagam caro para se vestir mal

+ Fotos de vitrines de New York  + Dicas de desenvolvimento de produto

Numa vinda recente a São Paulo, aproveitei para rever amigos, visitar o Bom Retiro, Brás e claro, ir aos shoppings centers da cidade.  Fui ao Shopping Vila Olímpia, Shopping Paulista e Iguatemi e também ao Shopping Light no Anhangabau. Nem precisava ir a tantos shoppings, minhas conclusões estavam confirmadas: o brasileiro paga caro para se vestir mal.

De cara notei uma mesmice em todas as lojas, uma profusão de peças sem recortes, sem modelagem diferenciada, sem mistura de materiais, sem novidades… Vi uma infinidade de blusas e vestidos feitos de algodão e viscolycra por preços que variavam de R$50,00 a R$200,00, mas nada justificava aquele preço.

Por que um vestido de viscolycra curto, com costuras laterais, costuras nas alças e uma aplicação simples de renda de algodão no decote deveria custar R$169,00? Onde estava o detalhe único daquela peça, um bordado manual, um aplique de misturas de rendas, uma mistura de tecidos simples com tecidos nobres? Nada…

Vi que existe medo por parte dos consumidores em comprar algo novo e medo por parte dos estilistas em propor algo novo. Onde esta a criatividade? Onde está a nossa brasilidade tão falada?

Mini saia de sarja branca na promoção por mais de 120,00 reais não é promoção, é preço de boutique, mas tem que ter botão com cristais e deve vir com um par de sandálias pra custar tudo isso.

Até a Forever21 que é uma loja fast-fashion em NY é mais atraente em preço, produto, qualidade, moda, apresentação, combinação de peças, diferenciação, e claro, modelagem.

As estilistas no Bom Retiro precisam parar de desenhar no papel e começar a experimentar os efeitos dos tecidos sobre o manequim, ver os caimentos que aquele tecido oferece, juntar viscolycra com seda, com chiffon, com ribanna canelada, com tricoline, enfim, é preciso inovar nos produtos. Camiseta precisa ter manga, mas as mangas podem ser de renda, de babados, de tricoline estampado, de sarja leve, de qualquer outro tecido.

Ao visitar uma grande loja de departamento no Shopping Light no Anhangabaú, não comprei nada, não me apaixonei por nada. Desculpe, mas tudo era muito caro e sem graça.  Uma calça de oxford preta, com zíper invisível custava entre R$ 59,00 e R$69,00. Porque essa calca custava tudo isso? Se ao menos o cós fosse de cetim, se ao menos a calça tivesse um detalhe na lateral, mas não tinha nada. Um tecido barato, leve, simples, em um modelo hiper básico vendido por esse preço?

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Foto da loja Anthropologie

Recomendo que ao fazerem suas viagens para pesquisas de moda, os estilistas e confeccionistas parem de tirar fotos, ou que tirem fotos, mas toquem as peças  para sentir os tecidos, examinem o avesso para olhar as construções por dentro, analisem as misturas de materiais, os pontos de costuras empregados e, acima de tudo, observem o caimento dos modelos, os recortes inusitados, as ousadias das construções.

Para vender caro é preciso ao menos oferecer um produto diferenciado; para ser top e fazer sucesso é preciso ser diferente. O que mais vi foram blusas lisas sem nenhum aplique, nenhum bordado, nenhuma inserção manual. Faltava uma ousadia na cor, um tingimento especial, uma brincadeira com flores, um laço, um broche de tecidos…

Pensem na quantidade de tecidos e sobras que são desperdiçadas todos os dias no Brás e no Bom Retiro. Por que as confecções não formam uma cooperativa com mulheres e doam a elas as sobras? Em troca, preparem-se para uma profusão de criatividade em lacinhos, broches, flores e apliques feitos com estas sobras, e que serão usados para valorizar as peças, em vez de serem jogados fora e emtumpirem os bueiros. Eu mesmo adoraria coordenar um projeto como esse, é meu sonho transformar os retalhos em novos produtos.

Façam uso dos materiais que temos em abundância, como fitas, linhas, rendas, bordados, patchs, zíperes, pedras, correntes, fibras… Façam as suas peças serem desejadas. Uma dica é visitar a loja www.anthropologie.com. Além de ser minha loja favorita em NY, essa loja sintetiza tudo que estou falando aqui, as peças são diferentes, lindas, suaves, delicadas, trabalhadas, dá vontade de comprar a loja toda.

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Foto da loja Anthropologie

Claro que cada lojista tem um perfil de cliente em foco, mas todo cliente gosta de coisas bonitas, diferenciadas, únicas. Camiseta lisa ou com silk na frente pode ser encontrada em qualquer lugar, inclusive na banca do camelô…

O que a sua loja oferece que só você tem? Entre as poucas lojas que se diferenciaram nessa minha pesquisa estão a Planet Girl e a Colcci, pois trouxeram um pouco de ousadia, mas ainda falta criatividade nas modelagens, falta experimentar mais com os tecidos que temos para justificar os preços.

Veja nas fotos abaixo exemplos de modelos simples e diferenciados que fotografei em New York para demonstrar minha crítica aos modelos que vi em São Paulo.

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Camisão de chambray azul claro, sobre vestido estampado de algodão, note o zíper frontal e o franzido no busto.

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Mini saia de algodão com estampa de rosas. Estampas com rosas estão por toda parte e em todas as lojas, com tamanhos, cores e formatos diferentes. Perceba que essa mini saia, não é apenas uma mini saia, ela tem pregas e volumes delicados, usada com uma camisa de tricoline bem fina na cor azul claro.

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Vestido vermelho na vitrine da Diesel, simples, mas notem os recortes e as pences em linha branca contrastando. O básico ficou diferenciado, essa idéia de recorte poderia ser aplicada sobre qualquer tecido com costura em contraste ou não. Esse vestido tem apelo de venda e valor agregado, a mesma peça sem os recortes não tem valor nenhum.

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Bata azul (esse tom está em todas as lojas de Nova Iorque ). Perceba o valor agregado dessa peça: manga com acabamento de fita de cetim, fita de cetim no mesmo tom aplicado sobre a costura do decote, franzido generoso na frente, volume em proporção ideal, pontas delicadas. Essa peça pode ser usada em diversas ocasiões, desde uma saída de praia em um resort, até uma festa ou simplesmente para ir ao trabalho no calor diário de São Paulo. Notem o colar, a calca branca, e por último a blusa regata por baixo. Tudo simples, lindo, de boa qualidade desde os materiais escolhidos até a combinação final.

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Blusa de cotton com busto aplicado internamente, dando volume a quem tem busto pequeno, decote em chiffon transparente e aplique de colchetes externos. Mistura de materiais, ousadia, novidade em uma peça simples, mas diferenciada.

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Blusa amarela lisa, porém com diversos recortes, poderia ser na malha ou no tecido plano, uma das faixas poderia ser feita em tecido mais leve ou mais pesado ou em um tecido com textura diferente, os recortes poderiam ser rebordados de canutilhos, lantejoula ou apenas ter aqui e ali um aplique de micangas no mesmo tom da peça. Veja o modelo vermelho com pregas, franzidos e recortes. Esses dois modelos da foto nao levam custo de estampa nem de bordado, mas dão ao cliente uma percepção de valor que uma peça lisa jamais daria.

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Esse modelo de tomara que caia é perfeito: mistura de tecidos, texturas, recortes e bordado com chatons  transparentes alçaram essa peça ao status de estrela da noite. Simples, bonito e com apelo de venda. Quanto custa para costurar um tomara que caia liso e quanto custa para costurar um com recortes? A diferenca de 3,00 a 5,00 reais a mais na mão-de-obra de costura e bordado, é a diferença que fará o cliente comprar sua peça e não a da loja ao lado. Também é a diferença que o trará de volta para comprar mais porque ele sabe que você oferece um produto diferenciado.

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Camiseta muito chique, os detalhes dessa peça são: ombreira delicada embutida na manga feita de cetim ton-sur-ton e ainda bordada com metais e canutilhos.

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E para finalizar, camiseta básica, mas não tão básica, notem o bolsinho frontal, o detalhe da manga com martingale (martingale ou aleta , detalhe geralmente usados em uniformes militares e jaquetas)  e por último a informação de moda da estação – pontas delicadas nas barras.

Pensem nas golas, elas podem ter pontas, ser redondas, largas, estreitas, vir com bordados de canutilhos, aplique de fita de cetim no mesmo tom, fita de gorgurão, pode vir com dois botões de pérolas, mini rosas feitas de sianinha, lacinho feito de fitas em viés do mesmo tecido, e pronto, sua camisa ou sua blusa ganhou um toque de originalidade, ganhou valor agregado.

Desperte o senso de criatividade em sua nova coleção!

Por Sueli Schmitt

Visitas guiadas a New York, New Jersey e Long Island – dicas valiosas para tornar sua viagem inesquecível!

Sueli Schmitt, correspondente do Fashion Bubbles em Nova York, está com a proposta de conduzir pessoas ou pequenos grupos para comprar e conhecer a cidade de Nova Iorque de uma maneira muito especial: com uma guia que mora lá, fala português e entende tudo de moda! Saiba mais em Visitas guiadas a New York, New Jersey e Long Island – dicas valiosas para tornar sua viagem inesquecível).

Publicação: 12 de fevereiro de 2010

AUTOR

Sueli é estilista formada em Negócios da Moda pela Universidade Anhembi-Morumbi. Trabalhou como Estilista e Gerente de Produto em diversas empresas em São Paulo desenvolvendo Private Label. Atualmente mora em NY e é estilista free-lancer e Consultora de Moda para confecções de Jeans em SP, colaboradora do Jornal Brazilian Sun e do Fashion Bubbles. Desenvolve a marca própria Sueli Schmitt comercializada em feiras de novos designers em NY. Contato: Sueli1100@hotmail.com

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