Artigos publicados na Tag ‘Estudos de Moda’

O Kitsch na moda contemporânea: relatos de uma pesquisa acadêmica

Publicado em 31 Mar 2009 at 5:07pm

Por Ângela Rodrigues

Como professora universitária e, sobretudo, como amante da reflexão, assumi no semestre passado desafios intelectuais bastante interessantes. Um deles foi orientar alguns trabalhos de final de curso de Moda que me permitiram acima de tudo reorientar minhas próprias idéias.

Através do universo da moda pude constatar mais de perto desafios instigantes no que diz respeito à decodificação da  semântica de uma idéia materializada em um objeto que possa ser inserido num contexto valorativo. Ou seja, atribuir um valor – bonito, feio, kitscht , vanguarda – a quaisquer produções estéticas constitui hoje tarefa difícil, senão impossível.  No caso específico da moda, isso se  deve não só à pluralidade de referências visuais a que estamos expostos como também a uma variedade de discursos subjacentes a produções totalmente independentes das tendências apontadas pelo mercado e das propostas das passarelas.

Talvez isso explique o quase predomínio de avaliações totalmente desprovidas de interpretações. O resultado é, como não poderia ser diferente, contaminado por subjetividades que, quando respaldadas, tendem a virar referências, parâmetros. Sempre foi assim. A grande vantagem é que hoje, não se convence muito facilmente nem mesmo os desprovidos de criticidade e autonomia. Penso que avaliar algo, a partir de interpretações fundamentadas nas mais diversas fontes, é crucial para que possamos fazer justiça aos criadores.  Contudo quanto mais se lê, se vê, se analisa quanto mais se elimina quaisquer ruídos que afetem nossa percepção do objeto mais nos damos conta da dificuldade de avaliá-lo objetivamente. Certamente em função dessa dificuldade, a compreensão da realidade em que criador e criatura estão inseridos, parece muito mais producente, especialmente para os designers de moda.  Independentemente de divergências valorativas a compreensão de uma produção simbólica que desvela algo de um momento, de uma época, de uma fase, de uma sociedade já o torna, a priori, interessante digna de ser apreciada.

No que concerne à moda em particular, penso que hoje tem sido muito recorrente nos grandes eventos nacionais e internacionais avaliações do que se vê nas passarelas desprovidas de dados que nos permitam refletir sobre sua pertinência. Mesmo assinadas por especialistas penso que afirmações que se limitam a avaliar algo como arrojado ou mero déjá vu, é pouco, muito pouco.

Foi motivada por essas e muitas outras inquietações, que aceitei orientar a pesquisa da produtora de moda Marcela Versiani interessada em analisar o kitscht na moda atual, acreditando que sob a minha orientação, conseguiria explicar o conceito e avaliar algumas produções objetivamente. Claro que não conseguiria fazer isso, ainda mais sob a minha orientação.

Continue

Ecletismo e Hibridismo entre MODA e DESIGN – Parte 1/3

Publicado em 16 Mar 2009 at 10:43pm

Leia também: Ecletismo e Hibridismo entre MODA e DESIGN – Transposição estética entre Moda e Design – Parte 2/3 e Ecletismo e Hibridismo entre MODA e DESIGN – Transposição funcional entre Moda e Design – Parte 3/3

Por Queila Ferraz e Kleber Monteiro

Existem diferentes formas de convergência entre objetos de moda vestuário e produtos de design onde os processos de criação de moda são contaminados pelos padrões do design de produto. É possível se estabelecer um contraponto, demonstrando que se trata de uma via de mão dupla: ambos influenciam-se mutuamente, porém aqui queremos mostrar a influência exercida pela moda e suas manifestações no campo do design.

Estes novos objetos não são simplesmente a soma de outros dois, mas sim uma terceira coisa, algo totalmente novo.

A hibridação, como nos esclarece Néstor Canclini, é um processo no qual “estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas.”

É neste contexto de contaminações, justaposições, transferências e fusões entre objetos pertencentes a universos distintos, que se incluem as criações híbridas, conhecidas anteriormente, como pertencentes ao universo estilístico do ecletismo.

Continue

Moda, consumo, comportamento e tecnologia: reflexão inaugural

Publicado em 02 Feb 2009 at 2:22pm

Por Ângela Rodrigues

Entendo o fenômeno moda hoje como um campo de interpretações que pode lançar luz, sobretudo sobre a relação do indivíduo com seu corpo, com os objetos, com o seu mundo, e porque não dizer com o espírito do tempo.

Ao pensarmos na relação do individuo com seu corpo salta aos olhos a importância que a moda desempenha na construção da subjetividade e na percepção que o indivíduo tem de sua corporeidade.  O conceito de corporeidade nos remete a um individuo desprovido da dualidade cartesiana. Denota, um ser que se percebe como um corpo e uma mente amalgamados, indissociáveis, um ser biológico, mas também cultural que se autoproduz material e culturalmente o tempo todo.  Nesse processo as produções simbólicas parecem ocupar um papel importante.

A moda participa ativamente tanto da existência fenomenológica quanto da psicológica do individuo, de forma tácita ou expressa ajuda o individuo a se comunicar. Apesar de ser coadjuvante do corpo, a moda de maneira geral e a roupa em particular,  parecem denunciar a lógica que impera na relação sujeito/corpo/psiquismo.  Nessa lógica, a relação de amor e ódio que o indivíduo contemporâneo mantém com sua corporeidade torna-se instigante. Ora se traduz na lapidação do corpo através de intervenções estéticas invasivas; ora na modificação corporal muitas vezes levada ao extremo pelos adeptos radicais da body modification.

Continue

O que há de especial na Moda? Considerações sobre o jornalismo especializado em moda

Publicado em 03 Dec 2008 at 1:48pm

A história do jornalismo conta que as revistas dedicadas ao público feminino nasceram “sob o signo da literatura”. Nos primeiros tempos de folhetins, quase todas eram gazetas literárias que prescreviam a moda, e entre a moda e literatura, duas faíscas para a fantasia, a imprensa feminina brasileira desfilava.

“Muitas vezes nascidos por causa da moda em vestuário, os veículos femininos impregnaram-se da febre do novo, que é fundamental no sistema da moda e que passou a contaminar todos os outros conteúdos publicitários a seu lado. A moda impulsiona a imprensa feminina e é por ela impulsionada”, diz Dulcília Buitoni no livreto referência Imprensa Feminina (Ática, 1986). Se a revista feminina do século passado priorizou a literatura, o tricô jornalístico de moda contemporâneo mescla o viés do jornalista, a literatura e todas as partículas sócio-culturais em torno do universo da moda.

Entretanto, a espécie “jornalismo de moda” é ainda considerada jovem, pois só recentemente foram criados prêmios, cursos de especialização e seminários de moda – apesar da maturidade na trajetória das bíblias Vogue, Harper’s Bazaar e Elle; é, ainda, recente a especialidade das revistas exclusivas de moda. Presentemente, a moda pode ser reportada em editorial, crônica, entrevista, matérias-perfis ou de desfiles, resenhas de livros e exposições, edições especiais, cadernos culturais. O texto de moda na imprensa contemporânea incorpora novas facetas, apesar de que, “convencionalmente, é um relato sobre roupas e acessórios, e que também mistura em suas páginas conteúdos e editorias com material publicitário. Raramente os textos de moda fazem jus à sua afiliação com ‘jornalismo’”, critica Buitoni.

Continue

Resignificando o consumo

Publicado em 02 Dec 2008 at 12:36pm

Nos últimos séculos, a sociedade moderna transformou pessoas em indivíduos, depois as colocou na condição de cidadãos e hoje, os diferenciam ou identificam como consumidores ou clientes. O ato de ter acesso ao mercado e ‘ir às compras’, de certa forma, se tornou mais democrático.

A pós-modernidade gerou uma sociedade de hiper consumo, gerou simulações, excessos e fragmentações, mas também gerou mesmices comerciais e modismos coletivos.

A comunicação publicitária insidiosa e sedutora tornava o ato individualizado da experiência de compra, em uma repetição do sempre igual. A moda cumpria seu papel de tornar uma coisa comum, e a condição comercial do industrialismo de escala gerava a ditadura do mesmo. Um rígido excesso de massificação.

Mas, na verdade, o que nos diferencia não é o ato livre da escolha. Ninguém pode garantir que um objeto ou roupa não seja reproduzido e copiado. A criatividade está na forma inovadora como usamos os produtos e os transformamos em objetos pessoais, únicos e originais.

Não precisamos fazer compras e escolhas para nos afirmarmos como diferença, temos que exercer nosso livre arbítrio e usar, refuncionalizar e resignificar os ambientes e momentos, objetos e coisas em nossas vidas. Continue

O surgimento das CYBER GIRLS – A realidade inorgânica ao seu alcance – Parte 1/3

Publicado em 24 Nov 2008 at 4:01pm

Webbie Tookay, da agência Elite, faz desfiles virtuais e se tornou garota-propaganda da Nokia

Leia também:  O surgimento das CYBER GIRLS – Onde tudo começou e a mulher real – Parte 2/4.

O surgimento das CYBER GIRLS e a História da Mulher Real – A liberação muda a imagem da mulher – Parte 3/4

Do Ciborgue ao Virtual / Parte 4-4

Por Goretti Pedroso

Palavras Chaves: mulher virtual, franksteinização feminina

Este trabalho tem o objetivo de falar sobre o surgimento das CYBER GIRLS, assim como dissertar sobre as novas teorias em relação  ao feminino, trazendo à tona a origem da virtualização da mulher nos meios de comunicação, pois não é de hoje que o mundo virtual tenta imitar o real com personagens que simulam um ser humano.

Prepare-se para esta realidade, pois uma dessas garotas pode ser sua!

Continue

O que é design de moda e a evolução da indústria da moda – Parte 4/4

Publicado em 18 Nov 2008 at 7:47pm

Máquina de fiar, que acelerou a fabricação de tecidos no início da Revolução Industrial – Imagem do site iG Educação.

A manufatura das roupas, nas sociedades industriais do século XIX, desenvolveu-se de duas maneiras diferentes. Havia uma procura de costureiras por encomenda, de costuras delicadas e sob medida, que só podiam ser feitas à mão, e ao mesmo tempo, começava a produção em massa do vestuário industrializado padronizado, tanto nos modelos como nas medidas.

O aparecimento das fábricas de roupas reforçou a divisão entre as empresas que usavam maquinário e recrutavam mão de obra semiqualificada, e os velhos artesãos. No comércio tradicional dos alfaiates, cada peça de roupa era feita separadamente por um só trabalhador; isto era conhecido como método da peça única.

Os alfaiates haviam estado entre os primeiros artesãos independentes e tinham estabelecido as suas corporações nas cidades medievais. Eram organizações de patrões, que trabalhavam normalmente com as suas famílias, um ou dois trabalhadores experientes, contratados por dia, e alguns aprendizes.

Continue

O que é design de moda? Moda e Design na História da Indumentária – Parte 3/4

Publicado em 28 Oct 2008 at 7:23pm

O crescimento urbano do século XIX trouxe o aumento da quantidade de indivíduos vivendo em um pequeno espaço, ocasionando transformações profundas entre eles.

O deslocamento para o trabalho em bondes, metrôs e ônibus gerou desafios em termos de organização e apresentação das informações: como sinalizar a geografia da cidade, com seus novos bairros e ruas; como ordenar a convivência e o fluxo de transeuntes para minimizar a insegurança provocada pelo confronto com estranhos e com diferenças culturais e de classes sociais?

Uma grande questão deste contexto foi como comunicar para um público anônimo os préstimos de um produto desconhecido, já que na cidade, com as economias das sobras dos salários, aumentava o número de pessoas capazes de consumir e, segundo Rafael Cardoso (2004)):

Entre as mercadorias cujo consumo mais se expandiu no século 19 estão os impressos de todas as espécies, pois a difusão da alfabetização propiciou nos centros urbanos um verdadeiro boom do público leitor. O anseio de ocupar os momentos de folga deu origem a outra invenção da era moderna: o conceito de lazer popular que desenvolveu-se cem estreita aliança com a abertura de uma infra estrutura cívica composta por museus, teatros, locais de exposição , parque e jardins.

Em todo o mundo ocidental, a segunda metade do século XIX foi um período de crescimento das elites urbanas e portanto, de ampliação das atividades culturais de toda espécie, incluindo a produção e veiculação de imagens que anunciavam novos produtos e ensinavam sobre seus usos culturais.

Continue

O que é design de moda? Origem e Evolução – Parte 2/4

Publicado em 24 Oct 2008 at 11:03am

ORIGEM E EVOLUÇÃO

Leia também O que é design de moda? Parte 1/4.

A origem da palavra design está no latim designare, verbo que abrange o sentido de designar e de desenhar e portanto, já contém na sua origem o aspecto abstrato de conceber/projetar/atribuir e o concreto de registrar/configurar/formar, tratando assim de uma atividade que gera projeto, esboços e modelos.

Historicamente o marco fundamental que caracteriza a função e a existência do design se deu com a passagem de um tipo de fabricação em que o mesmo indivíduo concebe e executa o artefato, para um outro tipo de processo em que existe uma separação entre projetar e fabricar. Tal separação inicialmente não deu importância se o processo fabril ocorria por meios manuais ou mecânicos e, tão pouco relevava a questão da padronização e reprodução em série.

Continue

Como é feito um Zíper? Parte 3/3

Publicado em 15 Oct 2008 at 4:50pm

Leia também ZÍPER – História, processo de fabricação e curiosidades – Parte 1/3 e Zíper: já tem cem anos e status de detalhe fashion – Parte 2/3.

Vamos mostrar o processo de fabricação desta peça tão importante no vestuário, revelando também as características do metal utilizado na produção.

O zíper de metal que conhecemos hoje é o sucessor do inventado por Withcomb Judson há mais de 100 anos. Durante esse período, o zíper foi sendo aperfeiçoado quanto a utilizacão das mais novas matérias-primas e exigências de qualidade, para atender as necessidades de um mercado sempre em busca de inovações como é o segmento de peças confeccionadas em jeans.

Para conhecer melhor o zíper metálico, devemos começar pela nomenclatura ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas – que nomeia as partes que o compõem, conforme mostra a figura abaixo:

Fonte: YKK

PROCESSO DE FABRICAÇÃO

Continue

O que é design de moda? Parte 1/4

Publicado em 06 Oct 2008 at 5:34pm

Leia também O que é design de moda? Origem e Evolução – Parte 2/4.

Está entre as principais missões dos cursos de Design de Moda compreender o conceito de desenho industrial, seus padrões de aparência, sua transposição para a indústria do vestuário e as relações manifestadas estilisticamente no séc XIX, XX e XXI, através do fenômeno da moda e de seus códigos de elegância.

É preciso demonstrar o peso deste setor produtivo dentro da história econômica e social destes novos tempos modernos e, se colocar como dignos e merecedores dos créditos que contribuíram para projetar e construir o indivíduo contemporâneo. Para tanto, acreditamos que se faz necessário compreender o conceito de Estilismo e sua transposição para as matrizes formais que estabeleceram o projeto de indústria de massa nestes séculos.

Continue

Podemos ser criativos?

Publicado em 29 Sep 2008 at 3:47pm

Tenho certeza que muitos de nós já pensamos que criatividade é um dom de grandes artistas, que criar algo novo está nas mãos de poucos felizardos, de pessoas especiais diferentes do ser humano comum. Porém, para minha surpresa descobri um livro, indicado na Pós da Santa Marcelina, chamado Criatividade e Processos de Criação de Fayga Ostrower, nele a autora diz que criar e viver se interligam, que criatividade é um potencial inerente ao ser humano.

Que ótimo! Então, somos todos criativos por natureza? !

O segredo, na minha interpretação das palavras de Fayga, está em estarmos atentos ao que acontece ao nosso redor e ao mesmo tempo nos conhecermos internamente. Segundo Fayga, os processos criativos são uma interligação dos dois níveis da existência humana: o nível individual e o nível cultural. É realmente muito interessante pararmos para pensar que a inspiração para a criação de algo novo está ao nosso redor, todos os dias em qualquer lugar e também dentro de nossos pensamentos e associações naturais de nossa mente.

Continue

Uma imersão das impressões da moda através da perspectiva dos teóricos e estudiosos da moda

Publicado em 23 Sep 2008 at 12:37pm

No século XIX, inicia-se a produção diversificada de discursos sobre a moda, em periódi­cos especializados franceses, colunas de jornais femininos fluminenses, obras literárias e também nos primeiros trabalhos de estudiosos sobre moda.

O filósofo inglês Hebert Spencer pôs em tela o caráter de mutabilidade da moda, em sua obra de 1883 Les manières et la mode. Para ele, a moda passaria por mutações por duas vertentes: a finalidade mimética e a distinção. Ao copiar o visual da alta classe, as demais classes tentariam se aproximar de seu status. Dando continuidade ao ciclo, a alta classe, uma vez imitada visualmente, criava novas modas para manter a distância social. Nesse viés, a moda hierarquiza a sociedade e reflete o status quo.

Les lois de l’imitation de 1890 é a obra em que o sociólogo francês Gabriel Tarde expôs sua teoria sobre a moda. Ele focalizou o laço social composto pela moda por duas ondas que se alternam no tempo: a moda e o costume. Para Tarde, a moda é uma fase transitória, posto que suas invenções renovem os ares da época. O costume, por sua vez, estabiliza a moda com as imitações e dá constância ao “gosto da época”.

Continue

A história da moda e sua relação com a sociedade

Publicado em 19 Sep 2008 at 8:56am

O prêt-à-porter é um marco para a compreensão histórico-sociológica da moda neste estudo. Mas retornemos ao início assinalado por Gilles Lipovetsky.

A partir do século XI, a economia agrícola e o comércio propiciaram o impulso das cidades. A miséria, as guerras e epidemias também intensificaram a composição urbana, porque concentraram fortunas e impulsionaram o enriquecimento de pequenos burgos. Posteriormente, o setor têxtil e o fluxo mercantil possibilitaram o intercâmbio de materiais diversificados: a seda do extremo Oriente, peles russas e escandinavas, algodão turco, sírio ou egípcio, plumas africanas. O câmbio de lãs de Flandres e da Inglaterra, linho da Alemanha, veludo da Itália também se fez com as feiras e o comércio marítimo. As matérias-primas seguiam às corporações de ofício especializadas, que cautelosamente costuravam as vestes sob medida para a clientela. O produto final deste percurso ia ao encontro do ideal de fineza e distinção da aristocracia.

Continue

O corpo na moda: a perspectiva teórica da relação entre moda e corporeidade

Publicado em 02 Sep 2008 at 3:34pm

Ilustração de Laura Laine

A última moda é esperada e bem vinda com o entusiasmo de calendários especializados e a catálise proporcionada pelas novas tecnologias. Enquanto um sistema, a moda e suas mudanças orquestram os ditames estéticos do que é belo, apartando o que deveria ser esquecido no armário. Assim, a última moda desfila sempre diante de nossos olhos. Os atos de se vestir e se adornar, sobretudo ao estar na rua, denotam o desejo de se pôr uma etiqueta social no corpo, um sinal contra o anonimato e de declarar que se “é alguém”. Esse “mascarar” do corpo revela que o vestuário adquire, além do valor prático e higiênico, um valor estético, agregando valores que transcendem os do mero prazer, de mero luxo.

E se é nos domínios da moda que se situa mais nitidamente a linha de partilha entre as pessoas sensatas – ou “in” – e as desviantes das sociedades – demodés ou simplesmente “out” – da época, é porque a moda não é um disfarce, mas uma etiqueta distintiva da identidade. Nesta lógica, a moda testemunha o poder do ser humano para mudar e inventar os mil modos de exibir sua personalidade e seu corpo.

Um corpo exposto passa a requerer estudo partindo da idéia de corporeidade do sociólogo francês Michel Maffesoli, de acordo com a qual os corpos são social e culturalmente construídos para serem vistos por outrem – na publicidade, na moda, na mídia e todas as esferas da sociedade – isto é, o corpo é “teatralizado” para ser exibido em espetáculo, engendrando comunicação. Nesse mise en scène, é o padrão identitário valorizado que vai permitir ao indivíduo um optimum de status social.

Continue

Moda.É sério?

Publicado em 27 Aug 2008 at 6:13pm

Björk

A moda é onipresente no mundo contemporâneo. Essa é a idéia-mestra que guia este artigo. O fenômeno da moda extrapola as luzes do universo fashion, alastra-se às ruas, aos happenings cotidianos e à arena acadêmica, mas é na esfera da mídia que suas dimensões se dilatam até corpos pavoneados, espetáculos imagéticos e discursos poderosos.Tal como postula o sociólogo francês Michel Maffesoli: “A moda pode ser um bom ponto de partida para a análise. De início, porque ela está onipresente. Não há nenhum domínio que a escape: do mais frívolo àquele tido como o mais sério, encontra-se a necessidade de se identificar. Moda vestimentária, é claro, mas também modas culinárias, lingüísticas, musicais, esportivas. Mesmo as idéias que não escapam de sua influência. Tanto no mundo acadêmico, produtos dessas idéias, quanto no meio jornalístico que as difunde, é de bom tom, em tal momento particular, pensar de um modo “conforme” o ar do tempo”.

Ora, o que mais marcaria o ar de nosso tempo senão a atmosfera espetacular que tende a nos cercar? Na contemporaneidade, a mídia está em posição privilegiada para propagar tais espetáculos, por sua alta qualidade técnica e suas estratégias mercadológicas. Nesse horizonte, a mídia pode articular representações das passarelas, transpondo-as a belas páginas impressas. Esta série pretende pôr em relevo as construções discursivas da mídia impressa acerca dos desfiles da São Paulo Fashion Week realizada de 13 a 19 de junho de 2007.

O filósofo Gilles Lipovetsky já dizia que “a questão da moda não faz furor no mundo intelectual”. Uns a acusariam de “frívola”, “superficial” e “fútil”. Ora, “nesse desejo de vida total que se expressa paradoxalmente por essas formas tênues e superficiais que são as aparências, uma voz tenta sussurrar uma verdade surpreendente: nada é mais fútil do que nossos esforços para tornar tudo sério, útil, racional; nada é mais sério do que o fútil”. Diante de tais acusações, o álibi da moda é justamente sua análise crítica.

Continue

O que é a História da Moda – Aparências Subversivas / Parte 2-2

Publicado em 27 Jun 2008 at 12:36pm

Aqui, proponho uma breve reflexão sobre o mercado de moda de vanguarda, como propulsor do fenômeno da moda e gerador de um grande número de pequenos negócios que movimentam o setor do streetwear e seus estilos subversivos de moda.

Leia também: O que é a História da Moda – Parte 1/2.

I – APARÊNCIAS SUBVERSIVAS

Estudar a Moda está na moda. Vivemos um período da história da humanidade que exalta a sociedade de consumo, a cultura do desperdício e a contínua rotação de produto, o que da origem à corrida para evidenciar indivíduos singulares e as comunidades que os constituem, ou seja, ser diferente junto com seus iguais.

Para Dorfles, num período histórico no qual privilégios de casta, de condição e de classe pareciam se atenuar, surge a necessidade de distinção entre os vários segmentos que compõem a sociedade e os indivíduos que dela participam. Para ele é espantoso que (1989): enquanto assistimos a consolidação de conquistas derivadas das contestações juvenis, cujo objetivo é eliminar e infringir privilégios e tabus burgueses, verificamos que estas novas formas de revolta são levadas a se deixar dominar pela moda,… isto porque a cultura dos objetos se edifica sobre este fenômeno e este, por sua vez, é parte da cultura das aparências.

Tal fato tem sido visível em hábitos, costumes e particularmente no vestuário como forma de virtualidade revolucionária. Esta expressão é usada por Bruno du Rosselle (1980) para definir a maior qualidade da moda como fenômeno, ou seja, o gosto pelo novo como atitude revolucionária, sendo, portanto, possível de ser entendida como uma linguagem de vanguarda.

Continue

O Movimento Hippie e a Influência do LSD (Parte 2/4)

Publicado em 20 May 2008 at 2:32pm

Leia também Tribos Urbanas – O Movimento Hippie (Parte 1/4)

Wilhelm Reich, psiquiatra austríaco, que havia sido perseguido por Hitler, foi expulso do partido comunista, preso na década de 50 pelo macartismo, vindo a morrer na prisão em 57 com parte de seus escritos queimados.

Reich foi considerado maldito e proscrito dos círculos oficiais, criou a sexpol, fincada na idéia de que há uma necessária ligação entre a saúde psíquica, a vida sexual e a consciência de classe. Não acreditava na possibilidade de saúde e liberdade num quadro sufocante como o do capitalismo das sociedades industriais de consumo. Pregava que sexo é corpo e mente. Como para o psiquiatra, o capitalismo escraviza o corpo e condiciona a mente, acaba sendo um entrave para a saúde psíquica plena. A revolução seria necessária para uma profilaxia eficaz das neuroses.

Continue

Tribos Urbanas – O Movimento Hippie (Parte 1/4)

Publicado em 13 May 2008 at 8:28am

Leia também: O Movimento Hippie e a Influência do LSD (Parte 2/4).

Movimento de juventude que nasceu na Califórnia, na América do Norte em 1966. Hip significa zombar e melancolia. Pacifista, pregava a filosofia do amor (filosofo significa amigo do saber). Jovens estudantes reuniram-se para expor ao ridículo a guerra do Vietnã. Foi um ato de zombaria que revelou o desencantamento de uma juventude sem ideal.

O traje desse movimento era composto de calças de jeans, pantalonas com boca de sino, e no lugar de camisas e blusas, ambos os sexos usavam batas indianas, como apego a culturas distantes deste mundo massificado e corrompido pela guerra e pela sociedade de consumo. A estética hippie é também conhecida como a estética da flor e do amor.

Continue

Tribos Urbanas Americanas: Beatniks – Existencialistas / Parte 2

Publicado em 08 Apr 2008 at 5:56pm

Versão romântica do século XX, beats e existencialistas foram a primeira cultura jovem a mostrar no seu vestuário o luto por um estado de guerra em que não viam sentido e do qual não queriam participar.

Surgiu na América do Norte, dentro das comunidades estudantis da costa oeste durante os anos 50. Nasceu da tenção existente dentro do próprio tecido social, do protesto contra a opulência de uma sociedade que saíra da Segunda Guerra bombardeando Hiroshima e se preparava para investir contra a Coréia. Protestava contra condições da própria civilização americana, contra o “American Way of Life”.

Beat significa beato e denominava uma geração que se tornava jovem no pós-guerra. Largamente perturbada, protestava contra o progresso tecnológico que produzia bombas atômicas, propondo uma renovação cultural que se manifestou através do catolicismo de Thomas Merton e de um culto marcado pelo esoterismo e pela influência da religiões orientais.

Continue

Anúncio

Mais Artigos

News Archive

July 2009
Mon Tue Wed Thu Fri Sat Sun
« Jun    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Veja as estatísticas