Olhar o mundo a partir da moda, uma das propostas do Fashion Bubbles, nos faz perceber as nuances da comunicação de toda a cadeia produtiva da moda e a dinâmica da nossa vida do ponto de vista sócio, político, econômico e cultural.
Não há dúvidas de que a crise financeira internacional influenciou todos os setores da moda, desde os produtores agrícolas que enfrentaram grandes dificuldades para financiar suas produções, até os comerciantes profundamente afetados pela redução abrupta no consumo. As marcas internacionais de luxo também foram afetadas pela flutuação cambial e políticas fiscais de altos impostos e proteção de mercado, dando espaço para que as marcas nacionais pudessem mostrar que são uma alternativa.
O mercado brasileiro, embora muito afetado pelos efeitos da crise, se mostrou resiliente e bem estabelecido. O mesmo não podemos dizer do mercado Argentino, onde a mudança do perfil dos turistas e consumidores locais motivaram grandes marcas a abandonar o país e outras a fecharem suas portas por não ser mais sustentável. Emporio Armani, após oito anos de presença na Argentina, decidiu abandonar o mercado e a Zara declara não ser mais efetivo os custos de importação de roupas do Uruguay, enfrentando sérios problemas em consequencia das políticas governamentais.
A SPFW – São Paulo Fashion Week – este ano teve investimento recorde de USD 10 milhões e abriu suas atividades na quarta-feira dia 17 como se a crise financeira internacional não existisse ou tivesse chegado ao seu final. Seus principais patrocinadores (Natura, Tam, Melissa, Havaianas, etc.) ajudaram muito para que o evento em São Paulo – maior centro de negócios e vanguarda da América Latina – despistassem a crise. Entretanto, nas passarelas, os estilistas traduziram como estamos vivendo e percebendo o mundo atual, com muita criatividade.
O mundo estava relaxado, colorido e o dinheiro circulava em grandes volumes e em altíssima velocidade. Na moda não era diferente – tudo podia do ponto de vista estético e de investimento: babados, listras, xadrez, bolas, sobreposição, cores variadas do preto/branco aos cítricos, muitos tecidos soltos relaxados e esvoaçantes representando a leveza de se ter dinheiro, glamour e estilo. Japonismo, anos 20, 30, 50 (new-look), 60 e anos 80. As passarelas não apresentavam desfiles, mas shows de toda a natureza e personalidades se passando por modelos.
Nos últimos desfiles, percebemos que as cinturas foram apertadas e o caimento está mais comportado. As cores sóbrias revelam o humor pós-crise e o toque de alfaiataria (paletós masculinos) em cores de “comodity” (sacos de café) apresentados por Reinaldo Lourenço e Cori e o linho artesanal e coletes sobrepostos por Maria Bonita, demonstram que é preciso voltar ao trabalho e recuperar toda uma trajetória que a moda brasileira percorreu para atingir a maioridade.
Não basta cobri o corpo e protegê-lo das intempéries do mundo, a proposta da moda é comunicação, status, tendência, criatividade e capacidade de gerar negócios e gerar trabalhos para muita gente que também tem o compromisso de fazer a economia girar.
Não basta olhar a partir da moda, é preciso apreender esta linguagem cultural e assim entender não só o momento, mas estar com o olhar atento para frente e assim poder se preparar para um futuro que pode ser recriado, mas grande parte dele já está descrito pelos visionários que contribuem muito, mas também impõem suas impressões no que comer, beber, vestir e até em como viver.
Por Carlos Alberto Silva
Desde que os homens deixaram os frufrus, perucas e outros apetrechos fashion a partir da Revolução Industrial, estabelecendo o uso do terno como o conhecemos, uma das variações permitidas na moda masculina tem sido o tamanho e a abertura da lapela (gola) do paletó: no início do século XX ficou bem pequena, como está hoje, depois foi abrindo até alcançar a proporção que aparece na foto da década de 40 e assim vem oscilando.
Quando, nas décadas do final do século XX, já acostumados às golas grandes, muito abertas, tivemos que conviver com o retorno ao tamanho reduzido, como achamos feio! Agora, já estranhamos quando vemos as golas amplas, pois o nosso cérebro se acostuma a um padrão e faz de tudo para evitar sua modificação.
Anos 40
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Por Ângela Rodrigues
Entendo o fenômeno moda hoje como um campo de interpretações que pode lançar luz, sobretudo sobre a relação do indivíduo com seu corpo, com os objetos, com o seu mundo, e porque não dizer com o espírito do tempo.
Ao pensarmos na relação do individuo com seu corpo salta aos olhos a importância que a moda desempenha na construção da subjetividade e na percepção que o indivíduo tem de sua corporeidade. O conceito de corporeidade nos remete a um individuo desprovido da dualidade cartesiana. Denota, um ser que se percebe como um corpo e uma mente amalgamados, indissociáveis, um ser biológico, mas também cultural que se autoproduz material e culturalmente o tempo todo. Nesse processo as produções simbólicas parecem ocupar um papel importante.
A moda participa ativamente tanto da existência fenomenológica quanto da psicológica do individuo, de forma tácita ou expressa ajuda o individuo a se comunicar. Apesar de ser coadjuvante do corpo, a moda de maneira geral e a roupa em particular, parecem denunciar a lógica que impera na relação sujeito/corpo/psiquismo. Nessa lógica, a relação de amor e ódio que o indivíduo contemporâneo mantém com sua corporeidade torna-se instigante. Ora se traduz na lapidação do corpo através de intervenções estéticas invasivas; ora na modificação corporal muitas vezes levada ao extremo pelos adeptos radicais da body modification.
A história do jornalismo conta que as revistas dedicadas ao público feminino nasceram “sob o signo da literatura”. Nos primeiros tempos de folhetins, quase todas eram gazetas literárias que prescreviam a moda, e entre a moda e literatura, duas faíscas para a fantasia, a imprensa feminina brasileira desfilava.
“Muitas vezes nascidos por causa da moda em vestuário, os veículos femininos impregnaram-se da febre do novo, que é fundamental no sistema da moda e que passou a contaminar todos os outros conteúdos publicitários a seu lado. A moda impulsiona a imprensa feminina e é por ela impulsionada”, diz Dulcília Buitoni no livreto referência Imprensa Feminina (Ática, 1986). Se a revista feminina do século passado priorizou a literatura, o tricô jornalístico de moda contemporâneo mescla o viés do jornalista, a literatura e todas as partículas sócio-culturais em torno do universo da moda.
Entretanto, a espécie “jornalismo de moda” é ainda considerada jovem, pois só recentemente foram criados prêmios, cursos de especialização e seminários de moda – apesar da maturidade na trajetória das bíblias Vogue, Harper’s Bazaar e Elle; é, ainda, recente a especialidade das revistas exclusivas de moda. Presentemente, a moda pode ser reportada em editorial, crônica, entrevista, matérias-perfis ou de desfiles, resenhas de livros e exposições, edições especiais, cadernos culturais. O texto de moda na imprensa contemporânea incorpora novas facetas, apesar de que, “convencionalmente, é um relato sobre roupas e acessórios, e que também mistura em suas páginas conteúdos e editorias com material publicitário. Raramente os textos de moda fazem jus à sua afiliação com ‘jornalismo’”, critica Buitoni.
No século XIX, inicia-se a produção diversificada de discursos sobre a moda, em periódicos especializados franceses, colunas de jornais femininos fluminenses, obras literárias e também nos primeiros trabalhos de estudiosos sobre moda.
O filósofo inglês Hebert Spencer pôs em tela o caráter de mutabilidade da moda, em sua obra de 1883 Les manières et la mode. Para ele, a moda passaria por mutações por duas vertentes: a finalidade mimética e a distinção. Ao copiar o visual da alta classe, as demais classes tentariam se aproximar de seu status. Dando continuidade ao ciclo, a alta classe, uma vez imitada visualmente, criava novas modas para manter a distância social. Nesse viés, a moda hierarquiza a sociedade e reflete o status quo.
Les lois de l’imitation de 1890 é a obra em que o sociólogo francês Gabriel Tarde expôs sua teoria sobre a moda. Ele focalizou o laço social composto pela moda por duas ondas que se alternam no tempo: a moda e o costume. Para Tarde, a moda é uma fase transitória, posto que suas invenções renovem os ares da época. O costume, por sua vez, estabiliza a moda com as imitações e dá constância ao “gosto da época”.
O prêt-à-porter é um marco para a compreensão histórico-sociológica da moda neste estudo. Mas retornemos ao início assinalado por Gilles Lipovetsky.
A partir do século XI, a economia agrícola e o comércio propiciaram o impulso das cidades. A miséria, as guerras e epidemias também intensificaram a composição urbana, porque concentraram fortunas e impulsionaram o enriquecimento de pequenos burgos. Posteriormente, o setor têxtil e o fluxo mercantil possibilitaram o intercâmbio de materiais diversificados: a seda do extremo Oriente, peles russas e escandinavas, algodão turco, sírio ou egípcio, plumas africanas. O câmbio de lãs de Flandres e da Inglaterra, linho da Alemanha, veludo da Itália também se fez com as feiras e o comércio marítimo. As matérias-primas seguiam às corporações de ofício especializadas, que cautelosamente costuravam as vestes sob medida para a clientela. O produto final deste percurso ia ao encontro do ideal de fineza e distinção da aristocracia.
Campanha Burberry
Diante de um mundo cheio de desejos, anseios e impulsos, estabelecemos durante a vida certos padrões inerentes a qualquer pessoa, como os de consumo, de cognição de referências familiares, de amizades, de inimizades, pré-conceitos raciais, sexuais, políticos, assim como assimilamos conceitos universais pré-definidos, como por exemplo, virtudes humanísticas de amor, paz, geralmente relacionadas com as religiões.
Ora, o ser humano é um livro em branco que durante a vida toda se auto-escreve, em alguns momentos, capítulos maravilhosos; em outros, histórias macabras e tenebrosas. Infelizmente, alguns “livros” não possuem finais felizes.
E o que é o mundo se não a exteriorização das idéias humanas? Todas as coisas que existem são criações do intelecto humano, ora racional, ora emotivo. Se partirmos desse pressuposto, de que tudo que existe vem da criação humana, então o ser humano também é uma criatura de querer para si essas ‘idéias’. Ele é um ‘posseiro’ do imaginário coletivo. E isso se repete sempre, geração após geração, como uma ação de “copycat”.
Björk
A moda é onipresente no mundo contemporâneo. Essa é a idéia-mestra que guia este artigo. O fenômeno da moda extrapola as luzes do universo fashion, alastra-se às ruas, aos happenings cotidianos e à arena acadêmica, mas é na esfera da mídia que suas dimensões se dilatam até corpos pavoneados, espetáculos imagéticos e discursos poderosos.Tal como postula o sociólogo francês Michel Maffesoli: “A moda pode ser um bom ponto de partida para a análise. De início, porque ela está onipresente. Não há nenhum domínio que a escape: do mais frívolo àquele tido como o mais sério, encontra-se a necessidade de se identificar. Moda vestimentária, é claro, mas também modas culinárias, lingüísticas, musicais, esportivas. Mesmo as idéias que não escapam de sua influência. Tanto no mundo acadêmico, produtos dessas idéias, quanto no meio jornalístico que as difunde, é de bom tom, em tal momento particular, pensar de um modo “conforme” o ar do tempo”.
Ora, o que mais marcaria o ar de nosso tempo senão a atmosfera espetacular que tende a nos cercar? Na contemporaneidade, a mídia está em posição privilegiada para propagar tais espetáculos, por sua alta qualidade técnica e suas estratégias mercadológicas. Nesse horizonte, a mídia pode articular representações das passarelas, transpondo-as a belas páginas impressas. Esta série pretende pôr em relevo as construções discursivas da mídia impressa acerca dos desfiles da São Paulo Fashion Week realizada de 13 a 19 de junho de 2007.
O filósofo Gilles Lipovetsky já dizia que “a questão da moda não faz furor no mundo intelectual”. Uns a acusariam de “frívola”, “superficial” e “fútil”. Ora, “nesse desejo de vida total que se expressa paradoxalmente por essas formas tênues e superficiais que são as aparências, uma voz tenta sussurrar uma verdade surpreendente: nada é mais fútil do que nossos esforços para tornar tudo sério, útil, racional; nada é mais sério do que o fútil”. Diante de tais acusações, o álibi da moda é justamente sua análise crítica.
A comunicação através da moda vai além da criatividade, produção e comércio. O palco da moda tem sido cada vez mais usado como expressão social, política, econômica, cultural e ambiental. Bem como as manifestações culturais que são das mais diversas, podendo chegar ao confronto e violência, como presenciamos nas conquistas de territórios ou lutas por direitos humanos.
Entretanto, manifestações que parecem mais leves e sutis podem afetar as pessoas na sua subjetividade das mais diversas maneiras e também são carregadas de símbolos. A semiótica estuda os modos como o homem dá significado ao que o rodeia e a definição da Wikipédia pode nos esclarecer ainda mais: “A Semiótica (do grego semeiotiké ou “a arte dos sinais”) é a ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ocupa-se do estudo do processo de representação, na natureza e na cultura do conceito ou da idéia.
A matéria da BBC Brasil publicada na Folha Online – Os homem querem direito de usar saias na França – me fez pensar na história da saia e o que este elemento do vestuário representa como signo, símbolo e significado na cultura.
A eterna busca pelo novo no universo da moda é algo que está além do que se vê nas passarelas e em grandes marcas. Buscar algo que transforme este mundo talvez seja o mote do discurso atual, pois é fato, que hoje em dia, a moda meio que se tornou um lugar comum no sentido negativo, mas não pejorativo, pois se percebe que por muitas vezes o exagero e o extravagante sejam os únicos métodos de se atingir tal feito, o de chamar a atenção.
Conceito? Autoria? Pode até ser, mas moda também é vestir-se. E cá venhamos, vestir-se bem e confortavelmente. Não adianta nada um grande estilista ser criativo e não podermos usar suas criações, por ‘N’ motivos, como volume, peso, espaço, diâmetro, cores, e que não prejudique o nosso bolso, por que não? Novamente, tais vestimentas conceituais passarão por crivos financeiros e serão reduzidos ao que seja comercial, sendo relidos em novas peças mais “wearables” ou usáveis. O mundo é ágil e ele exige que a pessoa seja mais ágil ainda.
Reflexão sobre o post Polícia Civil apreende mais de 10 toneladas de roupas com marcas falsificadas em Goiás; 13 são presos
Acho interessante como a chamada da notícia e seu conteúdo manifestam reações diferentes em cada um. A cadeia de significantes nos leva até onde a informação nos toca mais profundamente. Neste caso: mercadorias falsificadas, crime, drogas, tráfico, mortes de famílias e criancinhas. É sempre muito difícil fazer um julgamento a partir da moral particular para uma questão ética (que afeta a todos).
Antes da falsificação das mercadorias encontradas, elas foram produzidas – o tecido foi comprado, cortado, modelado, costurado, para finalmente as etiquetas de marcas conhecidas serem colocadas. O que certamente gerou emprego, recursos financeiros que sustentaram famílias e criancinhas.
Este fato me faz refletir sobre duas questões que suscitaram durante minha leitura da matéria e seus comentários:
1. Todos que participaram da cadeia de produção destas peças são criminosos? Ex.: modelista, costureira, etc. E os consumidores, também podem ser considerados tão criminosos quanto os que elaboraram a trama da falsificação, incluindo a escolha das marcas?
2. As peças (jeans e malhas) que foram produzidas e apreendidas não deixam de ser vestuários que abrigam o corpo de qualquer um. Como a marca, que revela seu valor agregado no preço da peça, serve de entorpecente que incita a falsificação e o tráfico criminoso.
Aqui, proponho uma breve reflexão sobre o mercado de moda de vanguarda, como propulsor do fenômeno da moda e gerador de um grande número de pequenos negócios que movimentam o setor do streetwear e seus estilos subversivos de moda.
Leia também: O que é a História da Moda – Parte 1/2.
I – APARÊNCIAS SUBVERSIVAS
Estudar a Moda está na moda. Vivemos um período da história da humanidade que exalta a sociedade de consumo, a cultura do desperdício e a contínua rotação de produto, o que da origem à corrida para evidenciar indivíduos singulares e as comunidades que os constituem, ou seja, ser diferente junto com seus iguais.
Para Dorfles, num período histórico no qual privilégios de casta, de condição e de classe pareciam se atenuar, surge a necessidade de distinção entre os vários segmentos que compõem a sociedade e os indivíduos que dela participam. Para ele é espantoso que (1989): enquanto assistimos a consolidação de conquistas derivadas das contestações juvenis, cujo objetivo é eliminar e infringir privilégios e tabus burgueses, verificamos que estas novas formas de revolta são levadas a se deixar dominar pela moda,… isto porque a cultura dos objetos se edifica sobre este fenômeno e este, por sua vez, é parte da cultura das aparências.
Tal fato tem sido visível em hábitos, costumes e particularmente no vestuário como forma de virtualidade revolucionária. Esta expressão é usada por Bruno du Rosselle (1980) para definir a maior qualidade da moda como fenômeno, ou seja, o gosto pelo novo como atitude revolucionária, sendo, portanto, possível de ser entendida como uma linguagem de vanguarda.
Dispa-me! O que a nossa roupa diz sobre nós, de Catherine Joubert e Sara Stern, é o novo livro da Editora Zahar.
Sobre a Moda, sobre a vida, sobre as coisas da moda e sobre as coisas da vida que a moda representa. Muito tenho procurado entender: os seus sentidos, signos e significados e estes são meus maiores motivos de especulação, nesta vida.
Muito da história dos panos, suas tramas e a vestes que delas derivam têm ocupado meu tempo livre. Penso sobre as roupas, quem as veste e o porquê das opções de seus usuários. Reflito sobre quem as faz, como e por quê? O processo de saírem de um desenho, virar desejo e a partir daí, objeto de desejo.
Vivo a me perguntar: quem deseja e quanto desejo aconchega corpos nus?
Em busca de tais respostas, li muito de Freud para entender os meandros de tanto desejo… Em quantos livros de Lacan, busquei o significado ético do desejo. Em Jung, busquei todos os signos mitológicos que as Vênus, as Minervas expressam tão bem, nas mídias de moda.
História é a ciência que estuda a relação do homem com a natureza e seus semelhantes, através dos tempos. Das relações com a natureza, derivam os modos de sobrevivência e a religião. Das relações com seus semelhantes, os homens criaram as sociedades e suas formas políticas, representadas através da cultura das aparências.
A ciência histórica observa a ação humana por vários aspectos. A arte é o aspecto que mostra a ação do homem, através da impressão de valores estéticos nos objetos, mostra que este é capaz de criar e construir, e portanto, é o olhar através da imagem construída e humanamente retratada, da construção das civilizações e de suas mentalidades e modos de viver.
Para Kenneth Clark(1995) Civilização é o conjunto de verdades que o homem elabora para poder se apoderar da natureza e agir sobre ela. O conjunto de tais verdades regula as relações com a vida, com o mundo e com a natureza e permite ao homem conquistar segurança e tranqüilidade; eliminam o terror das forças que não consegue controlar e adquirindo fé em si mesmo, com um corpo de crenças que geram segurança material e espiritual.
Aquele é um ambiente fantástico, lindo e superproduzido. Não tem como não se impressionar. Fora todo o glamour, há sempre a expectativa de cruzar e ver de perto alguma celebridade. E elas estão lá. Para um cabeleireiro famosíssimo (até eu conheço) ouvi a pergunta: “De onde te conheço mesmo?”, “Daqui!”. Foi o que ele respondeu. Simples, não é?
Penso eu que para alguém famoso é um saco o tempo todo alguém vir com toda aquela intimidade de velho conhecido puxando assunto, mas pior do que isso é não ser reconhecido. O “daqui” pode ser: “De nenhum lugar mocinha” ou esnobemente “Não pode ser do meu salão, obviamente”.
Ali há também, a reprodução perfeita da sociedade, vamos aos times.
Cena 1: no corredor da firrrrma. Um moço vem perguntar se uma amiga conseguiria uns “ingressos” pra São Paulo Fashion Week. Objetivo: convidar a “ex” para impressioná-la porque, afinal, ele está tentando reatar o namoro. (Detalhe: já avisei ao moço que ingresso a gente compra – pra show, teatro, cinema, pro circo. Pra ir à SPFW, é preciso c-o-n-v-i-t-e.)
Cena 2: almoço no restaurante da firrrma. Uma amiga diz que vai ao evento e tem convites (não ingressos) sobrando. A outra amiga diz “vamos tirar par ou ímpar pra ver quem vai com ela”.
Não sei que tipo de histeria toma conta das pessoas, mas todas querem muuuito ir à SPFW. Fazer o que lá, caras pálidas? A maioria nada tem a ver com a indústria da moda – tirando o fato de comprarem roupa, afinal, num dá pra andar pelado por aí, certo?
Ok. É um evento badalado, tem um monte de “celebridades”, os desfiles são bacanas. Mas não precisa se estapear por um convite, gente!
Se você não é mega cliente de nenhuma das marcas; não é compradora (ou seja, não tem multimarca ou franquia de loja alguma em lugar nenhum do planeta ); não é jornalista de moda/comportamento; não estuda moda… Não p-r-e-c-i-s-a. Vai xeretar o quê lá? Nada, né! O que você quer é dar pinta, “freqüentar”, pegar o briiinde, ver ex-BBB, contar pros outros no dia seguinte? Ah, me poupe!
No ateliê de Jum Nakao – instalado numa garagem na Vila Clementino, onde a única coisa que não se vê é glamour – ainda estão penduradas no teto parte das criações de seu último desfile na São Paulo Fashion Week, em 2004. Na ocasião, o estilista colocou na passarela modelos com vestidos feitos de papel, que foram rasgados ao final da apresentação.
Mais do que transgressor, o gesto significou o rompimento de Nakao com as semanas de moda e o fim da marca que levava seu nome. “Ter uma grife com um trabalho autoral se tornou cronicamente inviável”, opina o estilista, crítico ferrenho da moda brasileira. “Em termos culturais somos reféns das tendências internacionais. É um trabalho medíocre, de reprodução e adaptação”.
Nakao se afastou das passarelas, mas não do mundo fashion com o qual está envolvido há mais de 25 anos. Além de professor do curso de pós-graduação em Direção e Criação de Moda, da FAAP, desenvolve projetos artísticos ligados à moda em parcerias com museus e fundações internacionais e é autor do livro “A costura do invisível”. “Abdiquei de ser estilista para ser um agente transformador”, diz ele.
Avesso ao burburinho das “fashion weeks” brasileiras, o estilista diz que a indústria não está tão bem quanto deixa transparecer. “O povão conhece a Gisele Bündchen e sabe o que é Dior, Gucci, Louis Vuitton… Agora, tente perguntar para o mesmo povão quem é Ronaldo Fraga ou quem é Herchcovitch”, desafia.
Outro dia fui com duas amigas comer “o melhor bolo de chocolate do mundo”. É um lugarzinho minúsculo, porém charmoso, que tem o nome da principal (praticamente única) “iguaria” servida – “O melhor bolo de chocolate do mundo”.
Fica num dos bairros mais “hype” de São Paulo – os Jarrrdãããns. Jardins, na verdade. Mas eu gosto de brincar com o nome, falando assim, com sotaque “francês”, porque o povo dos Jarrrdãããns é muuuito chique.
Aí, eu, com minhas queridas amigas, sentadinha no meu canto, numa tarde de domingo típica de outono (ensolarada, mas friazinha – delícia), me peguei reparando nas pessoas, o que não é nenhuma novidade. Tenho esse desvio de comportamento: adoooro reparar nos outros, sorry! Entre uma garfada e outra, cheguei à conclusão de que descobri uma nova classe social: a Classe “P”.
Diferentemente das demais classes sociais, a Classe P não é definida pelo poder de compra, nível salarial ou escolaridade. Não é preciso saber quantos aparelhos de tevê, quartos ou banheiros a pessoa tem em casa. Nada disso: a Classe “P” é definida por pura atitude. E mais: representantes da Classe P estão por toda parte, em praticamente todas as letras do alfabeto. Acompanhe meu raciocínio (nada científico, mas um raciocínio)…
Repare na legião de mulheres que desfilam por aí com bolsas Prada ou Louis Vuiton. E naquelas com óculos de sol Gucci ou Channel. Pode apostar: 90% pertencem à Classe P. Compraram tudo daquela amiga-que-conhece-não-sei-quem que traz (muamba) de Nova York. Ou numa lojinha da avenida Paulista. Enfim, tudo de camelô ou, no mááááximo, de algum outlet bem baratinho (ah, mas foi um “achado”!). Nada contra camelô (?!) – meio de vida de quem tem que se virar de algum jeito. Mas é engraçado, vai! Porque o importante para a Classe P é a pose. Afinal, quem é que sabe reconhecer o que é original?
Em 1967 Roland Barthes, sociólogo e filósofo francês escreveu um artigo intitulado O Duelo Chanel – Courrèges para a revista Marie Claire francesa. Barthes sempre se interessou pela linguagem visual, sua contribuição para a moda foi muito importante, pois elevou o assunto ao interesse acadêmico..
O texto é uma reflexão através do olhar de Barthes, nos anos 60, sobre estes dois estilistas que fizeram história. Segundo ele, Coco Chanel deveria ser encontrada nos livros, entre os autores da literatura clássica. “Chanel não escreve com papel e tinta, mas com tecidos, formas e cores. Chanel acumula todos os valores da ordem clássica como razão, naturalidade, permanência, prazer em agradar em não surpreender”.
Uma referência clara à arte Clássica (civilização grega e romana). Podemos dizer que ele define a marca Chanel como tudo que não sai de moda, que continua sendo de boa qualidade, mantém os seus valores, é tradicional, sóbria e tem tendência em agradar a todos.
Marie Rucki está entre nós. A diretora do Studio Berçot, que apresenta uma série de workshops em SP.
Madame Rucki destacou a importância dos estilistas em ajudar o consumidor a escolher as peças e tendências da estação e o papel do jornalista em saber coletar, analisar e passar a informação correta e condensada para o leitor.
“A moda mudou muito. Não se pode mais falar em tendências, pois os períodos estão muito curtos e a moda em movimento constante”, dispara. “Se olharmos para trás veremos que a forma e a modelagem não mudam há 50 anos. O que muda é a forma de usar e a composição que os estilistas propõem”, analisou.