A alfaiataria e o poder do terno X a frivolidade da Moda por Queila Ferraz – História da Moda

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Na história do vestuário, o surgimento do traje de alfaiataria deve ser entendido como o divisor de águas que distingue a roupa moderna da roupa do mundo contemporâneo.

Penso que ao longo da história, o vestuário masculino foi sempre mais avançado que o feminino. O traje do homem foi sempre plataforma dos avanços tecnológicos têxteis e formais porque sempre apontou as mudanças sociais na imagem do provedor, do guerreiro, do político e do religioso. Mas quando se fala do fenômeno da moda, o traje feminino toma a dianteira nos temas de estudo e mesmo como fonte de observação para estudos fenomenológicos, por isso, aqui, trataremos do traje masculino e sua permanência formal como fenômeno igualmente importante para a moda e a “não-moda”.

A moda, além da efemeridade e inconstância, carrega, através das roupas, a qualidade de construir a identidade privada, definindo primeiramente o eu do indivíduo pela sexualidade, tendo o corpo, como o demonstrador dos gêneros.

O vestuário feminino tem sempre um apelo visual teatral e a roupa masculina determina o padrão real do vestir socializado, incluindo nele suas versões informais, a roupa esportiva, roupa para férias, fim de semana e o traje urbano formal usado para trabalho ou diversão.

O conjunto calça-paletó-camisa, formal ou informal, conhecido como o Terno Masculino, constitui o que conhecemos como alfaiataria, que é composto por uma gama grande de variedades de paletós, calças, camisas, coletes, casacos e gravatas.

Este composto de traje tem sido considerado pelos usuários da moda masculina como enfadonho e repetitivo, porém, o que se questiona de fato é que, num mundo onde a efemeridade dá o tom na cultura das aparências, porque o terno continua sendo o traje civil clássico em todo o planeta?

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Pergunta-se como a alfaiataria se relaciona com a moda e quais os valores que ela sinaliza que a torna tão eficaz, mesmo diante da sensualidade tão fragmentada e dinâmica dos usuários pós-modernos.

Anne Hollander em sua obra O Sexo e as Roupas lembra que a moda é um fenômeno social e que as mudanças no vestuário são mudanças sociais também. Para ela, o poder da permanência da alfaiataria mostra a autoridade, a força simbólica e emocional dos valores de perpetuação. O terno tem um caráter abstrato e apresenta uma mensagem de continuidade formal que é profundamente satisfatório no mundo contemporâneo, por isso o seu não desaparecimento e a mudança do seu campo de atuação também para traje feminino e para o traje casual, o que trouxe mudança  para seu significado social e sexual.

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O terno esteve inicialmente relacionado ao ofício do alfaiate e à tradição da roupa feita sob medida, à qual era agregada um valor de luxo e requinte que ultrapassava o da boa aparência, valor este que se tornou o maior da cultura masculina contemporânea. Assim, os avanços tecnológicos da indústria do vestuário foram chamados para participar da preservação da boa aparência do terno masculino, como resposta a algumas fantasias coletivas que até hoje se mantêm no poder.

O terno foi eleito como o agente apropriado da beleza da força e da sexualidade positiva do homem urbano e por esse motivo introduziu-se a alfaiataria dentro das regras do design de moda, ou seja, um produto manufaturado em série, oferecido no comércio varejista em diferentes tamanhos, formas, volumes e padrões têxteis.

A base estética que deu origem ao ideal moderno de elegância masculina procurou imitar a elegância e a eficiência da natureza. Esta ordem define que os seres humanos sejam complementados por roupas.

Relacionado com o vocabulário visual e estilístico da arte abstrata moderna, o terno mostra que, mesmo diante de tanta simplicidade, ele mantém o vigoroso apelo erótico que o fez nascer. Os ternos, assim como os carros, são sexy.

Este padrão da alfaiataria moderna surgiu no Ocidente no séc. XIX após o declínio do estilo Rococó, relacionando o Iluminismo à estética neoclássica, que sugeria como padrão de virilidade a força e a clareza da democracia grega unida ao modelo simples e eficiente da tecnologia construtiva romana. O ideal neoclásssico tornou-se erótico, politicamente correto e atraente, como forma de expressar as novas aspirações emocionais e sociais da contemporaneidade.

A mesma ordem estética foi repetida na arte e no design moderno e abstrato do séc. XX, após a queda do gosto romântico, vitoriano e art-nouveau.

A mudança na alfaiataria se deu na transferência do modo de fazer sob medida para o industrializado, que foi também a base da construção da roupa prêt-à-porter para ambos os sexos.

Outro dado importante sobre a permanência da alfaiataria vem da história do vestuário, cuja evolução tem sido entendida como um dueto entre o traje masculino e o feminino. A extensão de seu uso para as mulheres mostra uma trégua na relação dos papéis e traz à tona a grande discussão da androginia através da moda.

A alfaiataria, usada pela mulher, é o grande marco da história do vestuário no séc. XX. Como roupa de mulher, o terno tailleur carrega consigo os mesmos valores de sensualidade e poder que estão neste traje como roupa masculina. E é esta a condição que mantém a alfaiataria no topo das questões históricas do vestuário. Questões estas que têm se mostrado mais importantes do que as questões da moda e sua efemeridade.

Por Queila Ferraz

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Leia também O Terninho – Clássicos da Moda.

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