Ciberespaço: do Ciborgue ao Virtual – As CYBER GIRLS – Parte 4/4

Sendo um ponto crucial do mundo contemporâneo, entenda mais sobre o papel do Ciberespaço e da realidade virtual na nossa sociedade

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Em um mundo já dominado pela tecnologia, entenda algumas questões sobre o Ciberespaço na nossa sociedade e a projeção implacável da realidade virtual na imagem das mulheres.

 

O que é o Cibersespaço?

 

Mulher rodeada por luzes e um visor luminoso nos olhos. Cibersespaço.
Crédito: Zichuan Han. Fonte: Pexels.

 

O ciberespaço é o espaço de comunicação formado pela interconexão mundial entre computadores e suas memórias. Como resultado, esse é o espaço virtual onde acontecem trocas simbólicas entre indivíduos ao redor do mundo, definindo uma nova forma de interação na cultura contemporânea.

Por sua vez, a cibernética é a cência pela qual se imita artificialmente os seres vivos: desde os seus movimentos básicos à comunicação e interação social.

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Assim, dentro da aplicação da cibernética temos:

Por um lado, a inteligência artificial, fundamento cibernético que busca conseguir que a máquina realize da melhor maneira possível o comportamento e racionamento humano. E, por outro, todo tipo de maquinário que substitua uma atividade antes feita pelo homem.

 

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Qual a diferença entre o ciborgue e o virtual?

 

Um mulher jovem a receber uma rosa vermelha de um robô. Cibersespaço.
Crédito: Pavel Danilyuk. Fonte: Pexels.

 

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Esses dois conceitos, o cibersespaço e o cibernético, caminham juntos, mas respondem a possibilidades distintas. A diferença crucial entre o ciborgue (anômalo) e o virtual é, assim, o contexto pré-estabelecido.

De um lado, temos um ser gerado pela força transformadora da ciência. Do outro, temos a ciência da computação em números, tabelas, algoritmos, ligações materiais e virtuais. Essas têm como objetivo formar um ser ideal que possua inteligência e outras qualidades. Entretanto, a principal é mesmo a beleza.

O “belo” não pode ser apenas uma “manifestação da verdade”, como enfatiza Hegel. O belo se destaca por si só. Ou seja, ele chega e a sua beleza, construída ou natural, aparece de forma única, inusitada e se destaca na massa homogênea quase imperceptível.

Contudo, já Kant conceituou a beleza como uma forma universal, irrestrita e utilizada para o prazer do belo de qualquer forma, tamanho e dimensão.

 

“Cada um chama de agradável o que lhe satisfaz, Belo é o que lhe agrada, Bom o que aprecia ou aprova aquilo a que confere um valor objetivo”.

 

Robô Retrato da robô Erica de Hiroshi Ishiguro.
Robô Erica de Hiroshi Ishiguro. Crédito: Maija Tammi. Fonte: Independent.

 

O ideal de beleza no cibersespaço

 

Na verdade, Kant tentou dar corpo a um conceito que já existia sem muita definição entre pintores, escritores, atores e dramaturgos. Um conceito que nasceu lá nas cavernas.

O que ele fez foi liberar a ideia da representação da beleza, difundindo-a para o mundo de então.

Seja como for, desde o princípio a beleza tem sido construída e ditada por ideais um tanto conservadores.

 

Mulher recebendo uma injeção de Botox.
Crédito: Cottonbro. Fonte: Pexels.

 

Apesar disso, estes conceitos foram mudando. Assim, em sua crescente ascensão social as mulheres buscaram sempre mais, o que causou uma perda de sua essência em muitas áreas.

Desde então, iniciou-se uma nova era. A era da adaptação do orgânico em um semi-orgânico. Ou seja, próteses de silicone e enxertos de Botox tomaram seus postos, se colocando à disposição para mascarar o corpo.

 

Ciberespaço: o Original X Artificial

 

Como resultado, a mulher foi se “franksteinizando” e se tornando uma paródia de si mesma.

Afinal, com o avanço da tecnologia na automação, novos softwares se somaram ao esforço de fazer da mulher algo também “ciborguético”, anômalo.

 

Robô HRP-4C dançando com duas humanas.
Robô HRP-4C, de 2009. Fonte: Spectrum IEEE

 

Como explica Baudrillard:

“Com a digitalização do mundo, a imagem age como um modelo dinâmico de construção do conhecimento sobre o real (e de construção de um novo ‘real’) (…) O modelo digital é assim mais real do que o real, fazendo desse a vítima de um crime (quase) perfeito”.

Assim, o original não existe, pois a referência do real é substituída por algoritmos matemáticos que alteram a matriz ao seu bel prazer. Desse modo, fabricam uma sucessão de cópias que se alteram de uma versão para outra mais atualizada.

Por fim, no ciberspeaço, a única verdade existente nesta beleza feminina é a da manipulação dos dados numéricos.

 

O Virtual X Real

 

Este ser dotado de inteligência já semiartificial tentará se equiparar ao seu avatar que habita o espaço virtual ou ciberespaço.

Segundo o pensador francês Pierre Levy, o virtual é uma nova forma de ser, cuja compreensão pode ser facilitada tendo em conta o processo que leva a ele: a virtualização.

 

Robô Geminoid F ao lado da modelo que foi sua inspiração.
Robô Geminoid F de Hiroshi Ishiguro, em 2010. Crédito: Osaka University. Fonte: Spectrum IEEE.

 

Traduzindo: quando nos deparamos com a semente de uma árvore podemos entender que já existe ali o potencial de uma árvore. Este potencial se atualiza quando de fato se transforma em árvore.

Nesse sentido, o possível associa-se ao real, na medida em que aquele é este sem existência. Ou seja, a realização, passagem do possível para o real, não envolve nenhum ato criativo. Se analisarmos de forma lógica, é uma consequência natural.

 

Virtualização da Realidade

 

A magia do processo está em lidar com as suas possibilidades. De fato, algo não existe, mas passa a existir a partir do momento em que trabalho para que esta realidade passe a existir.

Levy, em suma, almeja fazer a migração entre o par de conceitos possível X real para a dupla virtual X real. Assim, busca conseguir associar ao processo de atualização o devir, com a interação entre o atual e o virtual.

 

Uma jovem a tocar uma projeção virtual no ar. Ciberespaço.
Crédito: Ali Pazani. Fonte: Pexels.

 

Como defendeu: “O real assemelha-se ao possível, em troca o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe” (Levy, 1996, p.17).

O ciberespaço pode ser, em síntese, uma virtualização da realidade, uma migração do mundo real para um mundo de possibilidades, de interações virtuais. Aparece em cena, neste momento, a desterritorialização. Nela, não existe um território físico, material, mas sim uma gama de variáveis e escolhas.

 

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O ciberespaço: nova visão do espaço e do tempo

 

Esta migração ao ciberspeaço, com uma nova noção de espaço-temporalidade, se dá de maneira natural. Nesse sentido, não é um choque para as recentes gerações lidar com distintas realidades virtuais que passam a fazer parte do seu cotidiano.

Comunidades virtuais hoje funcionam como o quintal da casa dessas gerações, igual que um espaço público como uma praça, um clube, uma rua. Desse modo, é no cibersespaço que elas descobrem e desbravam novos conceitos, novos códigos comunicativos.

E o ciberespaço gera uma nova maneira de trocar, de se relacionar, de correr novos mundos. Assim nasce a cibercultura, que mexe de maneira definitiva com o imaginário coletivo. Como resultado, transforma e mescla a natureza humana com a tecnologia.

Pierre Levy questiona e defende uma estreita interrelação entre subjetividade e tecnologia. Esta influência atua de forma determinante e irreversível, na medida em que fornece novos referenciais de como interagir com o mundo.

 

O ciberspeaço e a tecnologia intelectual

 

A partir de agora, passa a existir a “tecnologia intelectual”. Nela, o registro de uma nova memória coletiva passa a determinar novos discursos.

Além disso, as noções de tempo e espaço são afetadas pelas formas de interagir, e este registro passa a ser documento.

Um documento facilmente acessado, pois está na memória. É, assim, extensivo ao seu corpo por meio de alguma espécie de terminal, seja um computador, um celular, um ipod, entre outros.

 

Mulher com aparelho de realidade virtual e computador. Ciberespaço.
Crédito: Fauxels. Fonte: Pexels.

 

“No caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente”. (Levy, 1995, p.118).

O que disponibilizou esta grande biblioteca virtual foi o fato da nossa memória se desmaterializar perante uma realidade ainda em transformação. Assim, com o surgimento dos meios informáticos, os olhos do mundo focaram um novo modo de vê-lo:

“(…) vivemos hoje em dia uma destas épocas limítrofes na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda pouco estabilizados” (Levy, 1995, p. 17).

 

Novo mundo, nova mulher

 

Imagem da personagem Lara Croft apontando uma arma a um monstro. Ciberespaço.
Lara Croft, do jogo Tomb Raider. Fonte: Lara Croft PT.

 

Se a representação do mundo se modificou, a representação da mulher também – principalmente no ciberespaço. Afinal, desde o advento da internet nasceram as musas em pixels.

Perfeições femininas criadas por softwares de última geração, onde se vê o ideal de beleza feminino sendo armazenado e manipulado em banco de dados.

São arquétipos femininos plastificados, irretocáveis, incansáveis, insuperáveis e, além disso, insuportáveis. Mais reais que o próprio real. Nesse sentido, a partir do cibersespaço vemos uma mudança de paradigmas e uma inversão de valores: a mulher orgânica passa a cobiçar o corpo criado por tabelas e algoritmos.

Ela é virtual, artificial e desumana, dentro de toda a maleabilidade da imagem digital. Dessa maneira, está condicionada ao seu suporte virtual, no qual está  instalada em seu reino de interação digital facilitado pelos códigos binários que a armazenam.

Pode-se concluir que o modelo binário está, assim, redefinindo a cultura contemporânea: “(…) a tecnologia digital não respeita os limites existentes, sejam eles espaciais, temporais conceituais ou profissionais”.

 

Um ideal insaciável

 

Formas perfeitas, lábios recheados e uma sensualidade que transborda são os ingredientes básicos deste novo conceito feminino. Esse é, antes de mais nada, um novo jeito de ser virtual.

Como toda moda, esta lança mão do próprio corpo e o coloca à prova na base de experimentos. Nunca um ideal feminino foi tão copiado e cobiçado como o que hoje vemos com o virtual e a simulação do real.

Afinal, quantas mulheres almejam ser alguns dos ícones femininos do momento e, para tanto, recorrem às próteses de mamas, glúteos de silicone, ou enxertos de Botox sem saber se é prejudicial à saúde.

 

 

A realidade performática no ciberespaço

 

Jean Baudrillard reage de maneira enfática e com certo pessimismo em relação à proliferação de simulacros indistintos nesta pós-modernidade a partir de redes informático mediáticas.

Longe de nos informar, estas redes refazem o mundo à sua maneira. Em outras palavras, produzem a indústria do espetáculo em um real mais que real, performático.

Como André Lemos aborda: “As novas imagens digitais não mais representam o mundo; elas digitalizam o real. A imagem de síntese é um ‘simulacro’ do digital”.

 

O ciberespaço e a super-mulher

 

Em outras palavras, vemos a algo mais do que a beleza; algo mais sublime do que o natural. É a representação do corpo apenas como aparência; inversão da imagem do Belo que “agrada universalmente e sem conceitos” (Kant).

É, assim, a gênese da super-mulher, da super-fêmea, da super-máquina, da metamorfose constante da “ciborguização” e da “franksteinização”. Ou seja, um esforço constante de enxertar, cortar, tirar, colocar, esculpir corpos que buscam se conservar jovens e viris.

Desse modo, estão conservados com perfeição numa plasticidade mórbida. Bem ao estilo da criadora de máscaras mortuárias do século XVIII, Madame Tussaud, que fez do seu solitário e funesto ofício uma arte.

 

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Por Goretti Pedroso

Goretti Pedroso é Jornalista, doutora em Ciência da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo com especialidade em Cinema e Moda. É professora do Centro Universitário Belas Artes e da ECA-USP e autora dos livros Mulher Virtual, Admirável Mundo MTV Brasil e Um Salto na Criatividade.

 

* Matéria originalmente publicada em 2009.

 

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