A evolução do tecido na antiguidade – Parte 2

Por Queila Ferraz Monteiro

É sabido que cada tecido tem a sua história; e o que fascina o estudante que se inicia no universo dos “panos” é a relação histórica que determina as condições de sobrevivência dos povos no contato com a natureza, fazendo nascer daí a moradia, a alimentação e a vestimenta.

Dessa relação nascem ainda uma culinária e uma religião, pois é preciso agradecer a Deus “o pão nosso de cada dia”. Nasce também um sistema político, capaz de proteger a terra conquistada e garantir esse pão.

Explicar a relação entre a evolução do tecido, com as culturas primitivas, e a formação dos grandes impérios da Antiguidade é o motivo que me coloca aqui, agora, neste momento da minha trajetória acadêmica.

Nos tempos primitivos, sobrevivia quem conseguisse comer; e com a pele dos animais caçados, vestiam-se os corpos, para resistir às intempéries e poder buscar lugares de terras férteis e cultiváveis em que a caça – agora não mais apenas para alimento – passou a pertencer ao domínio do sagrado. O sacrifício do cordeiro foi o primeiro grande marco da civilização: era necessário cobrir o sacerdote com a pele do animal, ofertar seu sangue sacrificado à divindade, para pedir bênçãos e colheita farta.

O pêlo do animal tornou-se um material nobre para cobrir o corpo. Seu uso simboliza sacrifício: se não é para Deus, é ofensa cultural ancestral, digna de ser gritada, hoje, em praça pública.

O Homo Sapiens se vestiu com a pele do animal caçado para alimentar a si e sua família. Tratar a pele para vestir o corpo era função da mulher, que através da mastigação, tornava a pele mais macia. Foi ainda na Pré História que surgiu o curtimento feito com ácido tânico, extraído da casca do carvalho e do salgueiro. Esta técnica é usada até hoje. É importante apontar para o fato de que ela documenta um modo de vestir de povos ainda nômades e habitantes de regiões de florestas densas, onde existem animais e árvores de grande porte como o carvalho. Toda essa tradição ainda existe e é assim que se vestem os esquimós.

Related Post

O panejamento que acompanhou o deslocamento do Sapiens rumo às regiões de clima temperado foi a feltragem, desenvolvida com fibras animais e vegetais extraídas da casca de amoreira e figueira. No Egito essa técnica deu origem ao papiro e propiciou um têxtil intermediário entre a esteira e a tecelagem.

O linho, o cânhamo, o algodão e a lã, documentam a passagem das culturas humanas do estado nômade para o estado sedentário e agricultor.

Fixos em suas terras, com as fronteiras demarcadas, plantações e animais guardados e protegidos, os Sapiens já humanizados, começaram a guerrear para garantir seu território e conquistar mais.

Vestir o chefe do povo, o chefe da guerra, o chefe da fé e o chefe da família exigiu que de desenvolvessem modos eficientes de tosquiar o velo, fiar a fibra e dos fios tecer o tecido.

Roupas curtas, longas, leves, pesadas, com manga, com franja, com brilho e por fim, as calças, roupa de bárbaro, que era vista como sinal alarmante da presença do estrangeiro invasor.

Resto de nômade, bárbaro sem terra, ainda habitava uma cabana que se transportava no lombo de seu cavalo.

Bárbaro isso, coisa de bárbaro, o homem de calça, aquele estrangeiro, que só balbucia a, precariamente, língua local. Atravessando o Vale da Sombra da Morte, entre o Tigre e o Eufrates, em seu cavalo árabe, vinha em caravanas trazendo a tão rara, fina e brilhante seda da China.

A essa altura, já História, os homens puderam, não mais nômades, rendendo graça aos deuses, tornar-se sedentários e dedicar-se à agricultura.

Cultivando, plantando, colhendo abundante vegetação capaz de ser transformada em fibras fiáveis, fizeram surgir os tecidos de fibras vegetais nas planícies férteis do Nilo e da Índia.

As ovelhas, além de fornecer o leite para a amamentação das crianças e para a fabricação do queijo, deixavam-se tosar e, de seu pêlo, surgiu a lã – sagrada, no abrigo do homem montanhês, como nos conta a Bíblia na história de Davi, menino pastor, puro, simples, humilde e dócil como as ovelhas que pastoreava, e que conseguiu defender o povo judeu dos reis mercadores que cruzavam a Terra Prometida, a caminho do mar.

Diferente da moda, o estudo dos têxteis deve partir da evolução da indumentária masculina.

Os chefes de estado sempre usaram os tecidos mais preciosos para representar seu poder.

Os homens que falavam com os deuses sempre se vestiam e se adornavam com a pele e a pluma do animal, tido como o melhor e mais veloz mensageiro entre o homem e as forças da natureza.

O soldado romano sintetiza claramente essas características: ele foi o maior emblema do guerreiro da Antigüidade e, com seu escudo, seu coturno de couro e seu elmo, só não venceu a neve dos bárbaros germânicos.

http://employees.oneonta.edu/angellkg/ROMAN.HTML

Minha intenção final, aqui, é apontar para esse rico veio documental que está nas Sagradas Escrituras, como material que comprova a importância da evolução têxtil nos modos de viver da humanidade e que, hoje, devem se aliar às questões da ecologia, para que possamos continuar a usufruir, de forma harmoniosa, daquilo que, em SETE DIAS, foi criado para nós de forma tão sagrada.

Para ver as imagens aqui apresentadas com legenda e outras sobre a pré-história clique aqui.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

BOUCHER, Francois. – 20,000 Years of Fashion. Nova Yorque: Expanded Edition, 1987.

FILHO, Alcides Goularti, A indústria do Vestuário. Florianópolis, editora Letras Contemporâneas, 1997.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

LURIE, Alison. A Linguagem da Roupa. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1996.

NERY, Marie Louise. A Evolução da Indumentária. Rio de Janeiro, Editora Senac, 2003.

RIVIÈRE, Margarita. Diccionário de la Moda, los estilos del siglo XX. Barcelona, Grijalbo Mondadori, 1996.

TREPTOW, Doris, Inventando Moda. Brusque, Sebrai/SC,2004.

VINCENT-RICARD, Françoise. As Espirais da Moda. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1989.

www.modabrasil.com.br,> acesso 9 de junho de 2006 http//www. Abravest.org.br.abravest/censo.> acesso 28 de julho.2005

http://employees.oneonta.edu/angellkg/

Queila Ferraz Monteiro é estudiosa de História da Moda, é consultora de design e gestão industrial para confecção e Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção dos cursos de moda da Faculdade Belas Artes, Senac Moda e Universidade Anhembi Morumbi. queilamoda@yahoo.com.br .

Queila Ferraz: Queila Ferraz é historiadora de moda e arte, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário. Trabalhou como coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac e da Belas Artes.