Fotografias de Moda: a história do olhar em imagens - Parte 3/4

Fotografias de Moda: a história do olhar em imagens – Parte 3/4

O conhecimento visual do mundo através de imagens se tornou tendência através do advento da fotografia, destacando-se as Fotografias de Moda.

Elas então trouxeram as marcas de um mundo de imagens que imaginam o mundo, representando processos vivenciais em cenários e cenas, dando ênfase a ideias de outro universo.

Flusser lembra que “como toda imagem é também mágica, seu observador tende a projetar essa magia sobre seu mundo” (2002:10).

 

Mulher a passar por um cartaz de moda. Crédito: Escael Marrero. Fonte: Flickr.

 

O estudo da fotografia

 

Acima de tudo, estudar o que pertence à foto, ao sujeito, ao fotógrafo e ao espectador são hoje os caminhos que se apresentam para os estudos teóricos sobre o tema.

Para Barthes, a fotografia pertence ao campo teórico da “historia dos olhares” e sua regra parte de dois elementos básicos.

O primeiro deles é a extensão de um campo familiar ao saber, à cultura do espectador. Este campo que remete sempre a uma informação clássica. Desse modo, gera um interesse geral cuja emoção passa pela crítica de uma cultura moral e política, produzindo um afeto de participação cultural nos gestos, cenários e figuras.

 

A subversão da imagem 

 

Campanha publicitária de moda e confecções Caron. Crédito Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. Fonte: Flickr.

 

O segundo elemento gera um sentimento que parte da cena, transpassando, ferindo e atingindo o espectador. Por fim, o autor conclui que, no fundo, a fotografia é subversiva. Não o é por aterrorizar, perturbar ou estigmatizar, mas por que faz pensar e induz a sentir.

Neste ponto, Barthes vem de encontro com Octavio Paz na sua obra Signos em Rotação (2005), quando este fala do poder de subversão da imagem.

Barthes nos fala da foto como um teatro primitivo, como um quadro vivo (1984:58): “A fotografia para surpreender fotografa o notável, mas logo decreta notável aquilo que ela fotografa e assim a fotografia só pode significar assumindo uma máscara”.

Para ele, a máscara é a região da fotografia que trabalha na zona da produção de sentido, suficientemente crítica para inquietar e muito discreta para constituir uma crítica social eficaz.

É por isso que a semiologia da fotografia está restrita ao objeto que fala, induzindo vagamente a pensar.

 

As fotografias de moda e a captura da realidade

 

 

Fotografia de Moda. Crédito: Godisable Jacob. Fonte: Pexels.

 

Segundo Barthes (1984) a qualidade destas imagens está na sua capacidade de contar fatos, dizer coisas e tecer comentários, produzindo afeição, pontuando estados de inserção e rejeição dos indivíduos aos modos de ser e de viver.

Asssim, as fotografias devem lembrar pedaços da vida, onde as paisagens e cenários habitáveis e as fotos de roupas devem ser vestíveis, desejáveis ou não.

A fala fotográfica penetra o espectador através dos detalhes da imagem que consegue comentar a cumplicidade deste com aquele instante apreendido por um certo ato fotográfico. Esta é a condição que diferencia a arte fotográfica das demais formas de produção de imagem.

 

A construção da imagem nas fotografias de moda

 

Antes de mais nada, quando uma imagem é construída deve-se pensar no seu poder de catarse. Com isso, ela deve ser criada a partir de um roteiro de conquista do desejo, mostrado num corpo integrado ao social através do evento imaginado.

A fotografia de moda deve propor sempre o melhor caminho para a conquista social. Afinal, ela é socializadora e pedagógica, mesmo que indutora de consumo.

 

Editorial Etnico Afro: Explorando o estilo fashion africano. Crédito: Daniele Vsilva. Fonte: Flickr.

 

Reconhecer a primeira categoria é encontrar as intenções do fotógrafo. Aprová-las ou desaprová-las, mas sempre compreendê-las, reconciliando-as com a sociedade. Afinal, o seu papel é informar, representar, surpreender e fazer significar, respondendo a um espectador que gosta de saber e de ser compreendido.

A fotografia de moda pontua estados de pertencimento social, uma vez que as pessoas vestem o corpo principalmente para serem aceitas pelo grupo. Assim, o fotógrafo deve saber reconhecer cada grupo social e os que se diferenciam dele.

 

A representação social

 

O fotógrafo precisa conhecer a função das roupas a serem usadas na produção da imagem. Isso para que com efeito possa simular cenários compatíveis com o desejo de ser e estar da leitora. Para que ela possa sentir que é viável habitar aquele universo.

Portanto, não se projeta uma imagem de moda direcionada às moças indies na praia. Nem a imagem de uma patricinha em uma balada alternativa de rock progressivo ou heavy metal.

O ambiente das patricinhas é o shopping-center e os bares onde se toca pagode. Odeiam os Hamones. Elas gostam de canções e eventos isentos de discursos políticos contra a ordem dominante.

Suas canções devem remeter às relações afetivas, onde todas encontrarão um provedor capaz de fazê-las perpetuar a sua espécie.

 

Os grupos sociais

 

Pensemos no que caracteriza a moda da garota surfista. Ela se veste como se estivesse sempre na praia, pronta para caminhar na areia, para carregar os acessórios da prancha do namorado; na sacola leva sanduíches naturais para todo o dia, e na mochila a parafina da prancha, o filtro solar e a toalha.

Já a patricinha é a moça chic. Herdeira da tradição, ela usa salto alto o dia todo, além de calça jeans sempre apertada, para mostrar as curvas, e uma bolsa pequena de grande marca. Às vezes ela desce do salto e o troca por um tênis Nike, mas jamais desce do carro. Afinal, para elas, andar a pé é coisa de peão.

 

Fotografia de Moda. Crédito: Wellington Cunha. Fonte: Pexels.

 

A índie (independente) é a moça roqueira, metaleira. Ela tem um leve ar andrógino. Usa roupas pretas, saia de colegial sobre calças justas, blusinha college e tênis All Star de cano longo. Elas tingem os cabelos de vermelhos ou pretos, deixando-os cheios de ponta.

Acima de tudo, elas gostam de serem vistas como gênios do mal. Apesar de estarem sempre palidamente maquiadas, elas gostam de apresentar um ar (arquitetado) de desmazelo e desdém pelo mundo feminino.

 

As fotografias de moda: meios e técnicas

 

Em outras palavras, a fotografia de moda não é diferente das demais. Ela é uma imagem construída para dialogar com as vivências e sonhos de quem a recebe através de uma mídia impressa.

O que queremos aqui reforçar é o quanto tais imagens atuam diretamente na memória afetiva destas leitoras.

Boris Kossoy (2003), contrário à apreciação estetizante de Barthes (1984), coloca que é na decifração da finalidade a que se destina a imagem que se encontrará um rico veio para a compreensão da estética fotográfica. Para ele, o que torna o mundo familiar diante de uma imagem fotográfica é a produção profissional e comercial, com os vários tipos de comissionamento entre o fotógrafo e seus contratantes.

Kossoy se dedicou a estudar a evolução histórica do uso fotográfico e alerta para o fato de que muitas vezes se confunde a história do objeto com a da técnica fotográfica, outras vezes com a história dos fotógrafos. Na realidade, ela também abarca a história de suas aplicações, ou seja, de seus usos.

 

As fotografias de moda na mídia impressa

 

Aqui investigamos o seu uso pela mídia impressa e o direcionamento do seu olhar para o universo da moda vestuário. Neste uso, há uma pedagogia funcional que orienta para o consumo de produtos que geram uma construção do corpo intencionado, de conquistas afetivas e socializadoras.

 

Capa da Revista Elle Brasil. Fonte: Pinterest.

 

Os estudos teóricos insistem na necessidade de que a história desse meio não se limite à historia como suporte da informação.  As condições de produção da imagem também têm que ser conhecidas: o processo de construção da representação no contexto em que foi gerada, além da história do próprio tema que deu origem à representação e à sua maneira de abordar formalmente a realidade.

No caso das fotografias de moda é o tema que induz à escolha dos diferentes tipos de construção de imagem.

A abordagem pode optar por uma construção de maneira impressionista ou realista. Pode, assim, ser representada em um contexto histórico, futurista ou contemporâneo, tanto dentro da cenografia de um estúdio fechado ou em espaços abertos ao ar livre.

 

Escolha X Mensagem

 

As escolhas decorrem da necessidade de tornar mais claro os elementos do discurso que esta ou aquela mídia pretende passar ao seu receptor.

Por exemplo, são conhecidas e esperadas as revistas do dia dos namorados, do natal, do final de ano e do carnaval. Também tem um destaque especial a revista que documenta e comenta o Fashion Week, assim como é comum sair um exemplar cuja matéria central trate de um show, do lançamento de um álbum de música ou filme de artistas que sejam ídolos do seu público alvo.

Como resultado, os temas das revistas são definidos de acordo com as datas comerciais, as mudanças de estação, e os eventos das mídias.

 

Por Queila Ferraz.

 

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