A evolução do tecido na antiguidade – Parte 2

A evolução do tecido na antiguidade   Parte 2

Por Queila Ferraz Monteiro

É sabido que cada tecido tem a sua história; e o que fascina o estudante que se inicia no universo dos “panos” é a relação histórica que determina as condições de sobrevivência dos povos no contato com a natureza, fazendo nascer daí a moradia, a alimentação e a vestimenta.

Nessa relação, a casa e o tecido seguem caminhos paralelos: os corpos não sobrevivem estando nus, ou dormindo ao relento.

Dessa relação nascem ainda uma culinária e uma religião, pois é preciso agradecer a Deus “o pão nosso de cada dia”. Nasce também um sistema político, capaz de proteger a terra conquistada e garantir esse pão.

Explicar a relação entre a evolução do tecido, com as culturas primitivas, e a formação dos grandes impérios da Antiguidade é o motivo que me coloca aqui, agora, neste momento da minha trajetória acadêmica.

A evolução do têxtil, juntamente com a da arquitetura, marcou e documentou a trajetória das culturas humanas rumo aos sistemas sociais que garantem a sobrevivência dos seres humanos contra a selvageria dos animais.

Nos tempos primitivos, sobrevivia quem conseguisse comer; e com a pele dos animais caçados, vestiam-se os corpos, para resistir às intempéries e poder buscar lugares de terras férteis e cultiváveis em que a caça – agora não mais apenas para alimento – passou a pertencer ao domínio do sagrado. O sacrifício do cordeiro foi o primeiro grande marco da civilização: era necessário cobrir o sacerdote com a pele do animal, ofertar seu sangue sacrificado à divindade, para pedir bênçãos e colheita farta.

A evolução do tecido na antiguidade   Parte 2

O pêlo do animal tornou-se um material nobre para cobrir o corpo. Seu uso simboliza sacrifício: se não é para Deus, é ofensa cultural ancestral, digna de ser gritada, hoje, em praça pública.

James Laver fala que o drapeado documenta a evolução da civilização, por que o volume e o brilho do tecido numa roupa foi, e ainda é, sinal de status e poder. O desenvolvimento da indumentária se deu por um caminho binário: vestimentas do norte e do sul, do Ocidente e do Oriente, da planície e da montanha, roupas quentes e frescas, tropicais e árticas e finalmente, masculina e feminina.

O Homo Sapiens se vestiu com a pele do animal caçado para alimentar a si e sua família. Tratar a pele para vestir o corpo era função da mulher, que através da mastigação, tornava a pele mais macia. Foi ainda na Pré História que surgiu o curtimento feito com ácido tânico, extraído da casca do carvalho e do salgueiro. Esta técnica é usada até hoje. É importante apontar para o fato de que ela documenta um modo de vestir de povos ainda nômades e habitantes de regiões de florestas densas, onde existem animais e árvores de grande porte como o carvalho. Toda essa tradição ainda existe e é assim que se vestem os esquimós.

A evolução do tecido na antiguidade   Parte 2

O panejamento que acompanhou o deslocamento do Sapiens rumo às regiões de clima temperado foi a feltragem, desenvolvida com fibras animais e vegetais extraídas da casca de amoreira e figueira. No Egito essa técnica deu origem ao papiro e propiciou um têxtil intermediário entre a esteira e a tecelagem.

A tecelagem exigiu abrigo fixo, perto de terras férteis e de bons pastos para as ovelhas.

O linho, o cânhamo, o algodão e a lã, documentam a passagem das culturas humanas do estado nômade para o estado sedentário e agricultor.

Fixos em suas terras, com as fronteiras demarcadas, plantações e animais guardados e protegidos, os Sapiens já humanizados, começaram a guerrear para garantir seu território e conquistar mais.

Vestir o chefe do povo, o chefe da guerra, o chefe da fé e o chefe da família exigiu que de desenvolvessem modos eficientes de tosquiar o velo, fiar a fibra e dos fios tecer o tecido.

Primeiro o tecido, depois a roupa; sarongues, saias, mantos e calças, e por último, os sagrados véus, que são sagrados até hoje, por que sagrados são: o puro linho, o puro algodão, a pura seda e a pura lã.

Roupas curtas, longas, leves, pesadas, com manga, com franja, com brilho e por fim, as calças, roupa de bárbaro, que era vista como sinal alarmante da presença do estrangeiro invasor.

Resto de nômade, bárbaro sem terra, ainda habitava uma cabana que se transportava no lombo de seu cavalo.

Bárbaro isso, coisa de bárbaro, o homem de calça, aquele estrangeiro, que só balbucia a, precariamente, língua local. Atravessando o Vale da Sombra da Morte, entre o Tigre e o Eufrates, em seu cavalo árabe, vinha em caravanas trazendo a tão rara, fina e brilhante seda da China.

Quem era ele? Algum faraó? Não, era um persa, desses mercadores, que no Irã ou no Iraque, até hoje, estão lá.

A essa altura, já História, os homens puderam, não mais nômades, rendendo graça aos deuses, tornar-se sedentários e dedicar-se à agricultura.

Cultivando, plantando, colhendo abundante vegetação capaz de ser transformada em fibras fiáveis, fizeram surgir os tecidos de fibras vegetais nas planícies férteis do Nilo e da Índia.

As ovelhas, além de fornecer o leite para a amamentação das crianças e para a fabricação do queijo, deixavam-se tosar e, de seu pêlo, surgiu a lã – sagrada, no abrigo do homem montanhês, como nos conta a Bíblia na história de Davi, menino pastor, puro, simples, humilde e dócil como as ovelhas que pastoreava, e que conseguiu defender o povo judeu dos reis mercadores que cruzavam a Terra Prometida, a caminho do mar.

Mar em que se encontravam as águas quentes do fértil delta do Nilo, rico em algodão, e as do mar Mediterrâneo, pelas quais os mercadores vindos da Índia, com seus barcos cheios de especiarias e corantes, chegavam aos portos de Alexandria, para ali trocarem o que traziam pela lã dos persas, pelo algodão egípcio e a seda chinesa.

Diferente da moda, o estudo dos têxteis deve partir da evolução da indumentária masculina.

Os chefes de estado sempre usaram os tecidos mais preciosos para representar seu poder.

Os homens que falavam com os deuses sempre se vestiam e se adornavam com a pele e a pluma do animal, tido como o melhor e mais veloz mensageiro entre o homem e as forças da natureza.

A roupa do guerreiro era construída com a melhor tecnologia disponível, para resistir à luta e proteger o lutador em terras distantes, onde a natureza também era uma hostil inimiga a ser vencida.

A evolução do tecido na antiguidade   Parte 2

O soldado romano sintetiza claramente essas características: ele foi o maior emblema do guerreiro da Antigüidade e, com seu escudo, seu coturno de couro e seu elmo, só não venceu a neve dos bárbaros germânicos.

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A Bíblia é um livro sagrado, em cujos cantos e contos está a gênese da história da humanidade e de sua luta para dominar o planeta e conviver, ora em paz, ora de forma predadora, com as belezas e riquezas “criadas em sete dias”. Teimamos em não aceitar, mas esse primeiro documento nos traz não só conceitos religiosos, como ainda a evolução do homem no seu processo civilizatório, primeiro com o corpo coberto por armaduras de couro, lã e placas de metal e, depois, vitorioso em suas guerras, trajando-se soberbamente com sedas orientais, tingidas com corantes minerais extraídos dos mais raros corais do mar Vermelho, turquesas indianas e rubis africanos.

Minha intenção final, aqui, é apontar para esse rico veio documental que está nas Sagradas Escrituras, como material que comprova a importância da evolução têxtil nos modos de viver da humanidade e que, hoje, devem se aliar às questões da ecologia, para que possamos continuar a usufruir, de forma harmoniosa, daquilo que, em SETE DIAS, foi criado para nós de forma tão sagrada.

A evolução do tecido na antiguidade   Parte 2

Para ver as imagens aqui apresentadas com legenda e outras sobre a pré-história clique aqui.

A EVOLUÇÃO DO TECIDO NA ANTIGUIDADE – Parte 1

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Queila Ferraz Monteiro é estudiosa de História da Moda, é consultora de design e gestão industrial para confecção e Professora de História da Indumentária e Tecnologia da Confecção dos cursos de moda da Faculdade Belas Artes, Senac Moda e Universidade Anhembi Morumbi. queilamoda@yahoo.com.br .

Publicação: 14 de agosto de 2006

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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