O surgimento das CYBER GIRLS – Onde tudo começou e a mulher real – Parte 2/3
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Por Goretti Pedroso
A mulher virtual já vinha sendo estudada no decorrer dos tempos. Antes da web ela já povoava o inconsciente dos aficionados pelos cartoons, pelas histórias em quadrinhos e pelo cinema.
Em 1926, Fritz Lang, cineasta representante do movimento expressionista alemão lança Metrópolis, filme de ficção científica que aborda a questão da mulher dentro deste novo contexto do expressionismo alemão.
Ela interage com a película projetando-se na figura de Maria, a protagonista do filme, heroína destemida que exige justiça social em uma sociedade caótica, opressora e claustrofóbica. Esta figura se contrapõe a de sua rival, uma robô construída a sua imagem e semelhança, que quer, ao contrário de Maria, destruir a cidade dos trabalhadores, para que no futuro as máquinas das indústrias sejam operadas somente por máquinas como ela.


Metrópolis – é a primeira vez na história do cinema que aparece uma mulher-robô
É a primeira vez na história do cinema que aparece uma mulher-robô, pois no filme fica evidente o papel de protagonista que as máquinas representam. Na verdade, elas se tornam, de certa forma, mais importantes até mesmo que os próprios trabalhadores humanos, e se localizam em nível intermediário entre a beleza onírica dos “Jardins do Paraíso” e a opressão de concreto da cidade dos operários.
Os trabalhadores operam as máquinas e, por sua vez, as máquinas operam os trabalhadores. Homem e tecnologia estão fatidicamente ligados, numa relação de dependência que ilustra o terror da modernidade frente o pretenso poder dominador da técnica sobre o ser humano, uma certa crença paranóica na sua independência e no seu descontrole.
A desumanização do trabalhador, a formação de hordas de autômatos massacrados pela rotina mecânica e monótona e, escravizados pelo aparelho estão entre os temas presentes no filme, uma preocupação que permeava o início do século e as doutrinas filosóficas, a exemplo do Marxismo. A cena em que Freder tem uma alucinação, e vê trabalhadores sendo literalmente engolidos pela monstruosa máquina em que trabalham, revela uma tecnologia cuja fome de vidas humanas é insaciável.
E a Maria-robô representa, na visão dos personagens de Fritz Lang, e no contexto social tecnológico da era industrial, o trabalhador “ideal”, por mais paradoxal que essa idéia possa parecer.

Desenhado por Erich Kettelhut , Museu do Filme, Berlim , Alemanha.
A Maria-robô representa um papel fundamental como uma das mais poderosas metáforas do filme; ela sintetiza o conceito de uma época, seu posicionamento frente à tecnologia e à “cyborguização”. Ela é perfeita para o modelo industrial de produção: não se cansa, não precisa se alimentar, não faz exigências, não tem sonhos, nem aspirações, não recebe salário, não se rebela… Aparece como um substituto do homem, a máquina ocupando definitivamente o espaço humano nas relações de trabalho, determinantes naquele modelo econômico.
Tudo o que lhe falta é uma alma… E essa é providenciada quando incorpora o corpo da verdadeira Maria, mas nada mais é do que um simulacro, visto que a máquina apenas adquire as suas características exteriores. A aura, a ‘luz’ por trás de Maria, que a santifica e lhe dá o sopro da vida, típica dos filmes do star system, não pode ser fabricada. Ao assumir as feições de Maria e transformando-a em luxuriosa, lasciva, diabólica e mefistofélica ,[1] a máquina suplanta a paciência pela autodestruição.
Com alma ou sem alma, a robô é uma constante ameaça, e ainda que busque a perfeição, nunca passará de uma máquina, pois não possui vontade própria, mas apenas obedece a uma programação pré-determinada pelo seu manipulador, neste caso representado pela figura do cientista, que mantém o estereótipo da ficção científica: é o responsável pelos prejuízos que esta sociedade sofreu e por isso – homem e a máquina – devem pagar um preço, o preço mor dos vilões, a morte. A conciliação final entre senhores e “escravos”, pelas mãos mediadoras de Freder, parece ter se tornado repentinamente possível, uma vez que a robô e seu criador, os representantes da técnica, são destruídos.
Metropolis Maria Murcof
Portanto, Metrópolis sintetiza um momento histórico, onde a mulher da revolução industrial está inserida, principalmente quando ela já iniciou o processo de sua verdadeira emancipação, de sua própria revolução, rompendo fronteiras sociais, econômicas e culturais e está aberta para o futuro, como veremos na Revolução Feminina.
Metrópolis fecha o primeiro ciclo da emancipação feminina. A partir dele, a mulher buscará cada vez mais a sua independência em todos os setores, porque, a seu modo, já havia conquistado espaços antes inatingíveis.
Trabalhou na revolução industrial, na literatura, no teatro, no cinema, na música e na publicidade e foi abrindo caminhos e deixando seu rastro em todas as áreas. Na propaganda, Gerard Lagneau salientava que o culto ao cigarro, na década de 30 e 40, para as mulheres simbolizava liberdade e emancipação feminina. E as campanhas publicitárias eram enfatizadas com o slogan “Escolha e Liberdade para as Mulheres”. Enfim, a mulher consumia e também era consumida como mercadoria nesta indústria cultural.

O culto ao cigarro, na década de 30 e 40: símbolo da liberdade e emancipação feminina
Gilles Lipovetsky (1989:44) entra em cena neste contexto social com a Terceira Mulher, onde salienta que: (…) a mulher finalmente marcou o espaço social da segunda metade do século XX, e há muito deixou de ser uma criação do homem para se instituir como invenção de si “mesmo”.
Ainda complementa que, a partir dos anos 50:
“…mudou mais a condição feminina do que todos os milênios anteriores, porque o belo não é essencial para se valorizar a peça, o belo não é mais privilégio das artes mas da mídia, que o leva a toda parte: há um século, o culto do belo sexo feminino ganhou uma dimensão social inédita: entrou na era das massas. O desenvolvimento da indústria cultural e mediática permitiram o advento de uma nova fase da história do belo sexo: sua fase ‘mercantil/democrática’”[2]
E a propaganda dirigida à mulher introduzia, com o advento do gosto maior pela feminilidade, a idéia de que a beleza não era um bem dado, herdado, que já se nasce, era ao contrário, um bem adquirido que poderia ser conquistado por qualquer mulher, apenas usando os bens corretos: cosméticos, moda e tratamento de beleza.

A partir dos anos 50, o culto do belo sexo feminino ganhou uma dimensão social inédita
Já Ricardo Ramos extrapola o culto ao belo na versão estética da mulher no mundo da propaganda, e será este misto de consciência social e supérfluo que destacará a mulher na revolução feminina dos anos 60, onde a mulher se transfigura no universo da contracultura, como saliento no livro Mulher Virtual:
“Os anos 60, chegaram como um divisor de águas, e trouxeram grandes modificações. Se anteriormente eram poucas as mulheres que conseguiam desenvolver suas potencialidades intelectuais sem terem sobre si os olhos de desconfiança de uma sociedade pouco à vontade, principalmente no que tange à hegemonia masculina, atuante por séculos de ignorância e medo, agora ela estava preparada para dar a virada e assim sucedeu.

Revolução feminina dos anos 60: as mulheres eram pensantes, rápidas e com a mesma capacidade de trabalho dos homens
As lutas empreendidas e os ventos dos novos tempos proporcionaram segurança, força, coragem, enfim um novo modelo de vida e horizontes infindáveis de crescimento e conquistas, pois se observou que as mulheres dos anos 60 eram pensantes, rápidas e com a mesma capacidade de trabalho dos homens; é claro que alguns ajustes teriam de ser efetuados para que se inserissem totalmente dentro dessa nova ‘pele’”.
Na própria história do cinema, veremos que inicialmente a mulher possuía:
“… um papel adocicado, frágil, perene nas tramas, como no endeusamento da mulher e a corte do amor cavalheiresco, nas trovas medievais; elevavam-na a sua sublimação com um interesse muito bem camuflado por galanteios, pois tinham inspiração materialista (a riqueza das viúvas aristocráticas, das moças-velhas e das feias), confrontavam os poderosos dogmas da Igreja (o amor aventureiro e o adultério) como uma forma de compensação para casamentos arranjados, tediosos e fatalmente dados ao fracasso”.
Desde uma análise literária observamos a imagem da mulher de uma forma equivocada, cheia de sortilégios, armações, falsidades e arranjos que a deixavam sem resposta a uma série de sérias e reflexivas questões primordiais para a sua evolução na história.
“Não faz muito tempo que as mulheres eram chamadas de sexo frágil. E como ficavam bravas, dizendo que não eram frágeis e sim tanto, quanto ou ainda mais fortes do que os homens. Pois hoje a situação é a seguinte: ser mulher, com todos os adjetivos que o sexo carrega, frágil, sensível, delicada, ponderada é o ápice do que se pode almejar. Porém, até o seu estereótipo se modificou. De simples donzela tornou-se uma supermulher extraída das histórias em quadrinhos, mas sempre mantendo um avental à mão” ( Priori, 2000, p. 97).
Mais forte em todos os sentidos, é a forma como é menosprezada em vários segmentos da sociedade, refletida em alguns comerciais de propaganda que fazem questão de colocá-la em seu “devido lugar”. Isto fica óbvio em anúncios de produtos de limpeza (OMO, Veja, Cera Líquida), em lanches (danoninho, margarina, pães e bolos), onde o papel principal da mulher como dona-de-casa ainda é levado muito a sério.
Porém, apesar de tantos contrastes na representação de sua imagem, a conquista feminina passou a ter força e a entrar em escala ascendente. Vários fatores contribuíram para o questionamento de valores e sua transformação:
1) o aparecimento do movimento de contracultura, desencadeado pela geração pós-guerra (décadas de 50/60), que proclamou o nascimento do movimento hippie, onde se repudiava qualquer tipo de repressão e se preconizava que qualquer expressão de liberdade e, entre elas, a sexualidade, deveria ser respeitada;
2) o advento da pílula anticoncepcional para a mulher, possibilitando maior autonomia e liberdade sexual.

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Do Ciborgue ao Virtual / Parte 4-4
Por Goretti Pedroso
Jornalista, doutora em Ciência da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo,especializada em Cinema e Moda, é professora do Centro Universitário Belas Artes e da ECA-USP. É autora dos livros Mulher Virtual, Admirável Mundo MTV Brasil e Um Salto na Criatividade.

esqueceu de mencionar que a imagem feminina está cada vez mais prostituída,quue vivemos um momento de retrocesso histórico e que a coisa não está lá muito boa para nosso lado como se sugere…conseguimos migalhas perante as fortes pressões de culto á beleza,glamourização da prostituição e da pornografia,e que a futilidade ainda reina sobre a intelectualidade para muitas mulheres….mas enfim,continuamos em frente.Parabéns pelo texto.
Excelente!!!! Adorei!!! Me fez pensar em muitas coisas da minha atual realidade. Sim, por que ao longo da vida (e da história) as realidades se transformam e rememorá-las é um exercício de auto conhecimento. Obrigada pela oportunidade.