Filme Metrópolis: onde tudo começou e a mulher real – As Cyber Girls- Parte 2/4

Conheça a relevância do clássico filme Metrópolis para o estudo da evolução tecnológica da nossa sociedade no século XX

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A mulher virtual já vem sendo estudada há tempos. Antes da web ela já povoava o inconsciente dos aficionados pelos cartoons, pelas histórias em quadrinhos e pelo cinema. Aqui, conheça mais sobre as Cyber Girls a partir de uma análise do filme Metrópolis, um clássico do início do século XX.

 

Do que se trata o filme Metrópolis?

 

Cena do filme Metrópolis, de 1927, com um cientista a conectar uma mulher com um robô.
Criador, modelo e robô no filme Metrópolis, de 1927. Fonte: Monovisions.

 

O cineasta Fritz Lang, representante do expressionismo alemão, lançou o seu revolucionário filme Metrópolis em 1927. Acima de tudo, esse filme de ficção científica inovou ao abordar a questão da mulher dentro do novo contexto da Alemanha.

A produção traz a figura de Maria, protagonista do filme. Antes de mais nada, ela é uma heroína destemida. Como tal, em uma sociedade caótica e opressora, a personagem passa a história a exigir justiça social.

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Nesse sentido, ela se contrapõe ao seu rival: o robô construído à sua imagem e semelhança. Afinal, ele, ao contrário de Maria, quer destruir a cidade dos trabalhadores para que no futuro a indústria seja operada apenas por máquinas.

Esse foi a primeira vez que uma mulher-robô apareceu na história do cinema.

 

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A ascensão das máquinas

 

Cena do filme Metrópolis, de 1927.
Robô em cena do filme Metrópolis, de 1927. Fonte: Monovisions.

 

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No filme fica evidente o papel protagonista das máquinas na nova sociedade. Nesse sentido, de certa forma, as máquinas se tornam até mesmo mais importantes que os próprios trabalhadores humanos.

Dessa maneira, estão em um nível intermediário entre a beleza onírica dos “Jardins do Paraíso” e a opressão de concreto da cidade dos operários.

Os trabalhadores operam as máquinas e, por sua vez, as máquinas operam os trabalhadores.

Assim, homem e tecnologia estão ligados, numa relação de dependência: de um lado, ilustra o terror ao moderno, e do outro o pretenso poder dominador da técnica sobre o ser humano.

Como resultado, há uma certa crença paranoica na sua independência eu  descontrole.

 

O filme Metrópolis e a leitura do seu tempo

 

Cena do filme Metrópolis, de 1927.
Fábrica em cena do filme Metrópolis, de 1927. Fonte: Monovisions.

 

Entre os temas explorados pelo filme está a desumanização do trabalhador. Além disso, ele também aborda a  horda de autômatos massacrados pela rotina mecânica e monótona e aqueles escravizados pelo maquinário.

Acima de tudo, a produção então trazia a preocupação que permeava o início do século XX, deixando transparecer as correntes filosóficas em vigor, como o Marxismo.

Por exemplo, a cena em que a personagem Freder tem uma alucinação e vê trabalhadores sendo literalmente engolidos pela monstruosa máquina revela uma tecnologia cuja fome de vidas humanas é insaciável.

Desse modo, na visão das personagens de Fritz Lang e a partir do contexto social e tecnológico da era industrial, a Maria-robô representa o trabalhador “ideal” – por mais paradoxal que essa ideia possa parecer.

 

As Cyber Girls – o trabalhador perfeito

 

A Maria-robô é uma das mais poderosas metáforas do filme. Afinal, ela sintetiza o conceito de uma época, a sua posição frente à tecnologia e à “cyborguização”.

Em outras palavras, ela se apresentava perfeita para o modelo industrial de produção: não se cansa, não precisa se alimentar, não faz exigências, não tem sonhos, nem aspirações, não recebe salário, nem se rebela.

Desse modo, essa cyber girl aparece como um substituto do homem. Ou seja, a máquina ocupa de maneira definitiva o espaço humano nas relações de trabalho, que então urgiam naquele modelo econômico.

 

Cena do filme Metrópolis, de 1927.
Cena do filme Metrópolis, de 1927. Fonte: Monovisions.

 

As Cyber Girls – falta a essência humana

 

Tudo o que lhe falta é uma alma. E essa é alcançada quando incorpora o corpo da verdadeira Maria. Entretanto, o feito nada mais é do que um simulacro. Afinal, a máquina apenas pôde adquirir as suas características exteriores.

Ou seja, a aura, a ‘luz’ por trás de Maria que a santifica e lhe dá o sopro da vida, não pode ser fabricada.

 

Cena do filme Metrópolis, de 1927.
Robô em cena do filme Metrópolis, de 1927. Fonte: Monovisions.

 

Como resultado, ao assumir as feições de Maria e transformando-a em luxuriosa, lasciva, diabólica e mefistofélica, a máquina suplanta a paciência pela autodestruição.

Assim, com alma ou sem alma, a robô é uma ameaça. Além disso, ainda que busque a perfeição, nunca passará de uma máquina. Afinal, ela não possui vontade própria, mas apenas obedece a uma ordem definida pelo seu responsável.

Neste caso, quem o controla é o cientista, que mantêm o estereótipo da ficção científica: é o responsável por prejudicar a sociedade. Desse modo, tanto o homem como a máquina devem pagar um preço alto: a morte.

Uma vez que a robô e o seu criador são destruídos, a conciliação final entre senhores e “escravos” pelas mãos mediadoras de Freder parece ter se tornado possível.

 

O filme Metrópolis e a Revolução da Mulher

 

Portanto, Metrópolis sintetiza um momento histórico, onde a mulher da revolução industrial está inserida. Acima de tudo, quando ela já iniciou o processo em direção à sua verdadeira emancipação.

Ou seja, quando rompeu fronteiras sociais, econômicas e culturais e está aberta para o futuro.

Dessa maneira, o filme Metrópolis fecha o primeiro ciclo da emancipação feminina. A partir dele, a mulher buscará cada vez mais a sua independência em todos os setores. Afinal, a seu modo, já havia conquistado espaços antes inatingíveis.

Trabalhou na revolução industrial, na literatura, no teatro, no cinema, na música e na publicidade. Ela foi, assim, abrindo caminhos e deixando seu rastro em todas as áreas.

 

O mercado e as mulheres

 

Por exemplo, Gerard Lagneau salientou que a propaganda da década de 30 e 40 buscou vender o culto ao cigarro para as mulheres como símbolo de liberdade e emancipação feminina.

Assim, a publicidade era enfatizada com o slogan “Escolha e Liberdade para as Mulheres”.

 

Propaganda de cigarros antiga com uma mulher fumando um cigarro.
Propaganda de cigarros antiga. Fonte: Vintage ad Browser.

 

Enfim, a mulher consumia e era consumida como mercadoria nesta indústria cultural.

Gilles Lipovetsky (1989:44) entra em cena neste contexto social com a Terceira Mulher, onde salienta que: (…) a mulher finalmente marcou o espaço social da segunda metade do século XX, e há muito deixou de ser uma criação do homem para se instituir como invenção de si “mesmo”.

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Ainda diz que, a partir dos anos 50:

“…mudou mais a condição feminina do que todos os milênios anteriores, porque o belo não é essencial para se valorizar a peça, o belo não é mais privilégio das artes mas da mídia, que o leva a toda parte:  há um século, o culto do belo sexo feminino ganhou uma dimensão social inédita: entrou na era das massas.”

Assim, “O desenvolvimento da indústria cultural e mediática permitiram o advento de uma nova fase da história do belo sexo: sua fase ‘mercantil/democrática’”.

 

Foto em preto e branco de uma família vendo televisão em 1958.
Família vendo televisão, 1958. Crédito: Evert F. Baumgardner. Fonte: Wikimedia commons.

 

A construção da beleza

 

E a propaganda dirigida à mulher introduzia, com o advento do gosto maior pela feminilidade, a ideia de que a beleza não era um bem dado, herdado, com o qual já se nasce.

Ao contrário, ela seria um bem adquirido que poderia ser conquistado por qualquer mulher. Para tanto, apenas faltaria usar os bens corretos: cosméticos, moda e outros tratamentos de beleza.

Já Ricardo Ramos extrapola o culto ao belo na versão estética da mulher dentro do mundo da propaganda. Para ele, será justamente esse misto de consciência social e supérfluo que destacará a mulher na revolução feminina dos anos 60.

 

Anos de transformação

 

Nessa década, a mulher se transfigura no universo da contracultura, como saliento no livro Mulher Virtual:

“Os anos 60, chegaram como um divisor de águas, e trouxeram grandes modificações. Se anteriormente eram poucas as mulheres que conseguiam desenvolver suas potencialidades intelectuais sem terem sobre si os olhos de desconfiança de uma sociedade pouco à vontade, principalmente no que tange à hegemonia masculina, atuante por séculos de ignorância e medo, agora ela estava preparada para dar a virada e assim sucedeu.”

 

Jovens reunidos a conversar nas ruas de Londres em 1966.
Jovens nas ruas de Londres em 1966. Crédito: The National Archives UK. Fonte: Wikimedia commons.

 

Assim, “As lutas empreendidas e os ventos dos novos tempos proporcionaram segurança, força, coragem, enfim um novo modelo de vida e horizontes infindáveis de crescimento e conquistas, pois se observou que as mulheres dos anos 60 eram pensantes, rápidas e com a mesma capacidade de trabalho dos homens; é claro que alguns ajustes teriam de ser efetuados para que se inserissem totalmente dentro dessa nova  ‘pele’”.

 

A imagem da mulher no cinema

 

Na própria história do cinema, veremos que inicialmente a mulher possuía “… um papel adocicado, frágil, perene nas tramas, como no endeusamento da mulher e a corte do amor cavalheiresco, nas trovas medievais […]”.

Em outras palavras, “[…] elevavam-na a sua sublimação com um interesse muito bem camuflado por galanteios, pois tinham inspiração materialista (a riqueza das viúvas aristocráticas, das moças-velhas e das feias), confrontavam os poderosos dogmas da Igreja (o amor aventureiro e o adultério) como uma forma de compensação para casamentos arranjados, tediosos e fatalmente dados ao fracasso”.

 

A imagem da mulher na literatura

 

Desde uma análise literária observamos a imagem da mulher de uma forma equivocada: cheia de sortilégios, armações, falsidades e arranjos que a deixavam sem resposta a sérias e reflexivas questões primordiais para a sua evolução na história.

“Não faz muito tempo que as mulheres eram chamadas de sexo frágil. E como ficavam bravas, dizendo que não eram frágeis e sim tanto, quanto ou ainda mais fortes do que os homens.”

“Pois hoje a situação é a seguinte: ser mulher, com todos os adjetivos que o sexo carrega, frágil, sensível, delicada, ponderada  é o ápice do que se pode almejar. Porém, até o seu estereótipo se modificou. De simples donzela tornou-se uma supermulher extraída das histórias em quadrinhos, mas sempre mantendo um avental à mão” (Priori,  2000, p. 97).

 

A imagem depreciativa sobre a mulher

 

Entretanto, seguiu sendo muito forte a forma como veio a ser depreciada em vários setores da sociedade. Refletida, por exemplo, em alguns comerciais que fazem questão de colocar a mulher em seu “devido lugar”.

Isto fica óbvio em anúncios de produtos de limpeza e comidas. Neles, acima de tudo, o papel principal da mulher ainda é associado ao serviço doméstico.

Todavia, apesar de tantos contrastes na sua imagem, a conquista feminina passou a ter força e crescer. Vários fatores ajudaram a mudar esses valores:

Em primeiro lugar, o movimento de contracultura do pós-guerra (décadas de 50/60). Acima de tudo, foi ele que trouxe o movimento hippie, onde se repudiava qualquer tipo de repressão e se defendia que toda expressão de liberdade deveria ser respeitada.

Em segundo lugar, o advento da pílula anticoncepcional para a mulher, que possibilitou maior autonomia e liberdade sexual.

 

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Por Goretti Pedroso

Jornalista, doutora em Ciência da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, especializada em Cinema e Moda, é professora do Centro Universitário Belas Artes e da ECA-USP. É autora dos livros Mulher Virtual, Admirável Mundo MTV Brasil e Um Salto na Criatividade.

 

* Matéria originalmente publicada em 2009.

 

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Erich Kettelhut  –  Museu do Filme, Alemanha.

 

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O culto ao cigarro, na década de 30 e 40: símbolo da liberdade e emancipação feminina.

 

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A partir dos anos 50, o culto do belo sexo feminino ganhou mais projeção.

 

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Revolução feminina dos anos 60: as mulheres eram pensantes e tinham a mesma capacidade dos homens

 

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