A liderança e o mundo da idéias. E quem as executa?

A liderança e o mundo da idéias. E quem as executa?

Refletindo sobre um fenômeno nada novo que reúne uma função muito básica do ser humano – a idéia – me dei conta que fico muito incomodado com os excessos de quem as produz e as expectativas envolvidas no processo de suas produções.

O termo idéia pode, como em Platão, designar realidades objetivas, inteligíveis, eternas, imutáveis e transcendentes. Pode também ser definida sob a luz da psicanálise como toda a espécie de representação mental, pensamento, imagem, lembrança, opinião, projeto, intenção, invenção, imaginação, descoberta, ou simplesmente representação intelectual de um objeto.

Na filosofia, o ideal se refere a uma idéia e não a uma realidade empírica. A teoria das idéias, de Platão, é, por vezes, inapropriadamente chamada de idealismo. Na verdade, deve ser considerado um “realismo das idéias”, já que para Platão, as idéias constituem uma realidade autônoma – “o mundo inteligível” – existente por si mesma, independente de nosso conhecimento ou pensamento.

Sem precisar ser muito erudito ou acadêmico a idéia nos reporta a algo pensado, novo, criativo: – Tive uma idéia! Logo se constrói toda uma argumentação para dar sustentação aquela idéia que se transforma em uma opinião defendida e, consequentemente num projeto a ser  executado.

Somos sempre estimulados a ter idéias no sentido de demonstrar nossa criatividade e versatilidade na resolução de problemas. Embora não sejam muitos os que de fato nos apresentam uma idéia original. Podemos citar Darwin e a teoria da evolução; Lavoisier e a criação da química moderna e conservação da matéria; Adam Smith considerado o pai da economia moderna; Freud e a psicanálise; Einstein e a teoria da relatividade; Bill Gates e a Microsoft e Steve Jobs co-fundador e reinventor da Apple Inc.

A liderança e o mundo da idéias. E quem as executa?

Freud criador da Psicanálise

Não precisamos nem mesmo ler suas obras para compreender que cada um dos citados foram trabalhadores árduos, obsessivos em suas pesquisas e a partir de suas idéias realizaram feitos para toda humanidade. Tais feitos os tornaram grandes líderes cujos seguidores se estendem de gerações em gerações.
Poderíamos mencionar outros líderes que são reconhecidos historicamente por seus ideais e obras como Aristóteles, Buda, Galileu Galilei, Martinho Lutero, Karl Marx, Hitler, Picasso, Benjamin Franklin, Melanie Klein, Madre Tereza de Calcutá, Yves Sant Laurent, Lady Diana, Jack Welch e Madonna. Espero que compreendam que não houve nenhum critério na seleção dos líderes citados, tampouco uma intenção em provocar questionamentos sobre o bem e o mal; o sagrado e o profano.

O fato é que estas personalidades da nossa história fizeram algo que as colocaram em um lugar identificatório, lideram e ainda motivam seguidores. Além de suas idéias, cada um deles trabalhou muito para merecer estar nesta lista.

Na contemporaneidade testemunhamos como aqueles que têm ou apresentam uma idéia original são congratulados e se tornam famosos conforme o reconhecimento e a aplicabilidade de suas idéias. Ter idéias hoje é como ganhar na loteria, entretanto sonhar em ganhar na loteria pode descortinar nosso lado egoísta e preguiçoso, enquanto ter uma idéia brilhante e original pode não somente gerar uma fortuna como um status intelectual que nos diferencia do resto dos mortais.

A liderança e o mundo da idéias. E quem as executa?

Desta forma temos a demanda para a fábrica de idéias associado ao evento que contaminou nosso contemporâneo que é o fenômeno da Liderança. Todos nós temos que ser líderes. Se as personalidades acima citadas se destacaram, por que eu não posso me destacar também? Todos temos capacidade para aprender técnicas e muitos líderes para nos identificarmos. Eu particularmente sou testemunha dos contínuos emails nos convidando a tornarmos líderes através de cursos, vivências, experiências e palestras. Os treinamentos corporativos foram contaminados pela motivação de idéias brilhantes e descobertas de lideranças.

Não sou incrédulo e tampouco acredito no líder-nato que logo após nascer é seguido pelos outros bebês desde a maternidade. Mas acredito nas particularidades dos indivíduos que além de suas subjetividades que os tornam únicos, trazem componentes biológicos, genéticos e ambiente favorecedor para desenvolverem seus potenciais.

Diante do que partilho com cada um dos leitores, me faço algumas perguntas: quantas pessoas das quais eu conheço que produzem idéias a todo instante realizam ou exercem algum esforço para que suas idéias sejam realizadas? Quantas das personalidades conhecidas e reconhecidas na história da humanidade participaram de algum curso de liderança?

A partir destes questionamentos, eu começo a perceber com mais clareza porque a atitude de algumas pessoas tem afetado meu humor. Muitos apresentam idéias (a todo tempo), sem nenhum compromisso em realizá-las, mas esperam que um outro as concretizem e, esse outro, pode ser você. É compreensível tal atitude uma vez que ter a idéia parece ser mais nobre do que executá-la. Executar dá muito trabalho.

Sou apreciador das idéias e da criatividade, o processo de criação me fascina, entretanto pensando em um projeto de arquitetura, a criação de uma roupa, a elaboração de um livro, campanha publicitária ou de um filme, me dei conta de que muito trabalho é exigido daquele que teve a idéia e de toda a cadeia produtiva que concretizou essa idéia. Imagine quanto tempo não se gasta para produzir 2 minutos de um comercial ou uma cena de filme.

Talvez o mais difícil de entender e assimilar são as fabulações daqueles que manifestam suas idéias sem nenhuma implicação no trabalho de realização de tal feito. Tudo parece mágico, desta forma basta pensar, ter a idéia, assumir a liderança e arrumar alguém para executá-la.

Você nunca esteve diante de alguém que te diz: – Tive uma idéia fabulosa! – E te conta a história toda. Entretanto, tal pessoa te convida e fazer parte da cena, porém seu papel é fazer com que esta idéia se concretize, uma vez que você tem determinadas habilidades para fazer acontecer. E a conversa continua: – Você não pode entrar em contato com quem você conhece, rever este material, colocar tudo isso no papel, organizar x,y,z… E em alguns momentos sem que você perceba, o problema da execução foi todo terceirizado para você. Entretanto, na realidade nossos recursos são escassos: tempo, espaço, dinheiro, capacidade intelectual, dentre outros fatores que levam uma vida para se desenvolver.

As idéias são boas quando temos alguém para realizá-las, e por uma cadeia de associações, faço uma relação com o fato de muita gente estar dedicando tanto tempo e dinheiro em cursos de liderança, uma vez que sendo um líder, poderá ter todas as idéias que quiser a medida que seus seguidores a executam.

O fato é que precisamos de gente dispostas a fazer, trabalhar, botar a mão na massa e realizar. Tem sido cada vez mais difícil recrutar pessoas, pois todos querem ter idéias, mas poucos querem transformar as idéias em produtos e serviços, poucos querem executar, uma vez que executar exige tempo, dedicação, estudo, investimento financeiro e emocional.

A liderança e o mundo da idéias. E quem as executa?

As pessoas envolvidas somente nas idéias e não comprometidas com a execução, não se conscientizaram de quanta energia é despendida na realização de um projeto ou de qualquer tarefa, agem como em um delírio acreditando que tudo se realiza em um passe de mágica, tendo em vista que o outro se encarregará da execução. Tal atitude diante da vida é pueril e descompromissada com a realidade.

Penso também que na contemporaneidade a atividade mental (obsessiva) de muita pensação é valorizada, e muitos inconscientemente preenchem com essa atitude as lacunas de suas vidas que não podem ser pensadas e preenchem com um mundo de idéias os vazios existenciais.

Se alguém me disser: – Tive uma idéia! Eu vou sempre perguntar: – Como VOCÊ as realizará?

Não pense muito sobre isso! Este texto foi apenas uma idéia que eu tive.

Por Carlos Alberto Alves e Silva

A liderança e o mundo da idéias. E quem as executa?

Publicação: 2 de julho de 2009

AUTOR

Psicanalista e economista, com pós-graduação em Administração pela USP e Marketing pela ESPM. Tem MBA em Gestão Internacional pela Thunderbird School of Global Management‚ Arizona‚ USA e formação nas áreas de Psicologia e Filosofia.

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