Escritores e Amantes

Escritores e Amantes

 Pensar em algo é sempre tão fácil e tão fluido. É, pelo menos, mais fácil do que escrever. Um simples parágrafo, por exemplo, demanda tempo e esforço para traduzir o pensamento que sempre vem pronto, mas que nunca tem as palavras adequadas para ser escrito.

Depois de muito rascunhado e de muitas vezes reescrito, no texto ainda se encontra vários pontos que precisam de ajustes e que muitas vezes fazem com que a idéia escrita não se pareça com aquela pensada. Dentre as dezenas de rascunhos – que são, nada mais, do que tentativas e erros – alguém há de conseguir uma combinação com as mesmas palavras que já foram escritas milhões de vezes e que desta vez escreverão algo completamente novo.

Este relacionamento de escritores e letras em nada difere dos relacionamentos entre pessoas. Em ambos os casos é um grande labirinto sempre esperançoso de encontrar o par ideal (ou perfeito). E assim como as palavras que somem da mente tornando-se dificultosas, as pessoas que demandarão certo “trabalho” para dar certo, também são trocadas. Curiosamente, e porque será? Eis a questão. Palavras que somem e pessoas que não dão certo são substituídas invariavelmente por sinônimos. E se isso não faz parte apenas de um acaso ou de uma brincadeira do destino, a questão e a resposta a esta repetição está em nós mesmos quando substituímos o “errado” por outro estranhamente “errado” mais uma vez.

O escritor persegue dentro das mesmas usuais palavras algo maravilhoso. Os amantes esperam do outro o frescor, o beijo ardente típicos da primeira vez. É difícil aceitar que a primeira vez só aconteça uma vez. Esta sensação tão devastadora e marcante é sempre e tão somente a materialização daquilo que eu quero, o que é bem diferente daquilo que preciso.

É mais fácil conseguir visualizar aquilo que quero, podendo traduzir este querer em seu objetivo. Já o que preciso nem sempre tão agradável e nem mesmo tão fácil ser compreendido. Há sempre alguém que sofre com ciúmes, com suas finanças, com não saber dizer não. A única coisa certa é que todos precisamos de aprendizado e de limites. Para quem adora consumir o desejo é um cartão de crédito sem limite, a frustração e o arrependimento virão logo nas primeiras faturas. O que se precisa, portanto, é consciência e contenção até se descobrir a causa de tamanha ansiedade.

Desta mistura de dois mundos que são os relacionamentos os pontos de vista, as experiências e origens diferentes podem dar, na maioria das vezes, o que é preciso para atualizar e melhorar a versão. Nada mais natural, já que você está com quem escolheu e vice-versa, isso seria como um trabalho voluntário sem esperar nada em troca. Mas como a prática demonstra, não é nada natural. A única coisa naturalmente provável é que o egoísmo esteja desesperadamente almejando somente o que eu quero e em contra-partida tornando invisível o que eu preciso, fazendo com que o meu querer anule completamente minha necessidade. 

Que presente melhor alguém poderia lhe dar se não a possibilidade – ainda que eu não queira aceitar –  de ter sua versão atualizada, revista e melhorada? Para o escritor a sua medição está na resposta dos leitores e na crítica. E para os amantes, onde está sua medição? Para o escritor que foca em resultados, o número de edições é um bom parâmetro. Para os amantes que apenas buscam satisfazer o que eu – quando se é egoísta – ou ele – quando se é generoso, mui generoso – quer, se adaptando ao desejo do outro, este ceder sem critério que a primeira vista que só se faz para agradar, fará com que não presenteie o outro com o que seria o melhor presente, ou seja, sua necessidade. Depois de anos a fio sabemos o resultado. O passo seguinte é substituir o errado pelo errado novamente. Onde estará o erro?

Para quem escreve ler e reler, rabiscar e alterar, iniciar e desistir, reiniciar e ir até o fim é parte de sua rotina tanto quanto parte do seu prazer, outra parte é ser lido e mais ainda, comentado. Nos relacionamentos a busca tem que ser a inspiração do outro para nos presentear com algo que nem ele mesmo saiba ser possível entregar. Lembra-se, quando apaixonado, ria sozinho e o dia ainda que frio e nublado era um dia maravilhoso? Como é que alguém conseguiu te presentear com uma sensação tão arrasadora e intensa?

Depois de algum tempo – algumas vezes bem pouco tempo – há um constrangimento de ler palavras que são tão singelas, e que agora parecem estúpidas de tão inocentes e que poderiam ser tão melhores se eu as tivesse escrito hoje. Mas são somente por estas centenas de tentativas e erros que tanto os textos quanto as pessoas chegaram na sua versão atual e melhorada. Não há, portanto, do que se lamentar do passado.

Somos todos escritores, apesar de que, muitos nada escrevem.

Somos todos amantes, embora muitos nada amam.

Escritores e Amantes

Por Vinícius Moura

Publicação: 5 de março de 2008

AUTOR

Vinicius é empresário do setor de auto-peças.

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