O surgimento das CYBER GIRLS – Do Ciborgue ao Virtual / Parte 4-4

O surgimento das CYBER GIRLS   Do Ciborgue ao Virtual / Parte 4 4

Por Goretti Pedroso

A diferença crucial entre o ciborgue (anômalo) e o virtual é o contexto pré-estabelecido. De um lado temos um ser gerado pela genética transformista da ciência e do outro lado temos a ciência da computação formatada em números, tabelas, algoritmos, ligações materiais e virtuais que possuem como único objetivo: formar um ser ideal que possua inteligência, capacidade, força de trabalho, altivez, bom humor, mas principalmente beleza.

O Belo não pode simplesmente ser uma, manifestação da verdade, como enfatiza Hegel. O Belo se destaca por si só. Ele chega e a sua beleza, construída ou natural, chega de forma única, inusitada e se destaca perante aquela massa homogênea quase imperceptível.  Já Kant conceituou a beleza como uma forma universal, irrestrita e utilizada para o prazer do Belo de qualquer forma, tamanho e dimensão.

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“Cada um chama de agradável o que lhe satisfaz, Belo é o que lhe agrada, Bom o que aprecia ou aprova aquilo a que confere um valor objetivo”.

Na verdade, ele tentou constitucionalizar um conceito que já vinha sendo pesquisado sem muita definição por pintores, escritores, atores, dramaturgos. Um conceito que nasceu nas cavernas. Kant em sua época somente liberou o conceito da representação da beleza e disseminou a idéia para o mundo pensante vigente naquela sociedade. Porém, desde o princípio, a beleza foi construída e ditada por alguns que sintetizavam o pensamento e manipulavam a opinião pública através de ideais um tanto conservadores.

Estes conceitos foram mudando e as mulheres em sua crescente e popularesca ascensão na sociedade buscaram sempre mais e o que ocorreu de fato foi uma perda de si mesma em todos os segmentos. Iniciou-se uma nova era, a era da transformação do orgânico em um semi-orgânico. Próteses de silicone, enxertos de botox tomaram seus postos e se colocaram a disposição para mascarar que vinha sendo marcado pelo corpo. A mulher foi se franksteinizando e se tornando uma paródia de si mesma. Com o desenvolvimento da tecnologia na automação, novos softwares foram se somando na grande trajetória de transformar a mulher em algo também ciborguético, anômala. Como explica Baudrillard:

“Com a digitalização do mundo, a imagem age como um modelo dinâmico de construção do conhecimento sobre o real (e de construção de um novo ‘real’). (…)  O modelo digital é assim mais real do que o real, fazendo desse a vítima de um crime (quase) perfeito”

O original não existe, pois a referência do real é substituída por algoritmos matemáticos que alteram a matriz ao seu bel prazer, fabricando uma sucessão de cópias que se alteram de uma versão para outra mais atualizada.

A única verdade existente nesta beleza feminina é a da manipulação dos dados numéricos. Este ser dotado de inteligëncia já semi-artificial tentará se equiparar a sua avatar que habita o espaço virtual ou ciberespaço, que foi muito bem conceituado pelo pensador francês Pierre Levy. Segundo ele, o virtual é uma nova forma de ser, cuja compreensão pode ser facilitada se considerarmos o processo que leva a ele: a virtualização. Traduzindo: quando nos deparamos com a semente de uma árvore podemos entender que já existe ali o potencial de uma árvore. Este potencial se atualiza no momento em que de fato se transforma em árvore. O possível associa-se ao real, na medida em que aquele é este sem existência. A realização, passagem do possível para o real, portanto, não envolve nenhum ato criativo. É uma conseqüência natural se analisarmos de forma lógica.

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O mágico do processo está em lidar com as possibilidades. De fato, algo não existe, mas passa a existir a partir do momento em que trabalho para que esta realidade passe a existir. Levy, em suma, almeja fazer a migração entre o par de conceitos possível X real para a dupla virtual X real, é conseguir associar ao processo de atualização o devir, com a interação entre o atual e o virtual. Como complementa: “O real assemelha-se ao possível, em troca o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe” (Levy, 1996, p.17).

O ciberespaço pode ser, em síntese uma virtualização da realidade, uma migração do mundo real para um mundo de possibilidades, de interações virtuais. Aparece em cena, neste momento, a desterritorialização, onde não existe um território físico, material e sim uma gama de variáveis e escolhas.

Esta migração a uma nova noção de espaço-temporalidade se dá de maneira natural. Não é um choque para as recentes gerações lidar com distintas realidades virtuais que passam a fazer parte do seu cotidiano. Comunidades virtuais funcionam atualmente como o quintal da casa dessas gerações, como um espaço público como praça, clube, rua… descobrindo, desbravando novos conceitos, novos códigos comunicativos.

E o ciberespaço gera uma nova maneira de trocar, de se relacionar, de correr novos mundos, assim nasce a cibercultura, que mexe de maneira definitiva com o imaginário coletivo, transformando e mesclando a natureza humana com a tecnologia.

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Pierre Levy questiona e defende uma inter-relação muito próxima entre subjetividade e tecnologia. Esta influência atua de forma determinante e irreversível, na medida em que fornece novos referenciais na maneira de interagir com o mundo. A partir de agora, passa a existir a “tecnologia intelectual”, onde o registro de uma nova memória coletiva passa a determinar novos discursos. As noções de tempo e espaço das sociedades humanas são afetadas pelas diferentes formas de interagir e este registro passa a ser documento. Um documento facilmente acessado, pois está na memória, extensivo ao seu corpo, alguma espécie de terminal, seja um computador, um celular, um palm, um ipod, entre outros.

“No caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente”. (Levy, 1995, p.118).

O que disponibilizou esta grande biblioteca virtual foi o fato da nossa memória se desmaterializar perante uma realidade ainda em transformação. Com o surgimento das ferramentas da informática, os olhos do mundo focaram um novo modo de vê-lo:

“(…) vivemos hoje em dia uma destas épocas limítrofes na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda pouco estabilizados” (Levy, 1995, p. 17).

Se a representação do mundo se modificou, a representação da mulher também, principalmente na internet. Nasceram as musas em pixels. Perfeições femininas criadas por softwares de última geração, onde se vê nitidamente o ideal de beleza feminino sendo armazenado e manipulado em banco de dados.

São arquétipos femininos plastificadas, irretocáveis, incansáveis, insuperáveis, e porque não, insuportáveis. Mais reais que o próprio real. Vê-se aí, uma mudança de paradigmas e uma inversão de valores, pois a mulher orgânica passa a cobiçar o corpo composto de tabelas e algoritmos.

Ela é virtual, artificial e desumana, dentro de toda a maleabilidade da imagem digital, condicionada em seu suporte virtual no qual está tranqüilamente instalada em seu reino de interação digital facilitada pelos códigos binários no qual é armazenada. Pode-se concluir que o modelo binário está redefinindo a cultura contemporânea. “(…) a tecnologia digital não respeita os limites existentes, sejam eles espaciais, temporais conceituais ou profissionais”

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Formas perfeitas, lábios recheados e uma sensualidade transbordante são os ingredientes básicos na formatação deste novo conceito feminino. Um novo jeito de ser virtual. Como toda moda, esta lança mão do próprio corpo e o coloca a prova na base de experimentos. Nunca um ideal feminino, como o virtual, a simulação do real, foi tão copiado, cobiçado, literalmente almejado como neste momento da história. Quantas mulheres almejam ser uma Lara Croft, uma Weebie Tokay , renovando constantemente suas próteses de mamas, de glúteos de silicone. Enxertando botox sem saber se é prejudicial à saúde.

Jean Baudrillard reage de maneira enfática e com certo pessimismo em relação a proliferação de simulacros indistintos nesta pós-modernidade, a partir de redes informático mediáticas. Longe de nos informar, estas redes refazem o mundo à sua maneira, produzindo a indústria do espetáculo em um real mais que real, performático. Como André Lemos aborda: “As novas imagens digitais não mais representam o mundo; elas digitalizam o real. A imagem de síntese é um ‘simulacro’ do digital”.[9]

Estamos assistindo a algo mais do que a beleza; algo mais sublime do que o natural. É a representação do corpo unicamente como aparência; inversão da imagem do Belo que “agrada universalmente e sem conceitos” (Kant). É a gênese da super-mulher, da super-fêmea, da super-máquina, da metamorfose constante da ciborguização e da franksteinização no movimento constante de enxertar, cortar, tirar, colocar, esculpir corpos que necessitam frenéticamente se conservarem jovens e viris, perfeitamente conservadas numa plasticidade mórbida, bem ao estilo da criadora de máscaras mortuárias do século XVIII, Madame Tussaud, que transformou seu solitário e funesto ofício, em arte.

O surgimento das CYBER GIRLS   Do Ciborgue ao Virtual / Parte 4 4

Por Goretti Pedroso Jornalista, doutora em Ciência da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo,especializada em Cinema e Moda, é professora do Centro Universitário Belas Artes e da ECA-USP. É autora dos livros Mulher Virtual, Admirável Mundo MTV Brasil e Um Salto na Criatividade.

Leia também:

O surgimento das CYBER GIRLS – A realidade inorgânica ao seu alcance – Parte 1/4.

O surgimento das CYBER GIRLS – Onde tudo começou e a mulher real – Parte 2/4.

O surgimento das CYBER GIRLS e a História da Mulher Real – A liberação muda a imagem da mulher – Parte 3/4

Publicação: 14 de maio de 2009

AUTOR

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.

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