Cool Hunting (Caçadores de Tendências) – Mitos, Verdades e Moda Brasileira

Cool Hunting (Caçadores de Tendências) – Mitos, Verdades e Moda Brasileira

Acabo de participar de um curso sobre Cool Hunting em Milão, com o time do Future Concept Lab (FCL) na Domus Academy e vou dividir com vocês um pouco do que foi discutido.

A primeira idéia interessante e a mais importante é a de que, hoje, os 4P´s do marketing tradicional se transformaram em people, place, plan and projects, sendo assim, estes devem ser os pontos de partida para qualquer análise.

People – pessoas

Place – locais

Plan – idéias

Projects – mecanismo social e iniciativas do setor público

Falar de Cool Hunting virou moda: nós imediatamente ligamos a uma atividade desenvolvida por uma pessoa que viaja o mundo todo, ao emprego dos sonhos, aos Jet Setters. No entanto, não é exatamente dessa maneira que funciona o trabalho sério de um Cool Hunter. Trata-se, na verdade, de uma atividade a qual faz parte de um complexo projeto de pesquisa multidisciplinar combinando semiologia, antropologia, etnografia e pesquisa de observação.

O Cool Hunter que trabalha para o Future Concept Lab, por exemplo, é uma pessoa que mora no local de observação, trabalha no mesmo lugar, é estável, ou seja, alguém que consegue captar o “Genius Loci” da cidade em que vive. “Genius Loci”  é uma expressão que deriva do latim  e representa o “espírito” que existe em cada lugar, ou seja, a dinâmica da cidade, sua energia, o comportamento das pessoas, o dia-a-dia, etc.

Cool Hunting (Caçadores de Tendências) – Mitos, Verdades e Moda Brasileira

Por exemplo, se você está planejando ir a Milão em agosto e analisar o que os milaneses usam nas ruas durante o verão, pode ter uma visão bem distorcida, já que em agosto praticamente todos os italianos estão fora do país, principalmente os da cidade de Milão, pois é o período de suas férias “sagradas”. Assim, você encontrará alguns turistas ou imigrantes, mas não os milaneses. Aí se mostra a importância de se conhecer muito bem o local de estudo e de ter uma idéia prévia de como é a dinâmica da cidade, ou seja, conhecer o seu “Genius Loci”.

Para entender e interpretar o comportamento das pessoas é necessário partir da observação e análise da vida real dos indivíduos, de forma a captar o modo pelo qual eles se diferenciam da massa homogênea, captar a relação entre sua personalidade, seu corpo e sua energia pessoal. Nessa perspectiva, os sinais das ruas e o Cool Hunting adquirem um papel estratégico, a fotografia compõe como uma ferramenta eficaz de observação. Intuição é muito importante para este trabalho, as fotos devem ser espontâneas, ou seja, mais reais e naturais possíveis. O Cool Hunter deve estar perto da realidade e participar da energia do dia-a-dia constantemente e com uma visão de 360 graus.

Cool Hunting (Caçadores de Tendências) – Mitos, Verdades e Moda Brasileira

O Cool Hunter é:

Jovem

Criativo

Normalmente free lancers

Vive e trabalha na cidade que observa

Curioso

Intuitivo

Observador de sinais não convencionais

Bom fotógrafo

Como trabalham:

A partir de um briefing, o primeiro passo é mapear a cidade de estudo, identificando os pontos “hots” e “cools”.

A segunda etapa é discutir, com o time do FCL, suas hipóteses, definir o tipo de análise e escolher por onde começar.

O próximo passo é utilizar a técnica dos 4p´s, observar e fotografar people, place, plan and projects.

Os Cool Hunters fazem a observação do cotidiano e criam reports recheados de fotos e anotações. Foi dado um exemplo bem interessante: com um caderninho na mão um grupo de pessoas pré-selecionadas anotava todos os dias as coisas que as deixavam felizes. Podiam ser fotos, frases, pensamentos ou alguma coisa que iria acontecer naquele dia. Foi produzido, desta forma, um material muito rico, pois no ambiente doméstico onde as anotações foram feitas, apareceram muito mais do que desejos, e sim intimidades, que em uma pesquisa de perguntas e respostas, certamente não seria tão fácil de conseguir.

Cool Hunting (Caçadores de Tendências) – Mitos, Verdades e Moda Brasileira

Ouvi, em Milão, muito sobre a observação do grupo dos países emergentes (BRIC, Brasil Rússia, Índia e China). Para eles, nessas nações, estão surgindo novos movimentos na sociedade, logo, os europeus têm muito interesse, pois nesses lugares as coisas mudam e têm energia. Na Europa a sociedade é mais tradicional, ou seja, está estabelecida e não existe tanta mudança brusca. Segundo os estudos do FCL, o Brasil é um país a ser observado em termos de sustentabilidade e simplicidade. A criatividade do brasileiro foi ressaltada como ponto forte.

No Brasil:

– Para os jovens brasileiros a T-Shirt representa uma metáfora da simplificação e um instrumento de comunicação para expressar de modo direto sua energia vital.

– O uso de material alternativo representa uma fonte natural de criatividade.

– O mix cultural oferece ao Brasil uma rica referência estética.

– As místicas praias brasileiras representam o teatro para expressar a vitalidade do corpo.

– A sofisticação que caracteriza a nova projeção brasileira se exprime na moda com simplicidade e refinamento.

É aquela velha questão que nos perguntamos sempre: O Brasil tem identidade de moda? O que posso afirmar é que os europeus acreditam que sim. Eles estão com a atenção voltada para nós.

Fonte:

MORACE, Francesco. Real Fashion Trends: Il manuale del cool hunter. Milano: Libri Scheiwiller, 2007.

www.futureconceptlab.com

Instituto avançado de pesquisa de tendências de consumo. O FCL conta com correspondentes em 50 países, incluindo Brasil, tem como clientes empresas como Alessi, Artemide, Illy, Olivetti, Swarovski e Wella, Coca-Cola, Nokia, Lancome, L’oreal, no Brasil a Havaianas e O Boticário.

Fotos: 10 Corso Como e Bienal de Veneza

Por Alessandra Gimenez


Publicação: 23 de setembro de 2009

AUTOR

Alessandra Janaudis Gimenez é pós-graduada em Ciências do Consumo pela ESPM e em Moda e Criação pela Santa Marcelina. Cursou Cool Hunting em Milão na Domus Academy, programa em parceria com a Central Saint Martins e o instituto de pesquisa Future Concept Lab. Hoje atua como buyer na Adar Millenium. É importadora de tecidos para o mercado de moda, teve passagens também pela Cia Hering, Vicunha e Rosset.

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