A SEDA: origem, história e características do tecido mais nobre do mundo

Sendo um dos produtos mais disputados e valorizados no mundo, conheça as propriedades e a história da SEDA: o tecido mais nobre que existe.

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Se a moda dá um grande destaque ao uso da seda, vamos falar um pouco sobre o que afinal é a seda. Esse é atualmente um dos tecidos mais imitados no mundo, seja por meio de fibras sintéticas, como a poliamida e o poliéster, como por fibras artificiais como a viscose.

Entretanto, ainda que se tente imitá-la, essas alternativas jamais terão o mesmo glamour que a seda.

 

Exibição de peças de estilistas chineses contemporâneos no China National Silk Museum.
Exibição de peças de estilistas chineses contemporâneos no China National Silk Museum. Fonte: PR Newswire.

 

O setor da moda viveu um grande boom a partir de meados do século passado. Com ele, veio não só o aumento do número de profissionais, espaços e empresas dedicadas à produção de roupa, como também o lançamento de novos e inovadores materiais.

Por outro lado, em um contexto no qual existe uma imensa variedade de tecidos artificiais, vivemos o fênomeo inverso: a redescoberta e valorização das fibras naturais e da produção sustentável. Contudo, entre produtos como o algodão e o linho, aquele que segue sendo sinônimo de luxo é sem sombra de dúvida a  seda.

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Conheça com mais detalhes qual o processo de obteção e as peculiaridades desse tecido, um dos produtos mais desejados e buscados da história da humanidade.

 

A descoberta da Seda

 

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Antes de mais nada, a seda carrega um ar de nobreza.

Há até mesmo um certo folclore em torno da sua história. O pensador e filósofo chinês Confúcio (551-479 a.C.) teria ajudado a divulgar a ideia de que o material foi descoberto pela imperatriz chinesa Hsi-Ling-Shi (ou Leizu) no século XXVII a.C.

 

Senhoras da corte preparando a seda, entre 1100 e 1133.
Senhoras da corte preparando a seda, entre 1100 e 1133. Crédito: Museum of Fine Arts. Fonte: Wikimedia commons.

 

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A lenda se popularizou. Ela conta que a esposa do Imperador Amarelo se deparou com um casulo do bicho-da-seda dentro da sua xícara de chá ao tomá-lo debaixo de uma amoreira.

Assim, ao puxar a ponta de fio do casulo após ele ter sido amolecido pela água quente do chá, ela fez com que o fino fio de seda se desenrolasse, espalhando-se pelo jardim.

 

  • Depois, veja também O Algodão: história e características da fibra natural mais usada na moda.

 

O primeiro experimento

 

A imperatriz então se deu conta de que a origem desse fio fantástico era o tal casulo. Como experimento, ela recolheu outros casulos e fez novamente o mesmo processo: emergir-los no chá quente.

Tendo-se amolecido e soltado novamente os fios de seda, Hsi-Ling-Shi os enrolou em seu próprio dedo, fazendo com que se mantivessem nessa nova forma.

 

Mulheres esticando os fios de seda.
Mulheres esticando os fios de seda. Fonte: Revista Macau.

 

Encantada, ela teria pedido ao marido um bosque inteiro de amoreiras. O objetivo era criar as larvas que produziam o casulo em maior quantidade.

Com a finalidade de tratar o material assim como havia feito em seu dedo, ela também teria sido a responsável por inventar a bobina de seda. Com a ferramenta, os finos filamentos então se uniam em um único fio, que era resistente o suficiente para ser usado na tecelagem.

Como resultado, a imperatriz teria assim produzido um fino manto de seda para o imperador.

 

Entre lenda e realidade

 

Não se sabe até que ponto essa história é verdadeira ou pura fantasia. Seja como for, os historiadores estão de acordo de que a China foi a primeira civilização a utilizar a seda.

Se foi a imperatriz ou não quem a descobriu, o fato é que a técnica de obtenção do produto e o seu uso se difundiu pelo território chinês. Desde então, ela permaneceu por séculos como um dos seus principais tesouros.

Afinal, os chineses tiveram a exclusividade de produção da seda por milênios.

Posteriormente, vendo o seu potencial entre os europeus e outros estrangeiros, o governo chinês teria determinado medidas para prevenir tanto a saída de ovos do bicho-da-seda da China, como do conhecimento sobre a sua produção.

Sendo um material diferenciado e de dificil confeccção, o seu uso estava limitado à família Imperial e aos nobres chineses. Assim, desde o princípio, a seda foi destinada para o uso em roupas e objetos de luxo.

 

Características únicas da Seda

 

Em outras palavras, a fibra proveniente do cultivo do bicho-da-seda é um dos mais nobres materiais que o homem utilizou para a fabricação de fios e tecidos.

O seu brilho e toque únicos são a principal marca da seda. Afinal, os seus filamentos são um dos mais finos que conhecemos na natureza. Além disso, essa é uma fibra bem resistente, que absorve a umidade e o suor. Dessa forma, o material se adequa aos climas mais quentes, ou mesmo à “meia estação” como a que temos no Brasil.

Mas, acima de tudo, a qualidade mais expressiva da seda é mesmo a imagem nobre que ela carrega desde a época da sua descoberta, mantendo-se como um material muito  desejado por centenas de anos.

 

Ilustração chinesa de mulheres produzindo a seda.
Ilustração chinesa de mulheres produzindo a seda, de 1696. Fonte: History Today.

 

Um segredo muito bem guardado

 

Ainda que tivesse se tornado muito conhecida no mundo, a China manteve a produção da seda em segredo por muito tempo.

Por exemplo, os romanos acreditavam que o material era extraído da fibra de uma árvore.

Assim, desejando obtê-lo, mas sem conseguir de fato encontrar a resposta sobre a sua origem, restava apenas importá-lo da China através dos Persas – então no meio do caminho entre o Extremo Oriente da Ásia e a Europa.

Não há uma data concreta sobre quando o comércio nessa escala teve início. Todavia, o melhor indicativo é o registro da chegada dos primeiros casulos de seda em Roma, que datam do século VI d.C.

 

A Rota da Seda

 

O termo “Rota da Seda” se popularizou apenas no século XIX, quando o geógrafo alemão Ferdinand von Richthofen utilizou o termo em um dos seus artigos. Seja como for, o importante sistema de rotas comerciais entre a Europa e a Ásia que se conhece por esse termo foi um dos mais complexos e duradouros do mundo.

Contudo, ainda que a rota enalteça o nome da seda, esse não foi o único produto comercializado. Afinal, o percurso era praticamente todo percorrido por via terrestre, incluindo a passagem por diversas cidades e povos.

Assim, ele englobava a troca de muitos outros produtos, como a canela, o marfim, o vinho, animais, etc.

 

Mapa da "Rota da Seda" na Ásia.
Mapa da “Rota da Seda” na Ásia. Fonte: Ibrachina.

 

Apesar disso, a seda era o produto que mais se destacava. E, como foi dito, o seu valor crescia não apenas porque esse era um tecido nobre e especial, mas também porque apenas os chineses conheciam a sua origem e modo de fabricação.

Assim, dentro de um esquema que ligava grande parte do mundo por meio do comércio, o tecido se destacou como um dos produtos mais desejados do mundo.

Como resultado, cada vez mais aventureiros e comerciantes se motivavam a rumar caminho à China.

 

 

Uma longa história

 

Foi por meio da Rota da Seda que o Oriente entrou em contato pela primeira vez com as culturas europeias, principalmente a greco-romana. Assim como o contrário, os europeus então passavam a conhecer com mais detalhes os grandes impérios asiáticos.

Até então, o contato do império chinês se dava apenas com os seus vizinhos, como o império mongol e o persa.

 

Em seguida, leia também:

 

Afresco encontrado em Pompéia de uma figura vestida em seda, século I.
Afresco encontrado em Pompéia de uma figura vestida em seda, século I. Crédito Museu Nacional de Nápoles. Fonte: Wikimedia Commons.

 

Dentro dos vários trajetos que constituíam essa rota estavam alguns dos mais importantes polos comerciais e culturais do mundo, como era o caso de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia). Entre os país atuais que faziam parte do percurso estão a Grécia, a Itália, a Turquia, a Síria, o Iraque, o Iran, a Índia, a Mongólia e, claro, a China.

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Na Idade Média os nobres chegaram a trocar um quilo de ouro por um quilo de seda! Ou seja, a seda cruzava por terra caminhos intermináveis para ser comercializada, e a sede pelo produto só crescia.

Marco Polo (1254-1324) é o viajante italiano mais famoso que percorreu a Rota da Seda. O grande motivo da sua fama são as suas aventuras entre a Europa e a Ásia,  narradas por ele no livro “As Viagens de Marco Polo”.

 

Roteiro da viagem de Marco Polo.
Roteiro da viagem de Marco Polo. Fonte: Ebiografia.

 

O livro fez muito sucesso na Europa, tendo alimentado a imaginação de monarcas e aventureiros ao longo dos século. Além disso, ele serviu de referência àqueles que se lançaram na expansão marítima portuguesa a partir do século XV.

 

 

A expansão marítima portuguesa e a Seda

 

Durante o século XVI, quando o império português vivia o auge da sua expansão, iniciou-se um novo caminho em direção à Ásia: então se explorava o trajeto desde Lisboa, cruzando a África pelo Cabo da Boa Esperança até a Índia, feito primeira vez conquistado em 1498 por Vasco da Gama.

Ainda que esses territórios não fossem desconhecidos, o contato era quase que exclusivamente feito por terra com as populações mais ao norte, no interior.

Assim, a partir da Índia, os comerciantes, navegadores e missionários religiosos a serviço do rei português seguiram para outros territórios.

 

Parte de um biombo japonês ilustrando a chegada do navio português no Japão, século XVII.
Parte de um biombo japonês ilustrando a chegada do navio português no Japão, século XVII. Fonte: Christie´s.

 

O mais distante deles foi o Japão, onde aportaram a primeira vez em 1543.

Por volta do mesmo período os portugueses finalmente conseguiram firmar um entreposto comercial às portas da China, em Macau.

Tendo justamente como base o comércio da seda, a rota da Nau-do-Trato (ou do Kurofune, o Barco Negro) entre Macau e Nagasaki foi uma das mais lucrativas do império. O produto, assim, se tornou indispensável para o sucesso do império português.

 

Parte de um biombo japonês mostrando a venda da seda, século XVII.
Parte de um biombo japonês mostrando a venda da seda, século XVII. Fonte: Christie´s.

 

Assim, passados anos, os navios portugueses finalmente chegavam à Europa carregados dos produtos mais requisitados e valiosos no mercado europeu: a porcelana, as especiarias e, claro, a seda.

 

  • Curvelo, A. “A Bordo da Nau do Trato”. In Uma História de Assombro: Portugal-Japão séculos XVI-XX. Lisboa: Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), 2018. pp. 34-39.

A Seda, sinônimo de luxo no mundo

 

Independetemente das rotas que tomou, a seda se consagrou como um tecido nobre em todo o mundo.
Desde o período moderno, o tecido passou a ser visto em vestidos das mulheres mais nobres na Europa e nas colônias. Além disso, ele também era usado em acessórios, ornamentos, sapatos chamativos, quadros, tapeçarias e outros itens domésticos.
Vestido de seda na cor madre-pérola, 1860–65.
Vestido de seda na cor madre-pérola, 1860–65. Fonte: Met Museum.
Esse era e continuou sendo um material para poucos. Afinal, mesmo com a mecanização da sua produção, o processo para a sua obtenção continua sendo muito trabalhoso.
Contudo, ainda que tenham surgido inúmeras “sedas alternativas”, a seda original nunca perdeu o seu mercado, se mantendo como um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade.

Entenda a sua produção: o Bicho-da-Seda

 

O bicho-da-seda, larva ou lagarta da mariposa doméstica bombix mori, passa por três etapas de metamorfose. A primeira como lagarta, que é o período de crescimento, de crisálida; a segunda fase, quando a lagarta se encasula; e finalmente o momento em que ela se transforma em borboleta ao furar o casulo e se libertar.

 

Larvas do bicho-da-seda.
Larvas do bicho-da-seda. Fonte: Wikimedia commons.

 

No momento da formação do casulo, a lagarta expele um filamento contínuo e viscoso que se solidifica em contato com o ar.

O casulo é construído com este fio, que tem entre 1.500 a 3.000 metros de comprimento e é enrolado em torno do corpo da lagarta.

 

Casulo do bicho-da-seda.
Casulo do bicho-da-seda. Fonte: Wikimedia commons.

 

Durante a formação do casulo, o bicho-da-seda move sem parar a sua cabeça, de maneira a dirigir o fio na forma de uma cápsula helicoidal ou em forma de ovo.

Os casulos normalmente assumem um formato oval, necessário para o desenrolamento no processo de fiação. Entretanto, podem também ser encontradas outras formas de casulos, algumas inclusive impróprias para utilização.

 

 

O fio de Seda

 

Mariposa Bombyx mori.
Mariposa Bombyx mori. Fonte: Wikimedia Commons.

 

O fio de seda é fabricado do casulo da lagarta de diversas mariposas, mas a mais comum é mesmo a do bicho-da-seda da amoreira (Bombyx mori), que responde por mais de 90% da produção no mundo. Como mostrado pela Super Interessante, a sericultura moderna é mecanizada mas o processo é quase o mesmo de 5 mil anos atrás.

Antes de mais nada, o ciclo biológico do bicho-da-seda, da colocação dos ovos à sua eclosão como borboleta, é em si um processo muito interessante.

Dos ovos nascem as larvas, que se alimentam vorazmente de folhas de amoreiras, aumentando em até 10.000 vezes o seu tamanho inicial em pouco mais de 20 dias. Chegando à idade adulta, a larva procura um apoio adequado para a construção do seu casulo, passando a expelir continuamente o fino fio da seda.

 

Ciclo da vida do bicho-da-seda, Bombyx mori.
Ciclo da vida do bicho-da-seda, Bombyx mori. Fonte: Wikimedia Commons.

 

Já dentro desse casulo, ela entra na fase de crisálida, na qual transforma-se em borboleta.

Ao nascer, procura o seu par para o acasalamento. Assim, a fêmea bota centenas de ovos, recomeçando o ciclo.

 

O tratamento do material

 

Em resumo, a partir daí é feita a secagem dos casulos (e da crisálida), para evitar a eclosão e ruptura do fio de seda.

Passa-se então para a seleção dos casulos, visando eliminar aqueles defeituosos ou avariados. Assim, o objetivo é obter uma classe homogênea do produto.

Por fim, os casulos classificados como ruins podem ser utilizados na fabricação de schappe de seda: o fio feito com desperdícios de seda natural, que é utilizado em tecidos, fitas, etc.

 

Produção de seda em Suzhou.
Produção de seda em Suzhou. Fonte: Wikimedia Commons.

 

Lembra da lenda contada no princípio do artigo? Antes de desenrolá-los, os casulos permanecem em água quente a fim de amolecer a sericina.

A ponta do casulo então é liberada com o auxílio de uma “escova”. Em seguida, os casulos ficam em outro banho aquecido, onde os filamentos são reunidos em quantidade que varia em função da espessura do fio que se deseja obter: quanto mais grosso for o fio desejado, maior será a quantidade de casulos a serem reunidos.

 

Homens a pesar os casulos de seda, 1911.
Homens a pesar os casulos de seda, 1911. Fonte: Archive.org.

 

Para cada 100 kg de casulo, obtemos cerca de 9 a 10 kg de seda fiada.

Os fios seguem então para a tecelagem, onde são construídos os finos, nobres e – agora entendemos o porquê – tão valorizados tecidos de seda.

 

Tecelã trabalhando a seda em Khotan, na China.
Tecelã trabalhando em Khotan, na China. Fonte: Wikimedia commons.

 

O mais nobre dos tecidos

 

Costumo dizer que, se a Ferrari é mais do que um carro, a seda é mais do que um tecido. Ela abriga muita história e glamour, além de um brilho inconfundível.

Qualidades próprias e outras percebidas pelos nossos olhos, pela nossa pele, e até pela nossa audição. Experimente esfregar os tecidos de seda. Você perceberá um barulho que só ela tem!

 

Exibição de peças de estilistas chineses contemporâneos no China National Silk Museum.
Exibição de peças de estilistas chineses contemporâneos no China National Silk Museum. Fonte: PR Newswire.

 

Por isso, tome cuidado quando alguém tentar te vender seda-alguma-coisa, como a seda-javanesa ou qualquer outro tido de seda-artificial ou seda-sintética. Essas são imitações feitas com fibras diferentes, não têm nada a ver com o nobre material.

A seda genuína é exclusivamente feita com os casulos do bicho-da seda (bombix mori), nada mais.

Quem nunca teve um vestido de seda, seja de festa, de noiva ou um top, ou apenas um echarpe ou uma gravata? Por esses e tantos outros motivos, a seda sempre fará parte da nossa vida e história.

 

Por Robson Ferreira.

Editado e revisado por Mariana Boscariol.

 

A seguir, leia também:

 

 

Ilustração dos imperadores no descobrimento da seda

 

A SEDA


Mapa com estes trajetos.

 


Esquema biológico da lagarta do Bicho-da-seda

 

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Seleção dos casulos

 

 

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