Dior SS 2020 – E se as mulheres governassem o mundo? Feminismo e deusas gregas na Alta Costura de Paris

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Para o desfile Dior SS 2020, Maria Grazia Chiuri reinterpretou deusas gregas, Cleópatra e outras referências da antiguidade na passarela da Semana de Alta Costura.

“E se as mulheres governassem o mundo?”

Essa pergunta engajada, levantada por Judy Chicago – a emblemática artista norte-americana – foi a fonte de inspiração central nas criações de Alta Costura Primavera-Verão 2020 da Dior.

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O divino feminino é tema da Dior SS 2020 – Alta Costura

Em um mix de referências de povos da antiguidade, o desfile da Dior trouxe deusas gregas, Cleopátra e até um perfume de Mesopotâmia para as silhuetas da Primavera / Verão 2020

Qual o papel das mulheres na história e na cultura?

Celebrando a divindade feminina, Maria Grazia Chiuri retomou um dos seus temas preferidos: o feminismo. A coleção foi inspirada pelo trabalho da artista feminista Judy Chicago, que procura examinar o papel da mulher na história da humanidade.

Maria Grazia evocou divindades greco-romanas e rainhas da antiguidade para transformar as mulheres contemporâneas em verdadeiras deusas, deixando implícita uma mensagem de poder: devemos tomar as rédeas de nossas vidas, ter mais mulheres em posições de poder, devemos ser donas do nosso destino…

Judy Chicago traz o louvor e a reapropriação de um poder ancestral que está para além da ideia de procriação.

“Judy deseja compreender a complexidade das relações entre feminismo e feminilidade. Consciente do elo fundamental entre a moda e o corpo, ela o redesenha, como um manifesto. (…) Mas ela é, acima de tudo, o louvor e a reapropriação de um poder ancestral que está para além da ideia de procriação.

Maria Grazia Chiuri coloca em destaque a visão desta pioneira, fundadora da arte feminista norte-americana, que deu vida nova a uma concepção divina de feminilidade, triunfante, dona de suas escolhas.” Via site da Dior

Quem é a Judy Chicago?

Judy é uma artista feminista americana, educadora de arte e escritora conhecida por suas grandes peças colaborativas de instalação de arte sobre imagens de nascimento e criação, que examinam o papel das mulheres na história e na cultura.

Durante a década de 1970, Chicago fundou o primeiro programa de arte feminista nos Estados Unidos na California State University Fresno (antiga Fresno State College) e atuou como uma catalisadora da arte feminista e da educação artística. Sua inclusão em centenas de publicações em várias áreas do mundo mostra sua influência na comunidade artística. Além disso, muitos de seus livros foram publicados em outros países, tornando seu trabalho mais acessível aos leitores internacionais.

 

O trabalho de Chicago incorpora uma variedade de habilidades artísticas, como bordados, contrabalançadas com habilidades intensivas em mão de obra, como soldagem e pirotecnia. Seu trabalho mais conhecido é o The Dinner Party, instalado permanentemente no Elizabeth A. Sackler Center for Feminist Art, no Brooklyn Museum.

A obra celebra as realizações das mulheres ao longo da história e é amplamente considerado como a primeira obra de arte feminista épica. Outros projetos de arte notáveis ​​de Chicago incluem International Honor Quilt, The Birth Project, Powerplay e The Holocaust Project.

Vestidos e looks do desfile Dior Primavera 2020

Para realizar seus looks, a Diretora Artística inspirou-se nas representações clássicas das deusas, como Atena. Seu porte majestoso é uma alegoria neoplatônica da beleza, destacada por obras icônicas como a Vitória de Samotrácia ou A Primavera de Sandro Botticelli, reunindo força intelectual e harmonia estética.

Motivos essenciais dessa coleção: ramos de trigo, dourados e nutritivos, remetem mais uma vez ao inabalável poder criativo das mulheres.

O peplum, modelagem de uma modernidade atemporal, surge em vestidos de festa e outros looks, tendência que você viu ante aqui no Fashion Bubbles.

Drapeados, plissados e franjas são o ponto alto da coleção, com sua linha despojada, moldam a estrutura dos looks. Segundo o site da Dior, “voltar às origens desses ornamentos antigos amplia o questionamento: “Are Clothes Modern?”* – fio condutor do processo criativo de Maria Grazia Chiuri – sublimando ao mesmo tempo os códigos da Dior.

Essas novas reinterpretações ganham uma deslumbrante paleta de cores, com destaque para o dourado, e, foram envolvidas por cordões trançados.

 

Peças leves, plissados e transparências – Tendências Primavera / Verão 2020 / 21
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Para a Primavera / Verão 2020, a Dior reinterpreta divindades gregas com um olhar moderninho e empoderado. Franjas, recortes estratégicos e muito brilho dourado se misturam em modelos variados. Da alfaiataria aos longos fluídos, a mulher Dior está preparada para todos os momentos, com muita personalidade.

https://www.youtube.com/watch?v=tTXEDm17LwI

O divino feminino é tema da Dior SS 2020 Alta Costura

O Museu Rodin, em Paris, foi palco para a coleção da marca. Dentro do ambiente, a instalação “Divino Feminino” foi criada pela artista Judy Chicago.
Retornando ao feminismo que inspira suas coleções desde que passou a assinar a Dior, Maria Grazia Chiuri pautou a coleção na pergunta “E se o mundo fosse comandado por mulheres?”. Esse banner marcou a entrada da passarela e foi inteiramente bordado à mão, na India.

Instalação da Dior no Museu Rodin
Todos os banners do desfile Dior SS 2020 são bordados à mão e trazem indagações relacionadas ao tema “O divino feminino”.

Além disso, a instalação contou com diversos banners, dentro da mesma temática. Do teto, caíam tecidos bordados com indagações: “Seria Deus feminino?”, “Existiria violência?”, “A Terra estaria protegida?”, “As mulheres velhas seriam reverenciadas?”. Para pensar e admirar!
Aliás, o espaço segue aberto, com uma mostra, até dia 26 de janeiro de 2020.

Dior + Chanakya School: empoderamento feminino além da passarela

Além da artista Judy Chicago, quem também ajudou a criar a instalação da Dior foram as alunas da Chanakya School of Craft, em Mumbai, na India. A iniciativa visa ensinar técnicas artesanais para mulheres em situação de risco.

As alunas da escola de artes Chanakya, em Mumbai, bordando o banner da Dior à mão.

Os alunos da escola aprendem 700 técnicas impressionantes de artesanato que são necessárias para se tornar um mestre artesão – uma posição reservada exclusivamente para homens no país. No entanto, com a direção e o treinamento certos, a Chanakya School of Craft visa fornecer habilidades empregáveis para as mulheres como um meio de ganhar a vida.

https://www.instagram.com/p/B7i8H1SpZEf/

https://www.instagram.com/tv/B7jAAr6oLMU/

Um pouco da história das franjas para entender essa tendência revisitada pela Dior

Mitologia grega e feminismo inspiram Maria Grazia Chiuri a pensar em um mundo governado por mulheres.
Historicamente as franjas aparecem como símbolo de poder na antiguidade.

“O primeiro registro conhecido que fala sobre franjas em roupas é na Bíblia, sim no relato do livro de Números 15:39: ‘Vocês devem ter essas franjas nas suas roupas para que, ao vê-las, se lembrem de todos os mandamentos de Jeová e lhes obedeçam...” (Tradução do Novo Mundo da Biblia Sagrada -Revisão 2015 – Online). Deus ordenou aos israelitas, através de Moisés, que fizessem franjas nas abas das suas vestes, com um cordel azul por cima da franja. Isto parece ter sido uma peculiaridade da vestimenta dos israelitas hebreus e fornecia um lembrete visual de que deviam obedecer aos mandamentos de Deus.” Por Camila Narracci no Mulher Versus Moda .

As franjas caracterizavam também os trajes étnicos, como nos rituais de povos primitivos ou nas roupas dos índios americanos. Passaram para o estilo cowboy, no traje dos vaqueiros, para darem uma reviravolta na década de 20 quando foram revisitadas.Nos anos 20, esse elemento traduzia, com perfeição,  toda a aceleração desta época.

A primeira vez que as franjas apareceram no cenário da moda como enfeite decorativo foi nos Estados Unidos juntamente com o Charleston na década de 20. Na época Coco Chanel, na França, influenciada pelo movimento da Boemia que caracterizava a despreocupação com relação a bens materiais e às normas, lançava a moda dos vestidos mais leves, sem cintura marcada livrando as mulheres assim dos apertadíssimos corsets e das longas e armadas anáguas ou saiotes. De repente, as saias levantou-se acima do joelho, pela primeira vez na história ocidental, e a franja foi usado para adicionar um pouco de comprimento para os estilos ousados.

Quando  a dança charleston começou a fazer sucesso, os vestidos de franjas eram os ideais para este tipo de dança muito movimentada pois ajudava a dar movimento aos passos e logo os vestidos de franjas caiu nas graças principalmente das dançarinas de charleston que dançavam em cabarés até as grandes damas que dançavam em seus luxuosos clubes noturnos. Por Camila Narracci no Mulher Versus Moda

Já nos anos 70, período de grande retorno às referências étnicas e também orientais, as franjas voltam com tudo! Entretanto, a década de 70, têm uma particularidade muito interessante: a androginia.

Androginia refere-se a dois conceitos: a mistura de características femininas e masculinas em um único ser, ou uma forma de descrever algo que não é nem masculino e nem feminino. Sentidos que tomaram ainda mais força neste início de século. Assim são as franjas, retas como o falo masculino, mas, que ao menor vento ou movimento, adquirem toda sinuosidade da corpo feminino.

Elas também podem refletir a velocidade de mudança dos tempos em que vivemos, tremulam rapidamente, como nos loucos anos 20, como ficou conhecida essa década, tão tecnológica quanto a nossa e permeada de revoluções igualmente intensas.

 
Por Francieli Hess e Denise Pitta
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