Maria Teresa Goulart, primeira dama do país e da moda brasileira

Maria Teresa Goulart, primeira dama do país e da moda brasileira

Portugal descobriu o Brasil em 1500 e passou depois a colonizá-lo: essa colonização nada mais foi que a introdução, aqui, onde os índios ainda viviam na idade da pedra, da construção, usos, utensílios, ferramentas, produção e também da moda de vestir européia, em contraponto à moda dos índios, que andavam nus, com o corpo pintado.

Nada é de se estranhar, portanto, que mais de quatro séculos e meio e muitas fábricas depois, o carro, por exemplo, já fosse produto da indústria nacional, mas a moda, para ser reconhecida como tal, teria que vir do estrangeiro: é que o carro e outros bens materiais, pertencentes ao mundo concreto, eram mais fáceis de ser assimilados do que a moda, bem imaterial, subjetivo, que pertence ao imaginário.

Foi a renúncia de Jânio Quadros à presidência da república, em 1961, que deu ao Brasil uma primeira dama jovem e linda: Maria Teresa, aos 23 anos, esposa do vice-presidente João Goulart, então empossado na presidência.

Muitos brasileiros já acompanhavam a saga da também jovem e elegante primeira dama dos Estados Unidos, Jacqueline Kennedy, que desfilava com classe inigualável os modelos dos figurinistas americanos.

Maria Teresa Goulart, primeira dama do país e da moda brasileira

O surgimento de Maria Teresa Goulart inflamou as imaginações e comparações entre as duas, com vantagem para a brasileira, oito anos mais jovem. O encanto de Maria Teresa conquistou a imprensa, que logo percebeu seu potencial midiático, que tinha, além do charme e beleza, a empatia do papel da mulher como esposa e mãe dedicada. As fotos e notícias de Maria Teresa faziam vender jornais e revistas! A festa de aniversário de um de seus filhos era um acontecimento para os jornalistas!

Maria Teresa Goulart, primeira dama do país e da moda brasileira

Em 1963 surgiu a notícia de que os Kennedy viriam ao Brasil: incendiaram-se as imaginações, que vibravam ante o confronto das duas mais belas primeiras-damas do planeta! Cogitou-se que Maria Teresa encomendaria seus vestidos ao costureiro francês Jacques Heim, ao que a colunista da “Última Hora,” Alik Kostakis, escreveu: “Em nossa opinião, um brasileiro poderia tomar conta do recado. Basta lembrar que todo o guarda-roupa de Jackie é, no momento, de Oleg Cassini, americano, considerado o figurinista oficial da Casa Branca.”

Segundo Carlos Dória, em seu livro “Bordado da Fama, Uma Biografia de Dener,” “Maria Teresa vestiu a carapuça: mandou que fossem convocados ao Palácio das Laranjeiras os cariocas José Ronaldo e Joãozinho Miranda, e Dener, de São Paulo.

A responsabilidade de vestir Maria Teresa Goulart era algo realmente notável – Dener sabia disso melhor do que qualquer concorrente.” Sendo escolhido, passou a ser o figurinista oficial da bela primeira-dama. Ao tirar suas medidas, declarou: “Acho muito agradável costurar para Maria Teresa: Ela possui medidas perfeitas.”

Explodiu a crise dos mísseis soviéticos em Cuba: os Kennedy não vieram, mas Maria Teresa tornou-se o mais importante modelo da moda brasileira que então se formava, ao ponto de Dener dizer: “Hoje a primeira-dama é um fator importante no desenvolvimento da indústria nacional de seu país… E eu gostaria de ter Maria Teresa vestindo sempre Dener”.

Dener com uma de suas esposasMaria Teresa Goulart, primeira dama do país e da moda brasileira

Tendo Dener como seu costureiro oficial, Maria Teresa fez parte, naquele ano de 1963, da lista do jornalista Jacinto de Thormes, que elegia, de forma rigorosa, as dez mulheres mais elegantes do Brasil. Nas páginas das revistas O Cruzeiro e Manchete o sonho da beleza, da elegância e do glamour chegava às mãos da população como um prenúncio de felicidade. E o sonho continuava: Dener propôs a Maria Teresa a realização de desfiles de suas criações e o primeiro, de caráter beneficente, apresentou em Brasília, na noite do dia 22 de abril de 1963, noventa e oito modelos do costureiro, que figurava sempre ao lado da bela primeira-dama.

No dia do descobrimento do Brasil, o Brasil começa a descobrir a sua moda! Convidados vieram de todo o país e o bispo de Brasília, dom José Newton, também vibrava, assistindo ao desfile, cuja renda se reverteria para a Legião Brasileira de Assistência. Entusiasmado com os benefícios sociais do evento, prometeu telefonar ao cardeal de São Paulo, dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, solicitando-lhe que apoiasse o desfile que breve teria lugar na capital paulista e que foi também um triunfo.

No dia 23 de abril, Maria Teresa, deliciada, lia no jornal: ”Pela primeira vez em nossa história, a esposa do Presidente prestigia oficialmente um criador de moda brasileira. E posso afirmar que Dener merece realmente esse privilégio, pois os modelos exibidos são de categoria internacional.”

Logo em seguida, em maio, Dener atendeu ao convite da primeira-dama e foi a Brasília, para tratar da confecção dos modelos de sua coleção de inverno; outros acontecimentos se seguiram, fazendo de Maria Teresa um ícone da moda brasileira, que se consolidava no imaginário da nação. E com a moda, a promessa do charme, da magia da beleza, que está associada ao encantamento do amor e do romance.

Mas há muito tempo já os céus da política brasileira se ensombreciam, com nuvens de tempestade, até que a tormenta se precipitou no dia 31 de abril de 1964, com o golpe militar, que levou ao exílio a família presidencial. Para os brasileiros, apagava-se a estrela de Maria Teresa, mas a sua rápida passagem pela moda nacional teve um brilho permanente, cintilante clarão que revelou ao Brasil o seu potencial de criação e elegância. O encantamento de uma jovem e bela primeira-dama, que simbolizava todas as ilusões que a moda desperta e terá sempre lugar de honra na história fashion brasileira.

Por Ignez Pitta

Leia também e veja mais fotos em Maria Tereza Goulart – Parte II.

Leia entrevista com Maria Teresa, viúva de João Goulart

Publicação: 19 de julho de 2007

AUTOR

Ignez é historiadora. Contato: http://www.myfashionbubbles.com/profile/IgnezPittadeAlmeida

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