Outro dia fui com duas amigas comer “o melhor bolo de chocolate do mundo”. É um lugarzinho minúsculo, porém charmoso, que tem o nome da principal (praticamente única) “iguaria” servida – “O melhor bolo de chocolate do mundo”.
Fica num dos bairros mais “hype” de São Paulo – os Jarrrdãããns. Jardins, na verdade. Mas eu gosto de brincar com o nome, falando assim, com sotaque “francês”, porque o povo dos Jarrrdãããns é muuuito chique.
Aí, eu, com minhas queridas amigas, sentadinha no meu canto, numa tarde de domingo típica de outono (ensolarada, mas friazinha – delícia), me peguei reparando nas pessoas, o que não é nenhuma novidade. Tenho esse desvio de comportamento: adoooro reparar nos outros, sorry! Entre uma garfada e outra, cheguei à conclusão de que descobri uma nova classe social: a Classe “P”.
Diferentemente das demais classes sociais, a Classe P não é definida pelo poder de compra, nível salarial ou escolaridade. Não é preciso saber quantos aparelhos de tevê, quartos ou banheiros a pessoa tem em casa. Nada disso: a Classe “P” é definida por pura atitude. E mais: representantes da Classe P estão por toda parte, em praticamente todas as letras do alfabeto. Acompanhe meu raciocínio (nada científico, mas um raciocínio)…
Repare na legião de mulheres que desfilam por aí com bolsas Prada ou Louis Vuiton. E naquelas com óculos de sol Gucci ou Channel. Pode apostar: 90% pertencem à Classe P. Compraram tudo daquela amiga-que-conhece-não-sei-quem que traz (muamba) de Nova York. Ou numa lojinha da avenida Paulista. Enfim, tudo de camelô ou, no mááááximo, de algum outlet bem baratinho (ah, mas foi um “achado”!). Nada contra camelô (?!) – meio de vida de quem tem que se virar de algum jeito. Mas é engraçado, vai! Porque o importante para a Classe P é a pose. Afinal, quem é que sabe reconhecer o que é original?
“A vista chega antes das palavras.
A criança olha e vê antes de falar”
John Berger
A importância da Observação Participante e da Pesquisa Etnográfica na área de Consumer Research
Muita coisa muda o tempo todo no acelerado e incansável mundo novo.
E a compressão do espaço-tempo da vida pós-moderna cria outras formas de viver, observar e ver o mundo. Na verdade, as experiências nossas de cada dia, não nos permitem mais a velha prática contemplativa, e parecem conspirar contra a atenção concentrada e a reflexão filosófica sobre as coisas do mundo.
Parece que somente nos resta o exercício esquizofrênico do presente vertiginoso, que mesmo assim, nos escapa entre os dedos e lentes. Nada mais parece apreensível, localizável e estável. Tudo que é liquido, escorre para logo depois evaporar. Olhares liquefeitos, vivências fugazes, leveza das formas, fragmentos de vida se desmanchando no ar, diante de nossos olhos desatentos. Tudo sem tempo e lugar, nada tendo duração ou identidade. Isso significa que estamos condenados a errância niilista?
Significa que estamos presos a uma lógica vazia e insana e qualquer tentativa de compreensão do que vivemos e somos é um ato precipitado e sem sentido? Será que já não somos mais capazes de entender e interpretar o mundo que nos envolve e nos cerca?